'As distribuidoras só se interessam pelos blockbusters'

Para o diretor de 'Boca do Lixo', Flavio Frederico, ainda é muito difícil lançar um filme

Marcio Claesen, Portal

29 de outubro de 2010 | 19h24

 

Cinco anos foi o tempo que Boca do Lixo levou entre os primeiros tratamentos do roteiro e a finalização. E o processo ainda não terminou: falta lançá-lo. O filme, que participa, neste final de semana, da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tem previsão para entrar em cartaz somente no segundo semestre de 2011. Em conversa com o Estadão.com, o diretor Flavio Frederico aponta as falhas no processo de distribuição dos longas nacionais, sugere alternativas e revela que o boca-a-boca é uma das apostas para o público conhecer esse bandido que aterrorizou o submundo paulistano.

 

O que te interessou no livro (o filme é uma adaptação livre da autobiografia Boca do Lixo de Hiroito de Moraes Joanides)? De quem partiu a ideia de transformá-lo em um longa?

 

Este projeto me caiu nas mãos quase como um legado. Ganhei o livro, que, então, tinha sido relançado, de um amigo e colaborador durante as filmagens de meu curta-metragem RED, em 2003. Me apaixonei pela incrível história de vida de Hiroito e percebi que ela seria perfeita para contar outra história, muito maior: a própria história da formação da Boca do Lixo. Desde meu primeiro longa-metragem (Urbânia, de 2001), que foi quase integralmente filmado na região, penso em fazer um filme retratando esta atmosfera. Porém, a linguagem fragmentada e a dificuldade de transformá-lo em roteiro me faziam adiar o projeto. Até que em 2005, a roteirista Mariana Pamplona entrou no projeto e destrinchou o livro fazendo um argumento com a espinha dorsal do que seria o filme.

 

Além de transformar essa narrativa confusa em um roteiro de cinema e de deixar São Paulo, que mal guarda marcas do seu passado, com jeito de filme de época, quais foram as maiores dificuldades para a realização desse longa-metragem?

 

Eu diria que a maior dificuldade foi de ordem financeira. Participamos de uns 30 editais de produção durante quatro anos e ganhamos um (um fomento estadual em 2006). Quando começamos a rodar, tínhamos apenas R$ 600 mil na conta. No total, ao término das filmagens, tínhamos movimentado R$ 1 milhão. Muito pouco para um filme de época. Tivemos que filmar em quatro semanas e meia um roteiro que pedia sete semanas. Cheguei a filmar sequências inteiras em 15 minutos. Com diversas limitações de arte, fotografia e produção operamos, na verdade, um pequeno milagre. Com o filme filmado entramos em três editais de finalização e ganhamos os três, o que mostra, claramente, que existe algo de errado no modelo atual de financiamento de filmes. Pudemos, então, finalizá-lo com boas condições, o que ajudou a compensar estas limitações de filmagem e adensar os conceitos de época. Quanto ao elenco, foi fácil fechá-lo, pois todos se encantavam com o roteiro, a história e o projeto, incluindo a pesquisa que apresentávamos. Membros do elenco e da equipe acabaram tornando-se produtores associados ao filme para viabilizá-lo. 

 

Por que a escolha do Daniel de Oliveira como protagonista? Ele foi a primeira opção?

 

Pela qualidade de seu trabalho e capacidade de transformação. Confesso que demorei um pouco em chamá-lo, pois inicialmente achava que ele era muito bonito para fazer o papel, ainda mais olhando o Hiroito verdadeiro. Mas em um determinado momento, quando começamos a nos libertar e partir para uma livre adaptação, achamos que nosso Hiroito não precisava ser tão feio e que seria bem mais fácil enfeiar alguém do que o contrário. O importante era trazermos um grande ator, capaz de captar a essência de Hiroito. Quando soube que queríamos fazer transformações físicas “enfeiando-o” o Daniel adorou. 

