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Atom Egoyan trata do sequestro em tempo de internet em ‘À Procura’

No novo filme, diretor segue falando de abuso infantil na rede e criticando os sistemas de vigilância

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2014 | 03h00

Atom Egoyan estava feliz da vida com o que esperava que fosse uma celebração em Cannes, em maio. Ele festejava 30 anos do primeiro filme, 25 da primeira ida ao maior festival de cinema do mundo e 20 desde Exótica. Seu filho, Arshile, fez a montée des marches, a subida na escadaria que dá acesso ao palais - e anteriormente ele só estivera no tapete vermelho de Cannes no ventre da mãe, a atriz Arsinée Khanjian. Egoyan ainda tenta entender o que ocorreu. “A gala do filme correspondeu à expectativa. Fomos muito aplaudidos. E aí, no dia seguinte, quando começaram a surgir as críticas sobre À Procura/The Captive, foi aquele massacre. Não sei o que houve na sessão de imprensa, mas não bastava aos críticos dizer ‘não gostei’. Era preciso atacar, ridicularizar, vilipendiar. Se não fosse o apoio de dois ou três jornalistas que tentaram olhar o filme com objetividade, ia me sentir o último dos mortais”, disse o diretor numa entrevista por telefone, durante a Mostra.

A Mostra! Egoyan guarda um carinho muito grande pelo evento que o trouxe ao Brasil - e o tornou conhecido dos cinéfilos brasileiros. “Leon (Cakoff, o sr. Mostra) era de ascendência armênia e amava o cinema, como eu. Sempre me senti muito próximo dele, do seu carinho. Ainda bem que Renata (Almeida) segue com a Mostra.” Ele conta que À Procura, que estreia dia 27, foi um filme que quis muito fazer. “Esse projeto me acompanha há anos e, inclusive, já existia bem antes de Sem Evidências (o longa anterior). Já estava com o roteiro praticamente pronto quando houve o convite para o outro filme. Topei, por causa da história e também porque me pareceu que seria um bom treinamento. Muita gente se confunde porque existem similaridades entre os dois filmes. Fiz Sem Evidências com todo o empenho, mas o meu filme é À Procura. Nem todas as críticas do mundo me levariam a renegá-lo. É um trabalho do qual tenho muito orgulho.”

Sem Evidências baseia-se no episódio que se tornou conhecido como ‘os três de West Memphis’, no Arkansas. Em 1993, três garotos foram brutalmente assassinados no que dava a impressão de ter sido um ritual satânico. Três adolescentes foram levados a julgamento e condenados sem provas. A polícia queria mostrar sua eficiência rapidamente e os três cabiam no perfil. Eram darks, gostavam de rock, e nada disso se ajustava ao modelo social da comunidade conservadora. A mãe de uma das vítima desconfiava do próprio marido, padrasto do menino. Após uma longa batalha judicial, os três foram soltos, mas não inocentados. O caso originou documentários e um livro (The Devil’s Knott), que Egoyan foi convidado a adaptar.

À Procura conta a história de um pai cuja filha é abduzida. Ele deixa a menina no carro e entra na confeitaria para comprar não importa o quê. Quando volta, ela não está mais. A polícia suspeita de sua versão, o casamento entra em colapso, mas o pai nunca desiste de encontrar a filha. Passam-se os anos. Reese Whiterspoon faz a mãe em Sem Evidências, Ryan Reynolds é o pai em À Procura. Não fale mal desses dois para Egoyan porque ele os ama - como pessoas e como atores. Diz que não têm nada a ver com astros, estrelas nem celebridades. São humanos e grandes intérpretes. Sua maior decepção é que o filme que deveria estabelecer Reynolds como ator, não apenas galã, entrou no buraco negro e ele - Ryan - não escapou ao massacre.

Ambos os filmes, e À Procura, que agora estreia, foram descartados como thrillers convencionais. “Mas o filme não é nem um thriller. Minha estrutura é outra. O tempo todo sabemos que a filha está viva. Se crio algum suspense não é nunca em cima da dúvida de sua existência.” O próprio diretor define À Procura como um labirinto. “Foi meu roteiro mais trabalhado. Criei uma estrutura mental. Ryan é torturado mentalmente e se torna obsessivo. Repassa os acontecimentos, como quem busca uma brecha para entender o mundo. Gosto dessa narrativa, mas pelo visto os outros, não.” Desde A Verdade Nua, e talvez antes, o cinema de Egoyan, a par do abuso infantil, vem incorporando forte crítica às novas tecnologias. “O homem contemporâneo acostumou-se à internet como uma ferramenta. Mas me interessa refletir sobre seus riscos. Há muita pornografia, muito abuso infantil, há invasão de privacidade na rede. E outra coisa me preocupa. Vivemos num mundo regido pelo desejo de segurança. Câmeras por toda parte. Só que, nada disso, impede que crimes continuem sendo cometidos. As técnicas são incorporadas e neutralizadas. É um dos aspectos mais terríveis dessa atualidade que nos consome, ou me consome.”

