"Atlantis" e "Tainá" movimentam as férias

Dois novos filmes vêm somar-se às atrações para a garotada, nos cinemas de todo o Brasil. Com a chegada das férias, exibidores e distribuidores colocam o foco nos programas para crianças. Ao delicioso Shrek, desenho da DreamWorks, que estreou na semana passada, juntam-se o novo desenho da Disney, Atlantis, o Reino Perdido, e a contribuição brasileira à distração das platéias infanto-juvenis Tainá - Uma Aventura na Amazônia. E vêm mais desenhos por aí, em julho: o novo Pokémon, o novo Rugrats (em Paris!) o nacional O Grilo Feliz.Quem achou que não ia viver para ver o império da Disney ameaçado saiba que chegou o dia (não da morte - da ameaça). Fiéis aos postulados do velho Walt, morto nos anos 60, os executivos do estúdio modernizaram a forma, incorporaram tecnologias de ponta (aplicadas à computação gráfica), mas parecem ter perdido a fórmula. Desde o genial O Rei Leão, a Disney tem oscilado. Pocahontas, Hércules, O Corcunda de Notre Dame, Tarzan, Fantasia 2000, A Nova Onda do Imperador são todos mais ou menos ruins, com alguma criatividade aqui, algum humor ali, mas a fórmula dava evidentes sinais de cansaço.Com Atlantis, chega-se ao que parece o fundo do poço. Mas a Disney ainda controla o mercado e pode dispor de quase 300 salas para mostrar seu novo produto. Menos de 10% delas serão legendadas, para quem quiser conferir a voz de Michael J. Fox, que faz o herói, no original. A ênfase será para as cópias dubladas, o que tem ajudado a fortalecer o domínio da Disney nas platéias de baixinhos, ainda mais que os dubladores são sempre nomes atraentes para esse público. No caso de Atlantis, que parece mais uma aventura para meninos, o predomínio, na dublagem, é das mulheres, com Maitê Proença fazendo a vilã e Camila Pitanga a boazinha princesa Kida.Enquanto Shrek é um primor de animação computadorizada, tanto mais rica porque o extremo desenvolvimento técnico é colocado a serviço de um roteiro engenhoso na manipulação de mitos da fantasia - e da noção do politicamente correto -, Atlantis dá-se mal ao inovar usando o que parece um figurino mais tradicional. Causa espanto ver na assinatura do desenhos os nomes de Gary Trousdale e Kirk Wise, que foram mais criativos em A Bela e a Fera.Em busca do sonho - Atlantis toma como referência o clássico de aventuras da própria Disney, Vinte Mil Léguas Submarinas, que Richard Fleischer realizou nos anos 50, baseado no livro de Jules Verne. O que se conta aqui é a história de outra expedição ao fundo do mar, em busca da lendária Atlântida, referida como tal nos diálogos, embora a Disney do Brasil tenha mantido o título original Atlantis, por tratar-se, afinal, de um mundo globalizado. Um grupo heterogêneo é formado para integrar a expedição. Há os que viajam pela glória (o herói Milo), a maioria viaja pelo dinheiro que permitirá a realização de pequenos sonhos (o tema, cantado por Deborah Blando, chama-se justamente Junto com Teu Sonho) e há os que vão movidos pela ambição desmesurada, pelo poder.No fundo do mar, em vez de ruínas, o grupo encontra um bolsão de ar e uma civilização ainda viva, mas logo colocada em risco pelos vilões, que querem se apossar da fonte de energia da Atlântida para vendê-la ao kaiser. Caberá ao herói e à bela princesa, unidos ao povo de Atlantis e aos integrantes da expedição que recuperam sua dignidade, combater o mal, chegando à previsível vitória do ´bem´. Não há engenhosidade no roteiro nem no desenho, mais ligado à expressão da figura humana. É a novidade que não convence muito. Personagens humorísticos substituem os tradicionais bichinhos da Disney. As crianças poderão até gostar, mas os adultos, com certeza, vão divertir-se muito mais com Shrek. A Disney está perdendo o bonde da história. Agora só acerta quando se une à Pixar (para Toy Story 1 e 2). Novos tempos parecem estar surgindo no reino da fantasia e da animação.Mas o problema não é só de criatividade. É de mercado. Nem sempre o melhor tem a maior fatia do mercado. Milionárias campanhas de publicidade criam falsas necessidades para o público que, nesta era de globalização, só tem mesmo a liberdade de escolher o que vai consumir. No caso de Atlantis, não é só o desenho, mas a parafernália de produtos que o acompanham e que, do disco aos bonecos, estão estourando nas lojas. Neste universo de megaeconomia, as chances de Tainá são mais reduzidas e o filme produzido por Paulo Rovai e dirigido por Tânia Lamarca e Sérgio Bloch vai depender muito do boca a boca para achar seu caminho para o público.Há muito da Disney nesta indiazinha que tem um macaquinho e se une a um menino da cidade, tímido e um pouco medroso, mas com bom domínio da moderna tecnologia, para combater os vilões que ameaçam destruir a fauna e a flora da grande floresta. Os vilões são caricaturais, verdadeiros estereótipos disneynianos, predomina o politicamente correto, também disneyniano - e quando tenta subvertê-lo o filme apela para piadas de gosto duvidoso ou, mesmo, de mau gosto - mas há um motivo sério para você ver Tainá. Você, pai, mãe, tio. Você, criança. Na verdade, dois motivos.Um é a beleza da paisagem, já que Tânia Lamarca, responsável pela concepção final de Tainá, joga o espectador dentro da floresta, confronta-o com um cotidiano, uma realidade que não é a dele. E outro é a encantadora Eunice Baía, que interpreta o papel. Ainda para ficar na aproximação com a Disney Eunice é a nossa Pocahontas. Se aquele desenho fez grande sucesso nos cinemas, por que não Tainá?

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