As chances de Andrucha no Oscar, depois de Cuba

Deu a maior zebra no Festival de Havana, mas, desta vez, a nosso favor. Ninguém pode dizer que esperava a vitória de Eu Tu Eles, ainda mais num tipo de festival que costuma exigir dos seus filmes uma densidade, digamos assim, política - coisa que o longa-metragem de Andrucha Waddington está longe de exibir. Mas, de qualquer forma, se trata de um filme misteriosamente carismático e, esta característica, de alguma maneira, acabou por seduzir o júri. É um prêmio importante na carreira de Eu Tu Eles, ainda mais agora que tenta uma das cinco vagas para a finalíssima do Oscar. De qualquer forma, a política do júri foi a de deixar de molho alguns dos títulos mais polêmicos em concurso. Tanto Coronación, do chileno Silvio Caiozzi, quanto La Ley de Herodes, do mexicano Luis Estrada, mereciam ser mais lembrados. Ambos receberam premiações secundárias e troféus com cheiro de prêmios de consolação. O mais decepcionado era Caiozzi, que, na reunião de anúncio dos prêmios, parecia não acreditar no que estava ouvindo. Mas, enfim, festival é assim mesmo e fazia um bom tempo que o Brasil não ia tão bem na mostra cubana. Já ganhamos várias vezes, com Gaijin, Coronel Delmiro Gouveia, A Hora da Estrela, entre outros, mas nos últimos anos o Brasil vinha conseguindo apenas resultados menores. A cerimônia de encerramento do festival, realizada mais uma vez no enorme Teatro Karl Marx, com 5 mil lugares, foi, como aconteceu na abertura, prestigiada pela presença do "comandante en jefe" Fidel Castro, desta vez acompanhado pelo ator norte-americano Harry Belafonte, um habitué do evento. Castro não tugiu nem mugiu, mas monopolizou as atenções até o início da premiação. Tudo já indicava que o Brasil iria ganhar, incluindo a música que acompanhava o clipe do festival deste ano, a bem ritmada Sonho Meu, interpretada por Maria Bethânia. Andrucha foi bastante aplaudido, mas não ovacionado, ao receber os prêmios para o seu filme, em especial quando subiu para apanhar o Grande Coral, o troféu máximo. Na saída, conversou com o Grupo Estado e disse não saber se o fato de ter vencido em Havana iria ajudar Eu Tu Eles em sua corrida para o Oscar. "Com esse bloqueio que existe contra Cuba, não sei não; em todo caso, talvez sendo uma premiação internacional, ajude a convencer os membros da Academia." De resto, Andrucha se disse encantado com Cuba, país que visita pela primeira vez. "Fiquei comovido com um outdoor que dizia algo assim: `Há 200 milhões de crianças famintas no planeta; nenhuma delas mora em Cuba´." Do desenho geral dessa mostra cubana, fica o seguinte. O Brasil continua com a produção diversificada que o caracteriza nesta fase de retomada, e essa diversidade lhe tem garantido lugar nos principais festivais. Entrar ou não em mostras do primeiro time, como são as de Cannes, Berlim e Veneza, parece ser mais prova de competência política dos dirigentes, dos cartolas do cinema, do que de excelência artística. Quando concorre numa mostra mais aberta como a cubana, o País tem a possibilidade de fazer bonito, como aconteceu este ano. A partir daí, da presença nos festivais e dos prêmios, ganhar ou não mais fatias no mercado mundial passa a ser questão mais da ordem dos negócios que da estética. O segundo aspecto que salta à vista é a relativa timidez do cinema argentino, que tem se empenhado em apresentar produtos de feitio acadêmico, sem grandes ousadias, narrativas ou temáticas. Mesmo assim, costuma se dar bem em Havana. Mesmo seu cineasta mais inquieto, Alejandro Agresti, apresentou este ano uma obra aquém do que se espera dele, Una Noche con Sabrina Love, solenemente ignorada pelo júri, o que não quer dizer que não tenha lá o seu encanto. Terceiro, que se há hoje uma cinematografia latina vigorosa mesmo, ela se encontra no México. Claro, também apareceram por aqui os filmes mexicanos mais comerciais, como En el País de no Passa Nada ou Por la Libre. Nada acrescentam. Mas o México selvagem, instintivo, original, pulsa em filmes como Amores Perros, Así Es la Vida e La Ley de Herodes. São títulos impactantes, que dignificam qualquer cinematografia. O cinema cubano continua em compasso de espera, talvez aguardando que o hipotético fim da crise econômica lhe traga de volta a energia de outros tempos. Lista de Espera e Hacerce el Sueco, aqui apresentados, são dignos, divertidos, interessantes, amorosos e críticos. Mas o nível que se exige de uma cinematografia que já deu filmes como Memórias do Subdesenvolvimento é obviamente outro. Finalmente, há talvez uma lição suplementar a se tirar dessa vitória de Eu Tu Eles. Todos se acostumaram a considerá-lo um filme fácil, agradável, encantador - e um tanto superficial. Revisto com calma, mostra que pode ser algo mais do que um entretenimento de qualidade. Um bom pedaço da vida brasileira, do assim chamado Brasil profundo, passa lá, na história daquela mulher sofrida que deseja apenas ter um pouco de prazer e ternura na vida. Algo de sutil se filtra nos diálogos. Há um pequeno segredo humanitário neste filme, que o imanta e o engrandece - para quem sabe assisti-lo.

Agencia Estado,

18 de dezembro de 2000 | 10h16

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