Em O Doce Amanhã, adaptado de Russell Banks, Egoyan mostrou os efeitos do acidente de um ônibus escolar sobre uma comunidade. A morte das crianças destrói o futuro, é todo um mundo que desmorona. Em O Fio da Inocência, o mais doce dos homens se revela criminoso, e um abusador de crianças. Em À Procura, o sequestrador é um dos esteios da comunidade. “Que mundo é esse?”, pergunta-se o diretor. “A verdade crua (título de um de seus filmes) é que nosso mundo civilizado segue bárbaro. O cinema pode nos ajudar a questionar, e entender.”

Sobre atores, ele conta que busca os que servem aos papéis. “Muitas vezes sou meu produtor. Sei o valor comercial de certos nomes, mas nunca os escolho como chamarizes de público. Reese (Whiterspoon) somou em Sem Evidências, porque é mãe e vestiu a roupa da personagem. Ryan (Reynolds) mergulhou fundo no papel. Para o público acostumado a vê-lo em comédias ou como herói de ação, poderá ser uma surpresa, mas eu sabia que podia contar com ele. Ryan carrega aquela dor, aquela raiva e eu só precisei ajudá-lo a colocá-la para fora.” Qual é o tema do seu cinema, o repórter pergunta? “É a modernidade. Vivemos num mundo de aparências. A verdade é relativa. Desde criança, criado numa família armênia, eu ouvia falar do massacre, mas ele era sistematicamente negado pelos turcos. Negar uma coisa não elimina que ela tenha sido feita. A verdade crua pode chocar, mas é melhor assim. Nada é o que parece ser. O cinema dito de entretenimento é, na maioria das vezes, alienante e pernicioso. Entender o mundo, e nos entender pode ser um bom começo.”

Thriller não convencional privilegia os olhares

Cineasta pode ter sido abandonado pela maioria da crítica, mas segue sendo um autor crítico da linguagem e do mundo

Em que momento Atom Egoyan parou de interessar aos críticos? Pois a verdade é que ele parou. Nos anos 1990, de forma quase consecutiva, em 1994 e 1997, ele ganhou o prêmio da crítica – da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, Fipresci – no Festival de Cannes, com Exótica e O Doce Amanhã. Seus novos filmes mal interessam à crítica, que antes o idolatrava. Arauto da (pós) modernidade, ele desconstruiu gêneros e os limites da alta e da baixa cultura, mas hoje é acusado de fazer thrillers convencionais.

Ele se defende que À Procura não é nem um thriller. E, se for, é um thriller bizarro. O filme conta a história de um pai cuja filha foi abduzida. Sua vida entra em colapso. A polícia desconfia dele, a mulher afasta-se. Os anos passam e nós, o público, sabemos que a menina está viva e é usada por seu sequestrador para atrair outras garotas na rede. O próprio sequestrador é bem visto na comunidade, conhece o pai e, cúmulo do sadismo, lhe concede ver a filha, mas sob certas condições que sejam seguras para ele – o criminoso.

Se há um suspense em À Procura, não é o tradicional. Quem sequestrou, onde ela (a garota) está? A tortura é outra – mental –, exercida sobre o pai e a menina. As ferramentas são outras – de busca, na internet. O computador, como instrumento de busca, baseia-se na mente humana, no cérebro que estabelece combinações e seleciona dados. Egoyan sabe disso. O pai vira obsessivo, claro. Não desiste da busca. Atom Egoyan pode ter sido abandonado pela maioria da crítica, mas é bom não desistirmos dele.

Segue sendo um autor crítico da linguagem e do mundo. E um bom diretor de atores. Egoyan queixa-se que o filme que deveria obter reconhecimento para o extraordinário ator que ele acha (sabe) que Ryan Reynolds é, não obteve o efeito desejado. Mas é que Reynolds tem aquela cara de bebezão, um jeito torto de olhar que agrada às mulheres nas comédias românticas. O olhar de dor vira raiva de bicho prestes a explodir. Rosario Dawson como a policial tem de selecionar seu olhar, saber ver. A menina vira mulher e é vigiada o tempo todo. Se há um tema nessa história de família destroçada é o olhar. E o cinema, dizia Nicholas Ray, é melodia do olhar. / L.C.M.

À PROCURA

Direção: Atom Egoyan. Gênero: Suspense (Canadá/ 2014, 112 min.). Classificação: 12 anos. Estreia em 27/11. 

Veja o trailer legendado de À Procura:

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