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'Assuntos silenciados saem como vômito', diz Lázaro Ramos em filme por debate antirracista

'Medida Provisória', que estreia na quinta, 14, mostra futuro distópico em que negros brasileiros seriam obrigados a 'voltar' para a África

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2022 | 05h00

Empolgado com a peça Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação, o ator Lázaro Ramos contatou cineastas que pudessem se interessar em levar a história para a tela. “Conversei com alguns, como Sérgio Rezende e Joel Zito Araújo, mas eles estavam com seus projetos”, conta ele, que decidiu assumir a função de diretor – o resultado é Medida Provisória, que estreia nacionalmente nesta quinta, 14.

O longa é ambientado em futuro distópico e acompanha Antonio (Alfred Enoch), um advogado que pede indenização ao Estado brasileiro pelo tempo de escravização, o que motiva o governo a incentivar os descendentes a 'voltarem' para a África. Depois de um tempo, porém, o que seria compulsório se torna obrigatório com a decretação de uma medida provisória que obriga os negros – chamados eufemisticamente de “cidadãos de melanina acentuada” – a voltarem ao continente africano.

“Dirigi a peça em 2011 e, em seguida, comecei a produção do filme, que foi rodado anos depois e deveria ter estreado em 2020. A pandemia e os problemas do governo com o setor cultural adiaram para agora, quando muitos detalhes do que parecia distópico hoje são praticamente reais”, comenta Lázaro que, no longa, trata de temas urgentes como relações humanas, colorismo, confinamento e resistência negra. “O início do projeto coincidiu com o momento em que a população negra no Brasil estava discutindo intensamente o seu espaço de formação de identidade, direitos e deveres.”

No longa, Antonio tem um relacionamento com Capitu (Taís Araújo), médica com quem vai ter um filho. Ele divide apartamento com André (Seu Jorge), amigo com quem ficará confinado a partir do momento em que "cidadãos de melanina acentuada” poderão ser presos e deportados graças à medida provisória. Por causa disso, Capitu é obrigada a deixar o hospital onde trabalha e, como não consegue chegar em casa, se abriga em um afro-bunker, espécie de quilombo moderno, no qual cidadãos negros se refugiam e organizam uma resistência.

“O filme busca fazer um alerta para algo que esperamos não acontecer, ou seja, preparar o presente para evitar esse futuro distópico”, conta Lázaro, que escalou um grande elenco (77 profissionais), a grande maioria atores negros e com experiência no teatro, o que foi fundamental, por exemplo, para mostrar a rotina do bunker.

“Nós nos juntamos na sala e oferecemos personagens a cada um deles: advogada, cristão, candomblecista, adolescente, bombeiro, youtuber, vendedor ambulante... Assim, fomos construindo um ambiente onde havia diversidade. A proposta era fazer um laboratório criativo de um dia com esses atores, imaginando o que aconteceria se a medida provisória fosse realmente decretada e se esse neoquilombo de fato existisse. Como cada personagem se comportaria nesse ambiente, nesse esconderijo?”, observa ele, em texto que vai ser publicado no livro Medida Provisória: Diário do Diretor (Editora Cobogó), fruto de um diário que nasceu involuntário, mas necessário para que ele lidasse com seus questionamentos.

Isso auxiliou na caracterização dos protagonistas. “Antonio é um homem engajado, sério, que acredita no poder da lei e das palavras”, comenta Alfred Enoch, ator anglo-brasileiro que vive em Londres e que se tornou conhecido por ter interpretado o bruxo Dino Thomas nos filmes da saga Harry Potter. “Aos poucos, Antonio descobre que tem de lutar pela sua condição.”

De fato, em uma cena impactante, o advogado, na sacada de seu apartamento, desabafa aos brados aos vizinhos perseguidores: “Esse país também é meu”. Em outro momento pungente do filme, André, esfomeado, sedento e humilhado por terem cortado a eletricidade do lar, revela sua fragilidade psicológica ao pintar a cara com tinta branca, na esperança de, assim, recuperar sua dignidade.

“Seu Jorge vive um personagem diferente do que está habituado, bem-humorado mas combatente, o que permite momentos de relaxamento na trama”, conta Lázaro que, na confecção do roteiro com os auxiliares, seguiu o padrão moderno de oferecer novos acontecimentos a cada 10 ou 15 minutos da história, a fim de prender a atenção do espectador atual, que facilmente se desinteressa da narrativa sem novidades.

Lázaro rodou três finais, mas optou por um quarto, o da passeata, na qual contou com participação voluntária de cerca de 150 pessoas, nomes como Conceição Evaristo e Emicida. É aconselhável, pois, acompanhar os letreiros para conhecer partes das cenas deletadas. “Quis mostrar a convivência coletiva e estimular um debate pela luta antirracista”, comenta. “É o momento de se falar e assuntos que sempre foram silenciados saem como vômito, depois de tanto tempo guardados.”

Três perguntas para Taís Araújo, a Capitu de 'Medida Provisória'

Capitu passa por uma grande transformação em sua vida. Como você vê isso?

É verdade. Como médica, ela vive em um ambiente elitista e, por escolha, não gosta de falar sobre racismo. Mas, quando tudo acontece, ela, que está grávida, percebe que ser mãe de uma criança negra só vai potencializar sua angústia. Ela se transforma aos poucos.

É curioso o nome da personagem, não?

Sim, remete a Machado de Assis, claro, escritor mulato, mas, enquanto no romance Dom Casmurro ela é julgada a partir do ponto de vista de dois homens, no filme Capitu comanda a própria trajetória e, ainda que no bunker ela fica um tanto perdida, é lá que vai encontrar seu rumo.

Você que convenceu Lázaro a dirigir o filme?

Na verdade, ele já tinha todo o projeto na cabeça, mesmo quando consultou outros diretores. Tudo já estava esquematizado. Só dei o empurrão que faltava.

 

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