"As Três Marias" mostra Nordeste esvaziado

"As pessoas não admitem que oNordeste um dia possa vir a ser fashion." Com essa frase, oator Carlos Vereza defendeu o filme em que atua, As TrêsMarias, de Aluisio Abranches, apresentado nesta segunda-feira na mostracompetitiva do 12º Cine Ceará. O longa foi visto por uma platéiaatenta, que acompanhou até o final e aplaudiu sem maioresentusiasmos. Reação compreensível quando se pensa que essa sagatrágica, ambientada no sertão, desenvolve-se em planos lentos,solenes, pouco realistas, linguagem com a qual as pessoas nãoesperam se deparar quando vão ao cinema. Mas no debate sobre o filme, o que prevaleceu não foitanto a discussão sobre a narrativa, mas sobre o estilo adotadopelo diretor. Grandes filmes do passado - em particular Deus eo Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas e Os Fuzis -usaram o sertão nordestino como palco privilegiado paraencenação dos conflitos sociais do País. Agora, o sertão volta aservir como cenário, não mais da contradição, mas doapaziguamento, do exotismo, quando não da neutralidade política.Passa por esse deslocamento a discussão entre a estética e a"cosmética" da fome, levantada pela ensaísta Ivana Bentes. Daía defesa de Carlos Vereza. Ele é Firmino Santos Guerra, patriarca de uma famíliainimiga de outra. Manda matar toda a parte masculina do outroclã, os Capadócios. Depois da matança do pai e de seus doisfilhos, a chefia passa a Filomena (Marieta Severo), que trama avingança e incumbe as três filhas, Maria Francisca (JúliaLemmertz), Maria Rosa (Maria Luísa Mendonça) e Maria Pia (LuizaMariani) de realizá-la. Elas devem procurar três matadores dealuguel e contratá-los para liquidar o clã rival. O filme é ahistória dessa vingança e dos contratempos para levá-la a cabo.Na reunião em volta da mesa, a matriarca diz: "Todos têm seudestino, e o de vocês não é matar." Mas, ao longo da ação, afrase deverá ser relativizada. As Marias saem em busca dosmatadores, Zé das Cobras (Enrique Diaz), cabo Tenório (TucaAndrada) e o Cara de Cão (Wagner Moura). No elenco está também Lázaro Brandão, no papel deCatrevagem, intermediário entre Zé das Cobras e Maria Francisca,já que o matador, por princípios religiosos, não fala commulheres. Brandão é um dos atores da hora do cinema brasileiro,figurando em filmes que ainda vão pintar nas telas, comoMadame Satã, de Karin Aïnouz, O Homem do Ano, de JoséHenrique Fonseca, O Homem que Copiava, de Jorge Furtado, eCarandiru, de Hector Babenco. O filme segue o ritmo proposto pelo diretor. O tomsolene vincula-se à sua origem. O publicitário Heitor Dhaliaapresentou o roteiro de "As Três Marias" a Aluisio e o esboçofoi transformado em cordel por Wilson Freire, médico e escritorpernambucano, parceiro de Antonio Nóbrega. A princípio, anarrativa seria estruturada pelos versos, mas o cineasta optoupor excluir esse recurso do roteiro final. Conservou, no entanto, tanto o tom hierático de certas falas, quanto a solenidade doesboço inicial, mas deu-lhes um registro misto. Os personagensmovem-se ora como se estivessem num palco, ora em tom maisrealista. Essa alternância é um dado a mais de estranheza numtrabalho já em si estranho - sem que esse palavra tenha aquiconotação negativa. O fato é que, para entrar na obra, é preciso dispor-se aenfrentar um trabalho fora do âmbito naturalista em sentidoestrito. Ajudando a criar esse ambiente mágico, há os movimentosde câmera elegantes, à la Visconti, em especial naquela que étalvez a melhor seqüência, quando a matriarca fala às filhas emtorno da mesa. Mas há também os figurinos e os próprioscenários. A atriz Luiza Mariani parece vestida como umaexecutiva dark com escritório em Manhattan e não como uma filhadesesperada em busca de um assassino de aluguel. Anda numfusquinha preto conversível, muito charmoso e não abandona ossaltos altos nem para entrar num presídio. As outras não ficammuito atrás. Mas, enfim, se o propósito do diretor era quebrardeterminados estereótipos, pode-se dizer que foi muitobem-sucedido. Coisas do cinema- Aceitas as regras do jogo,constata-se que não falta encanto ao filme. Atingir averossimilhança pela via não naturalística, pelo artifícioexplícito, constitui-se num fato estético tão óbvio que nemvaleria a pena mencionar. Pode-se também defender a idéia deAluísio de trabalhar de maneira intemporal (quando se passa aação? Hoje, dez, vinte anos atrás?), porque seria mais adequadaao tom de fábula, ao clima da tragédia (grega?) que não está emtempo algum porque pertence a todos. Pode-se aceitar cenáriosostensivamente fakes, como os cáctus que cercam a casa damatriarca. Aliás, diz o diretor, a floresta de cáctus éverdadeira, mas a casa é cenográfica. Coisas do cinema. Como arocha gigantesca, apoiada sobre duas pontas ínfimas e que servede cenário à despedida amorosa entre Firmino e Filomena, quetiveram um caso no passado. A pedra existe de fato e está pertode Pesqueira, em Pernambuco. A esse ambiente cenográfico, o diretor agrega elementospolíticos (a luta pelas terras no interior) e religiosos (dascruzes que proliferam pelo filme, inclusive na gargantilha usadapor Maria Pia, à Pietà encenada por Maria Luísa Mendonça e TucaAndrada). São elementos presentes, tão diluídos na trama que écomo se não existissem. E esse parece o problema real do filme.Diluição. A que vem? Certo, vê-se com prazer, desde que secoloque em posição favorável, mas, depois, o que fica dele? Nofundo, apesar de tantas referências e cuidados estéticos, AsTrês Marias parece estruturado por um grande vazio interior.Isso, sim, é um problema, e não passa despercebido.

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