Sérgio Neves/AE
Sérgio Neves/AE

As escolhas de Lygia

Público terá chance única de assistir ao raro 'As Horas Nuas', de Marco Vicario

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

07 de maio de 2011 | 06h00

Você vai agradecer a Lygia Fagundes Telles. Homenageada pela Sala Cinemateca com uma exposição de fotos e uma retrospectiva de filmes adaptados de seus livros, a grande escritora pode acrescentar a esses títulos uma série de outros, de sua preferência. Escolheu As Horas Nuas e, para toda uma geração de espectadores, será a chance de conhecer o filme do italiano Marco Vicario, interpretado pela mulher dele. Há anos, décadas, que As Horas Nuas não circula no mercado brasileiro, mas a explicação é simples. Não existem cópias disponíveis. A que a Cinemateca exibe, em Betacam, veio da Itália e para lá retorna. Hoje é a última chance para quem quiser assistir ao cultuado drama.

Em 1967, Le Ore Nude (título original) recebeu o Saci, prêmio que o Estado então atribuía aos melhores do ano. No antigo Suplemento Literário, encontram-se textos sobre o filme, escritos pelo eterno presidente da Cinemateca, Paulo Emilio Salles Gomes. Podem-se identificar vestígios de Michelangelo Antonioni em As Horas Nuas, mas a influência é um tanto superficial. Vicario tem alguma coisa da exterioridade de Antonioni - as paredes brancas, a alienação dos sentimentos, a crise do casal moderno. Mas Antonioni, na trilogia da solidão e da incomunicabilidade, fazia uma crítica ontológica do humano. Sua análise da infelicidade remetia a questões profundas. Vicario trata muito mais de uma inadequação do homem moderno.

Philippe Leroy não domina as palavras para expressar suas emoções à mulher. Ela quer ouvir dele quanto a deseja, quanto a ama. A não verbalização do sentimento vulnerabiliza a relação. Abre caminho para que a bela Rossana Podesta, mulher do diretor, se sinta atraída pelo jovem, Keir Dullea. Ele fala - até demais. Expõe-se. Ela o acolhe, Tornam-se amantes - por um dia. O filme, na verdade, passa-se em dois (dias). Rossana vai esperar o marido na estação. Entram as imagens do passado, de ontem. A relação já nasce efêmera. Dullea e ela percorrem esses trens parados, destruídos, os trilhos cobertos pela hera. Não há futuro e a acaso converge para uma cena de praia, onde há um cadáver. Será o do garoto?

Vicario não responde. Em outra cena, Rossana conta um sonho, sobre como encontrou um garoto e fez amor com ele. O filme todo será um sonho? Um desejo manifesto da mulher? Mais do que Antonioni, há algo de Walter Hugo Khouri em As Horas Nuas. A tensão sexual é forte, e rende cenas de antologia. A mais bela é a cena de sexo da mulher com o jovem no alto do campanário, quando o movimento dos corpos soma-se ao dos sinos. Mas Vicario oferece outros momentos de exaltação. A corrida do casal, no mar, atrás das gaivotas.

Produtor antes de ser diretor, Vicario fazia um cinema comercial. A Escrava de Roma, com Rossana, foi um dos filmes de sucesso que produziu. Seus esforços, digamos, artísticos, concentram-se em dois filmes, As Horas Nuas e Esposamante, com Marcello Mastroianni e Laura Antonelli, que adquiriu a fama de ser o cult protofeminista das mulheres liberadas nos anos 1970. Talvez ele tenha sido muito mais o Thelma e Louise da época e, como no trabalho cultuado de Ridley Scott, pode-se discutir se a mulher, para se liberar, tenha de (re)fazer a trajetória do homem. As Horas Nuas nasceu de uma ideia de Vicario. Em conversa com Alberto Moravia, ele incorporou elementos de um conto do escritor - Appuntamento ao Mare. O roteiro é coassinado por Antonio, depois Tonino, Guerra, que colaborou com Antonioni. A fotografia é de Carlo di Palma, a música de Riz Ortolani. Tudo isso e Rossana. Bela e talentosa, ela transmite a sensibilidade à flor da pele de sua sensibilidade. Vale repetir - você, jovem cinéfilo, vai agradecer a Lygia por essa descoberta.

 

OUTROS TESOUROS

Apocalipse Now

A viagem ao inferno promovida por Francis Ford Coppola que, inspirado em Joseph Conrad, gastou uma fortuna e colocou a saúde em risco (sofreu um ataque cardíaco durante as filmagens) para mostrar o horror da guerra. O filme acompanha um capitão (Martin Sheen) em sua busca pelo coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), que enlouqueceu em plena selva. A exibição está programada para amanhã, às 15 horas.

Casablanca

Um dos filmes mais adorados de todos os tempos. Com diálogos saborosos, acompanha um casal (Humphrey Bogart e Ingrid Bergman) que, anos depois de viver um intenso romance, reencontra-se durante a 2ª Guerra em Casablanca, onde ele é dono de um bar e ela surge como a mulher de um herói da Resistência francesa. Para se ver de mãos dadas. Programado para quarta-feira, dia 11, às 21 horas.

Cantando na Chuva

Se há algum musical que sintetize a graça do gênero em todo o seu esplendor, certamente esse filme dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly é forte concorrente. Aparentemente, não há falhas nesse filme que narra a trajetória de dois amigos que chegam a Hollywood nos anos 1920, quando o cinema mudo agoniza. O desafio deles é acertar com a chegada dos longas sonoros. Sexta-feira, dia 13, às 19 horas. / UBIRATAN BRASIL

HOMENAGEM A LYGIA FAGUNDES TELLES

Cinemateca Brasileira. Lgo. Sen. Raul Cardoso, 207. 3512-6111. R$ 8.

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