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Alberto Pizzoli/Reuters
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Às vésperas de completar 90 anos, Alain Resnais se reinventa

'Vous n’Avez Encore Rien Vu' é a nova audácia do diretor que faz 9 décadas de vida dia 03

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2012 | 21h00

CANNES - Danièle Heymann, a crítica que fez a mediação na coletiva de Alain Resnais, não deixou por menos e definiu o grande artista como o autor mais jovem do cinema francês. E não estava mentindo. Resnais, que completa 90 anos no dia 3 de junho, é um raríssimo artista que pode propor ao público um filme com o título de Vous n’Avez Encore Rien Vu (Você Ainda Não Viu Nada). E o que o espectador ainda não viu? Uma história como esta.

Vários atores - Sabine Azema, Pierre Arditi, Mathieu Amalric, Lambert Wilson, Anne Duperey, Anne Consigny, etc., todos aparecendo como eles mesmos - são avisados de que um amigo comum, um grande diretor de teatro, Antoine d’Anthac, acaba de morrer. Eles são chamados a um castelo para a leitura de seu testamento. Na verdade, o diretor deixou um vídeo gravado. Um grupo de jovens remonta um de seus maiores sucessos - Eurídice. Eles assistem à representação dos jovens (filmada por outro diretor). Começam a interagir entre eles e com a tela. Como se trata tudo de um artifício para falar de cinema e teatro, de arte e vida (e morte), o próprio ‘morto’ reaparece.

Alain Resnais, que recebeu há dois anos um prêmio de carreira (do júri) por Les Herbes Folles (Ervas Daninhas), volta à competição aqui em Cannes. Seu novo filme é o que se espera de um autor que não cessa de se reinventar (e de reinventar o cinema). Nada de audácias técnicas, embora o filme tenha efeitos, belíssimas imagens (e cores) e um set espetacular, que ora é castelo, ora é um café.

 

Com Resnais, a audácia é mais profunda. Ele se baseou em duas peças de Jean Anouilh, que pertencem a diferentes épocas da obra do dramaturgo, e revê os mitos de Eurídice e Orfeu. Resnais faz agora uma viagem pela mitologia grega.

Há um mistério das vozes no cinema desse diretor. Na véspera, Emmanuelle Riva participara da coletiva de Amour (Amor), o novo Michael Haneke. Ela quase não fala no filme, a maior queixa que se pode fazer a Haneke. Riva é sublime dizendo o texto de Marguerite Duras em Hiroshima, Meu Amor. Todo o elenco de Você Ainda Não Viu Nada fala com musicalidade um texto que é rico em densidades e sugestões. O cinema é muitas coisas e, entre elas, com Resnais, pode ser música para os ouvidos.

Ele diz que fez o filme para se divertir, pelo prazer de reencontrar amigos (e colaboradores) e de integrar atores (Hyppolite Girardot) ao grupo fiel que o acompanha. Alguma queixa que possa ser feita ao filme? É muito cerebral, mas isso faz parte do método Resnais. Ele correspondeu, surpreendeu.

Abbas Kiarostami, de alguma forma, decepcionou com o seu Like Someone in Love. Já se reclamou aqui dos filmes que terminam mal nesta edição do Festival de Cannes, o de Thomas Vinterberg, The Chase, por exemplo. Há outros que começam bem. Haneke começa Amor no teatro, colocando a câmera no palco para captar Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva sentados na plateia.

Kiarostami começa num bar, no meio de um diálogo. Há uma mesa com três pessoas e o espectador vai demorar um pouco para perceber que não são eles que falam. Na verdade, a garota que fala ao telefone está fora de quadro. É muito interessante, intrigante mesmo.

O filme é sobre uma jovem, dublê de estudante e garota de programa. Ela se envolve com um cliente mais velho. Seu namorado pensa que ele é o avô. A cena do diálogo dos dois no carro é um grande momento de cinema - um dos maiores da obra de Kiarostami. E, justamente por isso, cria uma expectativa que o desfecho não sustenta. É outro filme que termina mal. Não fora isso e Kiarostami estaria de novo na disputa da Palma que, por enquanto, parece sorrir para Christian Mungiu e Resnais.

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