 

Você acredita, como muitos cineastas, que a etapa de distribuição do filme ainda é um enorme problema no cinema brasileiro? Qual seria a solução para que os filmes cheguem mais rápido a um público mais abrangente?

Com certeza. Devido a isso, muitos filmes bons estão tendo carreiras pífias nas salas, mesmo premiados. Acredito que exista uma enorme cisão no cinema nacional, entre uns poucos blockbusters de mais de um milhão e o resto, com alguns poucos filmes médios (na casa dos 300 mil espectadores) e a grande maioria abaixo dos 100 mil espectadores. Acho que as distribuidoras só se interessam pelos blockbusters, feitos sob fórmulas testadas (e que nem sempre dão certo) e acabam pegando os outros filmes para rifá-los. Faltam distribuidoras que acreditem nos filmes médios, que queiram trabalhar a formação de plateia. A maioria dos editais de comercialização e alguns de produção estão exigindo a presença de uma distribuidora o que faz com que o projeto tenha que fechar com alguma a qualquer custo, sob pena de não conseguir financiamento impedindo o produtor de lançar seu próprio filme ou escolher a distribuidora depois. Acho que uma mudança nesta postura que começa a aparecer em alguns poucos editais somada ao sucesso do lançamento de Tropa de Elite pode encorajar mais produtores a lançarem seus próprios filmes e também o surgimento de mais distribuidoras especializadas em filme brasileiro e interessadas em filmes diferentes das fórmulas de sucesso. Nós lançaremos o Boca do Lixo através de distribuição própria ou, no mínimo, em associação a alguma já existente.

 

Como será o processo daqui para frente? Você levará o filme para outros festivais? Como será o lançamento?

 

O filme está iniciando agora a carreita em festivais. Ganhou dois prêmios no Festival do Rio (melhor montagem e melhor fotografia). Deve participar de alguns festivais no primeiro semestre de 2011 e pretendemos lançá-lo em agosto de 2011.

 

Pessoalmente, acredito que Boca do Lixo tem um público bastante amplo, que não precisará ficar restrito ao chamado circuito dos “cinemas de arte”. Você concorda? Ou. segmentando o seu lançamento, o filme poderá primeiramente conquistar algum tipo específico de público e depois um mais abrangente através do chamado boca-a-boca?

 

É o que esperamos. Pretendemos fazer um lançamento abrangente, mas trabalhado por região, buscando pegar tanto o público cinéfilo quanto outro mais amplo; mas certamente contamos com o boca-a-boca. Faremos uma divulgação personalizada, pois pensaremos estrategicamente este lançamento com tempo e dedicação exclusiva, outra vantagem em relação aos distribuidores, assessorados por especialistas do mercado.

 

Você participou como produtor de três longas na última década (Seja o que Deus Quiser, de 2002, Árido Movie, de 2005, e Nome Próprio, de 2007). Pode fazer um paralelo entre produzir e dirigir um filme?  

Na verdade, também produzi todos os filmes que dirigi e confesso que apesar de estressante é bem mais fácil trabalhar comigo como diretor do que produzir outros diretores. Para o realizador brasileiro é quase impossível não ser produtor, alguns poucos podem se dar este luxo. O bom é que entendendo de produção e do ponto de vista “pé no chão” de produtor consigo otimizar minhas escolhas como diretor e consequentemente a qualidade do filme, como fica evidente no resultado do Boca frente às condições de produção. Mas se pudesse optar, ficaria só com a direção, pois me considero um contador de histórias visuais, isto é o que me dá mais prazer no cinema.

 

Há algum projeto encaminhado para produzir ou dirigir em breve?

 

Estou trabalhando atualmente em parceria com a roteirista Mariana Pamplona em dois projetos de longa-metragem de sua autoria, mas qua ainda estão em fase de desenvolvimento: Clandestina sobre a guerrilheira Iara Iavelberg (tia da Mariana) e De Volta pra Casa, uma co-produção Brasil-Argentina contemporânea (graças a Deus!).

 

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