As singularidades de um provocativo autor português

João Rodrigues e a velha drag de Morrer como Um Homem

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

26 de outubro de 2009 | 13h43

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São Paulo - Quem lê o título acima pode pensar que o texto é sobre Manoel de Oliveira, o centenário mestre .português que exibe na Mostra seu filme Singularidades de Uma Rapariga Loira, adaptado do conto de Eça de Queiroz. Oliveira, quando adapta, segue escrupulosamente o original, mas em duas ou três cenas se permite ‘interpretar’ o texto, mantendo-se fiel ao espírito, senão exatamente à letra de Eça. Oliveira gosta de dizer que o que define o homem é a circunstância. Não há circunstância, e muito menos a idade, que o impeça de ser jovem e livre (de pensamento). O filme de Oliveira passa na quarta-feira, depois de amanhã. A singularidade, portanto, é de outro autor.

 

Veja onde este filme está em cartaz

 

O jovem - em comparação com Oliveira, pois tem ‘apenas’ 43 anos - João Pedro Rodrigues é um dos mais transgressivos autores portugueses. Com O Fantasma, ele fez sensação ao abordar o homossexualismo em imagens, digamos, cruas. Veio, depois, Odete e agora ele apresenta na Mostra Morrer Como Um Homem. Se o tema, eventualmente, pode ser árduo - um(a) velho(a) transexual de Lisboa que vê seu mundo desmoronar -, Rodrigues não facilita em nada a vida do espectador. Cenas longas, muitos diálogos, música (uma canção inteira. No Festival do Rio, um espectador não aguentou e pediu ‘Chega!’).

 

O próprio tom parece oscilar - entre o surrealismo e o naturalismo -, mas é porque a história de Tônia pode mesmo parecer bizarra para muitos espectadores. O filme é A Gaiola das Loucas a sério. Tônia (Fernanda Santos) é a drag doente. Rosário, sua amante, é drogada e há o filho que foi abandonado e agora reaparece como desertor. O rapaz, Zé Maria, é homossexual. Pior que a doença que a consome é, para Tônia, tentar se reconciliar com a perda da antiga fama. Roberto Carlos termina entrando de forma um tanto enviesada nessa história. O rei compôs uma música que começa assim: ‘Debaixo dos caracóis/dos seus cabelos...’ Os caracóis de Tônia, seus cabelos cacheados, são falsos. Parece um detalhe insignificante, mas toda a estética do filme de Rodrigues pode ser vista a partir dessa falsidade.

Pois é do desmoronamento de um universo ilusório que ele fala em Morrer como Um Homem. É, de resto, o desafio de Tônia, que escolheu viver como mulher, mas enfrenta o dilema, ou a necessidade, de morrer como homem. João Pedro Rodrigues começou a estudar biologia porque queria ser ornitólogo. Desviado de seus pássaros, ele veio cantar em outra freguesia, o cinema. Morrer como Um Homem foi muito aplaudido na mostra Un Certain Regard, em Cannes.

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