Sony Pictures
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'As Panteras' ganha nova versão com Kristen Stewart no elenco

'Não faço distinção entre projetos para mim e projetos mais comerciais', disse a atriz em entrevista durante o Festival de Zurique

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

11 de novembro de 2019 | 06h00

ZURIQUE - Depois do fenômeno da saga Crepúsculo (e do escândalo de ver suas fotos com um homem casado serem publicadas), Kristen Stewart se recolheu aos filmes mais independentes, como Café Society (2016) e Para Sempre Alice (2014), e ao cinema francês, fazendo dois longas com Olivier Assayas, Acima das Nuvens (2014), pelo qual foi a primeira atriz americana a ganhar o César, e Personal Shopper (2016). Mas agora ela está de volta à Hollywood propriamente dita, com a versão 2019 de As Panteras

“Não faço distinção entre ‘projetos para mim’ e projetos mais comerciais”, disse a atriz em entrevista durante o Festival de Zurique, onde exibiu seu outro projeto deste ano, Seberg, sobre a perseguição sofrida pela atriz Jean Seberg (Acossado) por seu ativismo político. “Eu tenho muita sorte de receber as mais diversas propostas e fazer coisas que me deixam continuar sendo relevante para o mundo em que vivemos e não apenas no concurso de popularidade do qual estranhamente participamos.”

As Panteras, um grupo de mulheres detetives lindas e sexy que trabalham para Charles Townsend, surgiram em 1976, com a série que ficou no ar até 1981. Ganharam sua primeira versão cinematográfica em 2000, estrelada por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu, com uma sequência em 2003 que contou com a participação do brasileiro Rodrigo Santoro. 

A versão 2019 foi escrita e dirigida por uma mulher, a também atriz Elizabeth Banks, que esteve por trás da trilogia A Escolha Perfeita. “Tenho muito orgulho dela”, afirmou Kristen Stewart. “Quando os créditos finais surgem na tela e dizem “escrito e dirigido por Elizabeth Banks’, eu literalmente tenho vontade de me levantar e aplaudir. Porque não foi fácil para ela fazer o filme num estúdio comandado por homens. Não estávamos no topo das prioridades, ela realmente teve de provar seu valor.” A atriz esclareceu que não estava querendo dizer que houve qualquer briga ou embate. “É só a estrutura de como são feitos os filmes. Não é fácil para as mulheres fazerem filmes. Sem querer generalizar, mas os homens acham que eles sabem mais de tudo. E isso pode ser frustrante. Mas ela teve a força para conseguir fazer.”

Em As Panteras, Stewart é Sabina Wilson, uma das detetives contratadas por Charles Townsend e supervisionadas por Bosley (Elizabeth Banks). Mas agora há outros Bosley, interpretados por Patrick Stewart e Djimon Hounson, porque a agência tornou-se internacional, o que leva as Panteras a diversas partes do mundo, como Istambul e Rio de Janeiro – neste caso, com cenas rodadas em estúdio. O filme acompanha Elena Houghlin (Naomi Scott), que trabalha numa grande empresa de tecnologia que está desenvolvendo uma ferramenta perigosa. Ela tenta avisar aos superiores, mas não é ouvida – uma situação comum, especialmente para mulheres. Então contrata a agência de detetives para investigar a corporação e evitar uma tragédia, porém acaba se juntando à ação. Jane Kano (Ella Balinska), agente do MI-6, completa o trio. 

Kristen Stewart descreve as novas Panteras como “acessíveis”. “Não somos super-heroínas. Você quer se tornar amiga dessas garotas e se sente mais forte com elas”, disse a atriz. O filme, que ela definiu como “um longa sobre mulheres trabalhando”, celebra a união feminina. “Cada mulher no mundo tem seu valor. E, juntas, podemos fazer muitas coisas. Talvez eu não consiga ganhar uma queda de braço com um homem, mas, junto com minhas amigas, posso derrubá-lo. É bem legal saber que, unidas, somos imbatíveis.”

A atriz ficou chocada quando Elizabeth Banks viu nela uma atriz que podia fazer comédia. “Ela escreveu um roteiro bem pé no chão, caloroso, mas também com seus momentos de bobeira, meio absurdo, e isso é demais”, completou Kristen Stewart. Sua personagem é uma espécie de irmã mais velha que toma conta das outras duas e se arrisca por elas, mas que é meio irresponsável e não sabe nunca chegar no horário certo. Além de manter o tom leve e até meio cafona do original, a atriz acredita que o filme tem um olhar feminino. “Mas ainda somos sexy e divertidas. Porque as garotas também querem ser sensuais. Rimos muito juntas. Somos bobas. Só que trabalhamos duro e acreditamos umas nas outras.” 

Kristen Stewart acredita que este seja um momento maravilhoso para as mulheres contarem suas próprias histórias, mesmo que num filme-pipoca como As Panteras. “A perspectiva está mudando”, disse. “Não acho que seja impossível contar algumas histórias épicas femininas pela perspectiva masculina. Mas há uma honestidade feminina na abordagem que é muito empolgante.”

