Até na hora de namorar, John Lasseter se vale do Japão

Produtor executivo da animação 'Operação Big Hero' diz que usou  filme de mestre japonês para conquistar sua mulher

Elaine Guerini, Especial para O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2014 | 02h04

TÓQUIO - No início dos anos 70, as corridas automobilísticas de Speed Racer e o mundo futurístico de Astro Boy despertaram a fascinação de John Lasseter pela animação japonesa. "Muitos me achavam estranho na adolescência. Eu só queria saber de desenhos e não ligava muito para garotas ou carros", contou, rindo, o atual chefe de criação dos estúdios Pixar Animation e Walt Disney Animation.

Aos 57 anos, Lasseter é o primeiro a reconhecer a grande influência do Japão no sucesso de sua trajetória profissional. Foi durante a sua primeira viagem ao país que ele teve a ideia de rodar uma animação protagonizada por brinquedos - após visitar o museu Tin Toys (de brinquedos antigos, feitos de lata), em Yokohama. Daí nasceu o curta-metragem Tin Toy (1988), o predecessor do longa Toy Story (1995), que revolucionou o mercado de animação com o uso da computação gráfica e rendeu um Oscar a Lasseter.

"Os japoneses têm uma percepção única para os detalhes e conseguem comunicar muito com uma economia de palavras, essencial na animação", disse Lasseter, durante a última edição do Festival Internacional de Cinema de Tóquio. Foi no evento japonês, realizado há 27 anos, que o último título da Walt Disney Animation, Operação Big Hero, teve a sua première mundial.

A animação foi concebida como "carta de amor" do executivo californiano à cidade de Tóquio. "Como locação, criamos San Fransokyo. É a combinação de nossas duas cidades favoritas, Tóquio e São Francisco (cidade onde mora a maioria dos animadores da Pixar, localizada em Emeryville, a cerca de 13 quilômetros)", contou Lasseter, produtor executivo do filme. "Nós incorporamos as colinas, os bondinhos e a ponte Golden Gate de São Francisco à densidade e à escala de Tóquio, entrelaçando o moderno e o tradicional."

Trata-se da primeira homenagem da Disney aos mangás de ficção científica japoneses. Inspirado no HQ da Marvel Big Hero 6, criado nos anos 1990, Operação Big Hero segue os passos do jovem Hiro Hamada e de seu robô inflável Baymax. A dupla reúne um grupo de heróis improváveis para combater a criminalidade.

Sob a supervisão de Lasseter, os diretores Chris Williams e Don Hall buscaram a estética, a sensibilidade e o estilo narrativo das animações japonesas. "O traço japonês é de uma simplicidade comovente, principalmente no que se refere à expressão das emoções", afirmou Lasseter.

Uma das grandes inspirações para o americano foi Hayao Miyazaki, ícone da animação japonesa. O Castelo de Cagliostro (1979) teve grande impacto sobre Lasseter, quando ele ainda trabalhava na Divisão de Computação da Lucasfilm, sinalizando o caminho que o animador seguiria mais tarde. "Deve ter sido um dos primeiros filmes do gênero feitos para entreter todas as idades. Havia uma profundidade e uma sofisticação que ampliavam a sua audiência. Miyazaki simplesmente realizou o que eu sempre quis fazer, provando que eu não estava sozinho na minha concepção de animações para crianças e adultos.''

Lasseter recorreu à obra de Miyazaki até na hora de conquistar Nancy Tigg, com quem está casado há 25 anos. Eles se conheceram em 1985, numa conferência de computação gráfica. "Depois de um jantar com amigos, eu a convidei para conhecer o meu apartamento. Primeiro mostrei a minha coleção de brinquedos e depois coloquei no vídeo a sequência da perseguição automobilística de O Castelo de Cagliostro. Ao ver que ela tinha gostado, percebi estar diante da mulher dos meus sonhos", recordou.

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