"As Bodas" é uma comédia ácida

As Bodas, de Pavel Longuine, é um belo concerto campestre, mas nada impressionista como aquele famoso Une Partie en Campagne, de Jean Renoir. Aqui seria antes uma versão expressionista da vida do campo, cheia de som e fúria, mas em momento nenhum desprovida de humor. Na verdade, trata-se de uma comédia típica de Longuine, o que deve ser levado em consideração, pois suas comédias são ácidas como algumas frutas fora de estação.A história é singela. Fala de uma modelo, Tania Simakova (Maria Mironova) que depois de viver vários anos em Moscou retorna à sua cidade natal, Lipski, minúscula como um ponto virtual sobre o mapa. O que acontece em Lipski é um imbróglio monumental, que beira nem tanto o surrealismo como o clima alucinado de um ilustre ancestral, Dostoievski. Ao chegar, Tania decide se casar com um amor de infância, Mishka (Marat Basharov). A decisão tem tanta racionalidade quanto a política econômica russa. Tania bebe vodca demais e decide colocar seu destino na mão do acaso. Casamento decidido na base da cara ou coroa.Apesar disso, Mishka deseja fazer uma grande festa, mas claro, não tem dinheiro para isso. O pai dele, um herói dos tempos do comunismo, é o único a se interessar pela festa, e tenta arranjar fundos com amigos. A mãe acha que a futura nora não é flor que se cheire, já que foi modelo na capital. O comportamento de Tania também não ajuda muito a construir sua reputação e tudo o que vier pela frente será confusão.É possível que Pavel Longuine tenha arranjado encrenca ao retratar desse jeito seus compatriotas. Não seria a primeira vez. Não por acaso, ele saiu do país há vários anos, vive na França, onde encontra clima mais propício para produzir seus filmes. O anterior, Linha da Vida, já havia sido produzido da mesma maneira. Ao apresentá-lo em 1996 no Festival de Sochi (um antigo balneário russo, vizinho da Chechênia), Longuine foi pichado impiedosamente.Quem conhece o filme entende a origem e a função dessas críticas. Em Linha da Vida, Longuine também faz comédia, mas uma dessas comédias reveladoras, que descrevem a vida na ex-União Soviética como uma baderna infernal, o governo de mãos atadas, ou cúmplice de grupos mafiosos que, estes sim, seriam os únicos grupos organizados da nova sociedade. É uma caricatura, cruel, como costumam ser algumas das melhores caricaturas. Como ninguém gosta de se ver retratado sem nuances ou atenuantes, Longuine foi detratado. O adjetivo mais ameno empregado por alguns jornais foi "traidor". Disseram que ele havia abandonado o país, e por isso não tinha condições morais de pontificar sobre ele. Bem, seria uma versão eslava do famoso "ame-o ou deixe-o" do Brasil da ditadura. Quer dizer, não se pode criticar.No fundo, As Bodas é um filme que vai no mesmo sentido de Linha da Vida. Longuine procura em sua comédia rural flagrar como os impasses da Rússia contemporânea se refletem no cotidiano e na própria mentalidade das pessoas. Há os fatos da vida concreta, que mudam brutalmente. Sob o austero regime soviético, Tania não exerceria uma profissão "burguesa e decadente" como a de modelo. Hoje ela o faz. O que não impede que os preconceitos em sua terra natal continuem intactos e a atinjam. Há algo de inamovível, ou de mais duradouro que as mudanças econômicas. Elas fazem parte, para bem ou mal, do patrimônio cultural acumulado de um povo. É esse lastro que às vezes o protege e outras vezes impede que progrida.No fundo, As Bodas pode ser lido dessa maneira: o que resta de todo o patrimônio cultural acumulado numa época de barbárie econômica? As respostas, com suas nuances, mas também com suas contradições estão lá, nessa história de amor divertida e às vezes tensa. Com a costumeira exuberância russa - esse, sim, um traço estável da personalidade do país.As Bodas - (The Wedding). Drama. Direção de Pavel Longuine. Rússia - Alem-Fr/2000. Duração: 114 minutos. Cinesesc, às 15 horas, 17h10, 19h20 e 21h30. Censura: 14 anos

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