Divulgação
Divulgação

'As Aventuras do Avião Vermelho' se baseia em livro de Erico Verissimo

Animação transita por diferentes mundos do escritor gaúcho

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2014 | 20h00

Contos, romances, novelas, ensaios, traduções - a produção literária do gaúcho Erico Verissimo, autor do monumental O Tempo e o Vento, é muito extensa e inclui até um segmento infantojuvenil, com livros que ele escreveu para crianças. São títulos como A Vida de Joana D’Arc, Rosa Maria no Castelo Encantado, As Aventuras de Tibicuera e A Vida do Elefante Basílio, mas também As Aventuras do Avião Vermelho, que Erico publicou em 1936 e que ganhou agora versão para cinema. 

A animação de Frederico Pinto e José Maia estreou na quinta-feira passada. Realizada em 2D, com recursos limitados, mas bem colorida e imagética, é uma alternativa interessante para os menores. Os episódios um tanto repetitivos talvez não encontrem acolhida nos maiores, mas há que ver mais essa (boa) animação nacional.

Em anos recentes, O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, e História de Amor e Fúria, de Luís Bolognesi, têm ajudado a desenvolver um conceito de animação à brasileira, não calcado no modelo tradicional da Disney. Uma animação com sotaque - gaúcho. Talvez seja interessante reportar-se a 1936, há quase 80 anos. Erico ainda estava em começo de carreira, lutando para afirmar-se como escritor profissional. Foi o ano de romances como Música ao Longe, de Um Lugar ao Sol. No primeiro, o escritor retoma a personagem Clarissa, de seu romance de estreia - de 1933 -, mostrando-a apaixonada pelo primo Vasco e dando seus primeiros passos rumo à maturidade. Por meio dessas figuras, Erico retrata a decadência econômica e moral de uma tradicional família gaúcha, os Albuquerques. No segundo, Erico segue com Clarissa, Vasco e acrescenta outros personagens para compor o que ele próprio considerava o melhor elenco humano de sua obra inteira - com exceção de O Tempo e o Vento.

São livros que abordam relações familiares, o que se perde e o que se ganha na vida. Os temas prosseguem no Avião Vermelho, mas agora com outra pegada. Tudo gira em torno de Fernandinho, que perdeu a mãe e, se sentindo negligenciado pelo pai, vira baderneiro na escola. Fernandinho é um bom menino, só precisa de atenção. E o pai, que se atira no trabalho, busca um consolo para a própria perda (da mulher). Tentando se reaproximar do filho, o pai o presenteia com um livro que encanta o garoto - conta as aventuras do Capitão Tormenta no avião vermelho do título. Para salvar o capitão, que ficou preso na península de Kamchatka, Fernandinho embarca no avião com seus brinquedos preferidos, o Ursinho e Chocolate. E voam da Lua ao fundo do mar, passando por África, China e Índia até chegar à Rússia. Nesse voar, é como se Fernandinho precisasse resolver seus problemas com o pai para realizar o rito de passagem.

Frederico Pinto é diretor de animação, entre seus trabalho, Docinhos (2002), Salão Aurora (2004), Foi onde deu pra chegar de bicicleta (2005), Os Olhos do Pianista (2005), Quintana inventa o mundo (2006), Tratado de Liligrafia (2008) e a série Loja da Esquina (2007). Atualmente, além de As Aventuras do Avião Vermelho, está dirigindo o episódio piloto da série Bolota & Chumbrega (Anima TV). José Maia é animador. Eles não investem só na qualidade do texto de Erico, mas buscam lhe dar uma forma atraente para as plateias do terceiro milênio. Para isso, valem-se de referências posteriores à escrita do livro, a filmes como 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, e Star Wars, a série de George Lucas, bem como a Chapolim, a série mexicana de Roberto Bolaños com que o ator e escritor que morreu há pouco satirizava os heróis norte-americanos. Esse teor de crítica também se manifesta no Avião Vermelho, mesmo que, no imaginário do público, os bonecos possam parecer recriações da série Toy Story, de John Lasseter, da Pixar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.