Ela mesma está se preparando para passar para trás das câmeras no ano que vem, escrevendo e dirigindo uma adaptação do livro The Chronology of Water: A Memoir, de Lidia Yuknavitch. “O livro é uma das histórias de amadurecimento mais originais, cruas e confrontadoras que já vi”, disse. The Chronology of Water, que pode ser traduzido como A Cronologia da Água, é um livro de memórias sobre uma nadadora que se torna artista e fala de luto e sexualidade de alguém que é atraída por homens e mulheres. É uma história que parece bem pessoal para a atriz também, que muito abertamente teve relacionamentos com homens e mulheres. “É a história mais física que já li. E normalmente a sexualidade de uma mulher ou o domínio de uma mulher sobre seu próprio corpo nunca é o catalisador ou o início de uma história, é sempre algo que acontece como resultado de algo.” 

Stewart não vai atuar em seu filme. Como atriz, lança no ano que vem duas produções que não poderiam ser mais diferentes: o independente Seberg, de Benedict Andrews, e Ameaça Profunda, terror sobre um grupo de pesquisadores aquáticos que tentam se salvar depois de um terremoto destruir seu laboratório submarino. “É uma história de sobrevivência sobre pessoas que estão num lugar onde não deveriam estar, se transformando em coisas que não deveriam, e há repercussões enormes”, disse. “Para mim, nessas situações as pessoas revelam lados inesperados, o que achei interessante.” 

2020 também é o ano em que completa 30 anos. Além de dirigir e continuar se dividindo entre filmes comerciais e outros nem tanto, com 20 de carreira, ela se vê na posição de ajudar outras mulheres mais jovens, que estão começando agora. “É maravilhoso. Vejo alguém como Margaret Qualley (com quem atua em Seberg), que é maravilhosa e que às vezes duvida de si mesma e tudo o que quero é dar força. Porque a gente precisa disso. E eu amo poder ser essa pessoa.”

Terceira geração das Panteras

Quem cresceu nos anos 1970 e 1980 foi criado à base de O Homem de 6 Milhões de Dólares, A Mulher Biônica, CHiPs e As Panteras. A última, principalmente, foi uma inspiração para as meninas da época. Nos moldes do que aconteceria depois com Sex and the City, elas disputavam quem ia ser Sabrina (Kate Jackson), Kelly (Jaclyn Smith) ou Jill (Farrah Fawcett), e depois Kris (Cheryl Ladd). 

Era um caso raro de uma série protagonizada por três mulheres – e três mulheres independentes, que lutavam contra criminosos de todos os tipos e solucionavam casos. 

Sabrina, Kelly, Jill e Kris eram as Charlie’s Angels, os anjos de Charlie, em referência ao dono da agência de detetives, Charles Townsend, cujo rosto nunca era mostrado – ele se comunicava com as investigadoras particulares e com Bosley (David Doyle) pelo viva-voz. Quando “aparecia”, seu rosto estava sempre escondido, por estar de costas ou cercado de belas mulheres. 

Mas, claro, elas também apareciam em disfarces que pareciam feitos para se encaixar em fantasias masculinas, como patinadora e empregada, isso quando não faziam suas investigações metidas em biquínis. Por isso, a série criada por Ivan Goff e Ben Roberts e produzida por Aaron Spelling (que depois faria Dinastia, Beverly Hills 90210 e Charmed, entre outras) foi apelidada de “Jiggle TV” – uma referência ao “doce balanço” das mulheres em lingerie ou biquíni na televisão.

As Panteras foi um megassucesso de audiência e transformou as atrizes em estrelas, mas durou apenas cinco temporadas, sendo encerrada em 1981.

Em 2000, a franquia foi ressuscitada, só que para o cinema. Com direção de McG, As Panteras era estrelado por Cameron Diaz como Natalie Cook, Drew Barrymore no papel de Dylan Sanders e Lucy Liu fazendo Alex Munday, com Bill Murray no papel de Bosley. As garotas eram mestres em lutas marciais, além de disfarces e enfrentavam um vilão (Sam Rockwell) que fingia seu sequestro, fazia sexo com Dylan e ameaçava as Panteras e seu chefe, Charles Townsend. 

O filme teve uma bilheteria apenas razoável, somando US$ 264,1 milhões para um orçamento estimado em US$ 93 milhões, mas mesmo assim garantiu uma sequência, As Panteras Detonando, lançada em 2003 e novamente dirigida por McG e estrelada por Diaz, Barrymore e Liu, com participações de Bruce Willis, Matt LeBlanc, John Cleese, Shia LaBeouf e da ex-Pantera Jaclyn Smith. A trama girava em torno de um ex-namorado de Dylan, interpretado por Justin Theroux, que roubava uma lista de pessoas no programa de proteção a testemunhas. Demi Moore é uma ex-Pantera, Madison, que quer vender a lista, e o brasileiro Rodrigo Santoro, um de seus capangas. O longa custou mais (US$ 120 milhões) e arrecadou um pouco menos que o anterior (US$ 259,1 milhões). 

Em 2011, houve uma nova tentativa de reviver a franquia, agora com uma série com Annie Ilonzeh, Minka Kelly e Rachael Taylor. Depois de apenas sete episódios, a série foi cancelada. 

Levou quatro anos para o estúdio anunciar uma nova geração de As Panteras, que chega agora aos cinemas.

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