Ator fala das cenas de "Carandiru"

Os primeiros fotogramas foramdecisivos - no fim do mês passado, com o desativado Presídio doHipódromo, em São Paulo, cercado por uma atenta equipe técnica eiluminado por potentes refletores, o ator Luiz CarlosVasconcellos aguardou o famoso grito de "ação" do diretorHector Babenco para finalmente vivenciar as experiências domédico Drauzio Varella no filme "Carandiru". "Babenco dirigiua cena com extremo carinho, o que foi importante para nossaintegração", conta o ator, que rodou justamente os primeirosdez minutos do longa: o médico chega ao presídio e é recebidopelo diretor, que o acompanha até a enfermaria. A cena reproduz o momento acontecido em 1989, quandoVarella, cancerologista de prestígio, engajou-se no trabalhovoluntário de prevenção à aids na Casa de Detenção de São Paulo,o famoso Carandiru, complexo penitenciário onde vivem milharesde presos e que será desativado. Dez anos depois, a experiênciaacumulada permitiu-lhe escrever "Estação Carandiru" (Companhiadas Letras), best seller por retratar, em tom direto, o universode criminosos que são obrigados a se suportarem em condiçõesdesumanas. "E é justamente esse tom direto que Drauzio utiliza notratamento com os presidiários", impressiona-se Vasconcellosque, para interpretar o papel do médico, dedicou-se intensamente acompanhando-o em sua rotina semanal de assistência aospresidiários, buscando detalhes que pudessem transformar suaatuação. O aprendizado foi produtivo - o ator espantou-se com otom disciplinador com que o médico trata os doentes. "Ele vaiaté o limite da dureza, sem alisar, questionando muito ospresos; afinal, trata com criminosos de toda espécie", conta oator. "Mas, ao mesmo tempo, em nenhum momento, dr. Drauzioesquece o humanismo: ele sabe que está tratando de uma pessoa,independentemente dos pecados que cometeu." Uma longínqüa experiência auxiliou Vasconcellos notrabalho de pesquisa. Antes de se decidir pela carreira de ator,ele acreditava que seria médico, a melhor profissão paraauxiliar as pessoas. Em 1975, ofereceu-se para trabalhar comoauxiliar de enfermagem no Hospital Padre Zé, em João Pessoa, naParaíba. Lá, cumpria plantões aos domingos, quando conviveu comdiversos tipos de doenças e acidentados, o que ajudou noaprendizado de aplicar injeções e fazer curativos. Papel social - "Foi uma experiência fascinante, que sónão foi adiante porque participei de um curso de teatro em OuroPreto com outros atores, como o Jonas Bloch, e descobri que meuobjetivo era outro", lembra Vasconcellos. "Como artista, meupapel social também seria importante; o próprio personagem queinterpreto no filme é prova disso." Uma certa semelhança físicae a facilidade em viver personagens serenos, mas determinados,contribuíram para que ele fosse convidado para o filme, emjaneiro. Paraibano de Umbuzeiro, onde nasceu há 47 anos, palhaçode circo por formação e um dos criadores da Intrépida Trupe,grupo que reúne artistas circenses no Rio de Janeiro, LuizCarlos Vasconcellos descobriu uma nova forma de sociedade, a dospresidiários, com suas regras e terríveis mazelas, ao acompanharDrauzio Varella semanalmente no Carandiru e no Hospital EmílioRibas. "Ele me apresentava como dr. Luiz Carlos, seu assistente o que me conferia respeito." Os problemas, porém, eram da pesada. Logo no primeirodia de acompanhamento, o ator foi obrigado a atender umtuberculoso. Durante a sessão, o doente sofreu uma crise e teveum acesso de tosse, expelindo uma boa quantidade de secreção bemdiante de Vasconcellos e do médico. Drauzio Varella, acostumadoà rotina de lidar com vidas que estão por um fio, manteve-seimpassível e executou o tratamento profissionalmente. O ator, porém, sentiu o efeito emocional. Se, no momentoda sessão, manteve-se controlado, no dia seguinte, já no Rio,uma pressão no peito e ligeira falta de ar deixaram-nodesesperado. "Liguei imediatamente para Drauzio, acreditandoque já estava com tuberculose", conta. "Ele perguntou ossintomas e me tranqüilizou, dizendo que eu ficara impressionadoe o que eu tinha não passava de uma gripe." Razões não faltam para se impressionar. Vasconcellosnotou que o médico não usa luvas ou máscara e mesmo assim nãovacila em tocar ou se aproximar dos pacientes. "Passamos um diainteiro com tuberculosos e homens infectados com o vírus da aidse ele não se intimida em tocar em feridas, apalpar corpos,aproximar-se." Constrangimentos - O atendimento é feito no ambulatóriodo presídio e o ator percebeu que somente em casos maisespecíficos é que o médico leva o paciente ao banheiro, às vezespara evitar constrangimentos - foi o que aconteceu com umtravesti com sarna. A tensão também faz parte da rotina, como achegada de pacientes aos gritos, exibindo a barriga aberta àfaca. O trabalho não parece ter fim: em apenas uma quarta-feira,a dupla atendeu a 30 presidiários do pavilhão 8. Em outro dia,como o dentista estava em férias, Vasconcellos e Varella foramobrigados também a aliviar as dores bucais. O ator conta que observa todos os detalhes, a forma comoo médico se senta, observa, toca o paciente, escolhe as palavras impõe um tom de voz, toma as decisões com rapidez edeterminação. "Ele pratica a medicina sem medicamentos, graçasà falta de estrutura do Carandiru", conta Vasconcellos,lembrando dos inúmeros casos de dor na coluna que não podem serdevidamente tratados por falta de aparelhos de radiografia."Ele é sincero e diz que não vai solucionar o problema, apenasaliviá-lo." O ator ficou chocado ao descobrir um interno queestava com o braço quebrado havia três anos, pois não forapossível engessá-lo. "Há casos inacreditáveis de abandono." A pesquisa e o aconselhamento já frutificam - ao estudaro roteiro, Vasconcellos percebeu que teria uma cena com RicardoBlat, que interpreta um tuberculoso terminal. No encontroseguinte que teve com Drauzio Varella, ele discutiu a cena eouviu do médico conselhos sobre a melhor forma de agir. "Suagenerosidade parece infinita: ele depositou sua confiança em meutrabalho e em nenhum momento tentou interferir, dizendo como eudeveria atuar", conta Vasconcellos, que deve encerrar sua partenas filmagens até o dia 30 de abril.

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