'Até o Fim' traz Robert Redford em suspense poderoso

Com apenas dois longas no currículo, diretor J.C. Chandor se impõe com cinema forte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2014 | 19h35

Com apenas dois longas no currículo, J.C. Chandor – o J é de Jeffrey – rapidamente se impôs no circuito dos festivais. Margin Call, de 2011,participou de Sundance e da Berlinale, e foi indicado para o Oscar de roteiro. All Is Lost, rebatizado como Até o Fim, entrou de última hora na competição de Cannes do ano passado e valeu ao veterano Robert Redford um monte de prêmios de melhor ator, a começar pelo da Associação dos Críticos de Nova York. Muita gente não se conforma de que o astro de Butch Cassidy não tenha sido indicado para o Oscar.

De uma maneira talvez simplificada, pode-se dizer que Chandor fez o seu O Velho e o Mar, pegando carona no livro de Ernest Hemingway sobre o pescador – Santiago – que transforma a perseguição a um peixe numa jornada épica, ou mítica. O caso de Até o Fim é de outra natureza, e é bem de natureza que se fala aqui. A natureza humana, que leva Redford a se definir de cara como um homem que não aceita seus limites, e a natureza cósmica, que se abate sobre ele. O herói parte em seu barco, sofre uma avaria grave – choca-se com um contêiner à deriva no oceano –, mas resolve o problema, com a precariedade dos meios de que dispõe. Quando parece solucionado, outro problema, muito maior, se apresenta – uma tempestade em alto-mar que coloca o velho marinheiro à mercê de uma grande onda como aquela que se abateu sobre George Clooney e seus amigos no longa de Wolfgang Petersen.

Se há um filme que merece a classificação de ‘chamber piece’ é Margin Call. Passa-se todo em interiores, mas não necessariamente interiores fechados. Como vários outros filmes que, em anos recentes, têm tentado revelar a intimidade do sistema financeiro, Margin Call passa-se, em boa parte, em prédios e salões que parecem transparentes. Há muito vidro, como se a intenção fosse olhar o mundo através dessas paredes quase invisíveis. Só que se trata de uma ilusão. A transparência, nesse mundo, não existe, e os personagens de Margin Call são pais e tios do Lobo de Wall Street, e tão predadores quanto o personagem de Leonardo DiCaprio.

A surpresa, agora, é ver J.C. sair dessa armadilha de cristal para se perder no abismo marítimo, nesse mar calmo que se encrespa e cujas ondas ameaçam tragar o barco de Robert Redford. Pergunte a 11 entre dez cineastas que já filmaram no mar. Eles vão confirmar que não existe cenário mais traiçoeiro. Não se trata só de controlar a água, como um ‘solo’ – se se pode dizer assim – eternamente em movimento, mas também, e em especial, a luz. O céu reflete-se na água, como bem mostrou Alain Guiraudie em Um Estranho no Lago, um dos grandes filmes do ano passado.

Chandor, que no ano passado completava 40 anos, foi bombardeado em Cannes pelas perguntas dos jornalistas que queriam saber se Até o Fim era a sua versão da morte do pai. Ele fez questão de dizer que seu pai estava vivo, e que se o filme remetia à morte de alguém, era a dele. Provocou – "Vocês (os jornalistas) não se preocupam com a morte? O que havia, de cara, de mais interessante nesse roteiro é que, lá pelo terceiro ato, ele coloca meu protagonista claramente diante da perspectiva da morte iminente. Meu desafio era radicalizar a experiência, fazendo com que o espectador compartilhasse sua resistência temperada de desamparo."

Numa época em que, no cinema como na vida, as pessoas falam muito para não dizer nada, Chandor lançou outra proposta radical. Com exceção de algumas falas – pontuais – no começo, o personagem de Redford mantém-se calado durante as quase duas horas da projeção. Toda a intensidade do drama vem da fisicalidade do papel, e do olhar que vulnerabiliza a saga do herói. Chandor contou em Cannes que conheceu Redford quando Margin Call passou em Cannes. Ele ficou impressionado com duas características do criador do festival que virou sinônimo de produção independente nos EUA. "Bob é naturalmente taciturno. Fala pouco, fica só ouvindo. Também tem um físico que se mantém rijo, apesar do tempo. Ao ler o roteiro de Até o Fim, pensei nele imediatamente. Enviei-lhe o roteiro e ele disse que era uma loucura, mas, se eu quisesse fazer o filme, ele estava dentro."

Em Cannes, Redford disse que, embora faça filmes há 50 anos, nunca se entregou, dessa forma, a um diretor. "Foi assustador, mas também gratificante", resumiu. Chandor diz que entende por quê. "O mais impressionante nessa história de ser um astro é que você acha que sabe tudo sobre ele. Pensem na carreira de Robert, e verão que na maioria dos filmes, senão em todos – o caso de Jeremiah Johnson/Mais Forte Que a Vingança (de Sydney Pollack) é particular –, ele não é só uma estampa, ou uma persona, mas uma voz. Pelo simples fato de calar essa voz, estou fazendo com que Robert tenha de lançar mão de outras ferramentas. É uma experiência nova para ele, mas também para seu público." Os críticos disseram (dizem) amém. A Academia perdeu a chance de homenagear o grande ator que Redford também é. Como detalhe final, Margin Call chamou-se, no Brasil, O Dia Antes do Fim. A finitude é o tema que, realmente, atrai Chandor.

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