Califórnia Filmes
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Ator Jérémie Renier fala do perverso mas divertido 'O Amante Duplo', filme de François Ozon

Francês também estreia na direção, junto como irmão, em 'Carnívoras'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 Junho 2018 | 06h00

Jérémie Renier esteve no Brasil, com o irmão Yannick, participando do Festival Varilux do Cinema Francês com dois filmes – O Amante Duplo, de François Ozon, e Carnívoras, que eles dirigiram. O Ozon estreou nesta quinta, 21, recebido com pancadas por diversos críticos. É perverso, mas pode ser divertido, um filme colagem com elementos de David Cronenberg (Gêmeos, Mórbida Semelhança) e Alfred Hitchcock (Marnie, Confissões de Uma Ladra).

Sempre naturalista no cinema dos irmãos Dardenne, com quem fez vários filmes – A Criança, O Garoto da Bicicleta, A Garota Desconhecida –, Jérémie faz aqui uma composição. O repórter observa que nunca o viu tão viril. “François (Ozon) dizia que, se eu não fosse bem viril em cena, estragaria o filme. Já o conheço há tempos. A filmagem teve momentos engraçados. Fazia a cena e perguntava: Assim está bem ou quer mais?” Um psicanalista que se envolve com a paciente? “François fez pesquisas e diz que isso ocorre. É da natureza humana. Mas é uma obra de ficção, e na ficção tudo que não é ofensivo é permitido.”

Sobre os rumos de sua carreira, Renier lembrou que filmou na Argentina com Pablo Trapero, Elefante Branco. “Foi uma experiência enriquecedora, porque Pablo é um diretor de grande talento e eu contracenava com Ricardo Darín, que é hoje o ator argentino mais conhecido no mundo. Estou numa fase de querer me conectar com o trabalho de diretores e roteiristas de todo o mundo. O desafio é sempre conseguir passar de forma convincente o que está escrito. É a minha função como ator.” E sobre trabalhar com Ozon – “Já o conheço há 20 anos. Quando ele me propôs, senti o desafio. Não sei se conseguiria fazer o papel com outro diretor. É muito invasivo. Gosto de François. Faz um cinema comercial com pegada autoral.”

Não apenas - Ozon gosta de mudar, de filme para filme. Se o anterior Frantz, com Pierre Ninney e Paula Beer, era pudico até o limite, o diretor agora se esbalda na provocação sexual. Filma um olho dentro de uma vagina (Cronenberg?) e coloca Jérémie e Marina Vacth conversando, ambos nus, sentados em cadeiras um de frente para o outro. “Aquilo foi esquisito”, admite. E sobre dirigir Carnívoras com o irmão? “Há tempos queria realizar essa experiência. A direção foi-se impondo como uma necessidade. É sempre uma forma de testar seus limites, avaliar o que você aprendeu com os grandes e também de realizar o desejo de contar as minhas histórias. Foi bom codirigir justamente com Yannick.” A atriz Zita Hanrot, que acompanhou os irmãos no Brasil, só teve elogios para os dois.

Carnívoras é um filme sobre fraternidade e dirigi-lo com meu irmão nos levou a repensar e fortalecer a própria relação familiar”, explica Jérémie. “Yannick vem principalmente do teatro, tem outra formação, outro olhar. O filme tem uma pegada trágica. As atrizes que fazem as irmãs sabiam que seria assim. Nosso filme ficou bem próximo do roteiro, talvez por sermos estreantes. As ousadias já estavam definidas na escrita.”

 

E o empoderamento hein? A heroína que pega em armas

Quem não aguenta mais ouvir falar de empoderamento feminino tem de fugir do longa da francesa Coralie Fargeat. Vingança é sobre uma mulher que participa de caçada com o amante e mais dois amigos dele. A aridez do deserto acirra os ânimos, ela está seminua e parece convidativa. Os amigos servem-se da moça, com a condescendência do amante. Estupro, violência. Jen, é seu nome, é abandonada para morrer, mas sobrevive e, como indica o título, vai à luta contra seus algozes.

Vingança fez sucesso em festivais internacionais. Parece uma simples inversão de gênero e, após tantos filmes sobre homens que apanham e se vingam, temos agora as mulheres justiceiras. #MeToo na ficção.

Matilda Lutz, que faz o papel, é bela e selvagem. Como qualquer Van Damme ou Schwarzenegger, ela pega em armas e vai eliminando os caras. A premissa é bem feminista. Olhar pode, tocar não. Coralie, a bem da verdade, filma razoavelmente o deserto e revela inteligência no uso dramático da cor. Ela utiliza até os símbolos, fazendo lembrar o célebre reflexo do sol na taça quebrada de Cinzas do Paraíso, de Terrence Malick, há 40 anos, que tanto significado tinha no desenvolvimento da trama de amor de Richard Gere e Brooke Adams. No caso de Vingança, é uma maçã mordida e abandonada, cuja putrefação adquire significado metafórico por se tratar do fruto do pecado.

Mas Coralie vai além. Ao encenar sua tragédia na natureza, transforma tudo num choque de instintos animais. Os bichos estão sempre à espreita. Se fosse um filme de homem, o veredicto seria ‘bem feito’. A polêmica deve-se às mulheres, que repetem a trajetória dos homens. É isso a igualdade? 

 

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