As atrações do cinema brasileiro para 2003

Hector Babenco tem alternadomomentos de euforia com outros de depressão, tudo por causa daexpectativa diante de Carandiru - O Filme, que está finalizando.Babenco tem até fevereiro para entregar pronto à distribuidoraColumbia o filme que adaptou do livro de Drauzio Varela (e temestréia anunciada para abril, no dia 11 ou 18). O bom, anuncia opróprio Babenco, é que, pelo menos, ele não tem deixado dedormir à noite por causa de Carandiru e isso pode serconsiderado um sinal positivo, de que no fundo não anda tãopreocupado assim. Cacá Diegues não tem apresentado essecomportamento ciclotímico, à base de altos e baixos. Cacá dizque a felicidade é um sentimento sereno. Está feliz com Deus ÉBrasileiro, que estréia em 31 de janeiro, também distribuídopela Columbia, que pretende lançar o filme com mais de cemcópias. São, talvez, os dois filmes brasileiros mais aguardadosda novíssima safra, essa que deve chegar às telas em 2003 e queainda não foi avalizada pelo público dos festivais. Outroslançamentos nacionais também muito esperados vão estrear esteano referendados por numerosos prêmios que receberam pelo País.Durval Discos, de Anna Muylaert, foi o grande vencedor emGramado e deve estrear em março. Amarelo Manga, de Cláudio deAssis, o vitorioso em Brasília, integra um lote de quase 20filmes já prontos, só à espera de datas para chegar ao mercado. Doze filmes começam a ser lançados a partir deste mês eaté maio. A estrela do lote é Deus É Brasileiro, farsa que opróprio diretor Cacá Diegues define como seu elogio daimperfeição. O filme fechará o mês de janeiro. O primeiro dolote, já nesta sexta-feira, é Separações, o novo Domingos deOliveira, que segue a trilha de Amores, do mesmo diretor. Nãoapenas Domingos continua falando de casais, de amor, de família,como o próprio método narrativo e de produção continua o mesmo.O filme foi feito com base num espetáculo teatral do próprioDomingos e sua trupe. Foi captado em digital, custandobaratinho. Mais do que o custo reduzido, o diretor preferedestacar a liberdade imensa que o digital lhe deu para ousar,criar e ser rápido. Domigos e sua equipe improvisaram bastante.E fizeram, em ambos os casos, os filmes em duas épocas. Naprimeira, cenas foram dirigidas cronologicamente e montadas paraexibir aos prováveis interessados. Só depois que esse materialconvenceu os investidores - e eles colocaram dinheiro no projeto via leis de incentivo -, a rodagem foi retomada (efinalizada). Domingos de Oliveira é o nosso François Truffaut, onosso Woody Allen? A pergunta poderá ser respondida pelo públicojá a partir de sexta, dia 3, quando Separações será lançado comquatro cópias em São Paulo e três no Rio. O diretor estápreocupado: "É um filme pequeno, não tem dinheiro para promovero lançamento. Vai depender, basicamente, do boca-a-boca." Ainda em janeiro está apontado para entrar em cartaz,mas dependendo de data (e salas), Narradores do Vale do Javé ouHistórias do Homem Que Pensava a Lápis, de Eliane Caffé, atalentosa diretora de Kenoma. Esqueça os nacionais em fevereiro. Não é um bom momentopara se lançar a produção nacional. Em fevereiro, a Academia deHollywood anuncia os indicados para o Oscar e os principaiscandidatos - os que ainda não estiverem em cartaz - começarão aentrar em circuito com todo apoio da mídia (tanto a paga quantoa espontânea, afinal, o Oscar é matéria importante para aimprensa). A preocupação com o Oscar vai até o último domingo demarço, mas a diretora Ana Muylaert e a produtora Sara Silveiraarriscam-se a lançar Durval Discos naquele mês. José Joffilytambém promete o lançamento de Dois Perdidos numa Noite Suja,sua adaptação da peça de Plínio Marcos, cuja ação ele transpôspara Nova York. Babenco prefere não arriscar e lança Carandirusó em abril. Março também promete: Tempestade Cerebral, de HugoCarvana, O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, e NelsonFreire, o documentário de João Moreira Salles sobre o grandepianista, vão estar brigando por espaço com as atrações docinemão americano. Em abril, a estrela solitária do cinema nacional nastelas de todo o País será o esperadíssimo Carandiru. E, paramaio, há mais três estréias anunciadas. Seja o Que Deus Quiser,de Murilo Salles, venceu o Festival do Rio BR 2002. Desmundo ésimplesmente o melhor filme de Alain Fresnot e isso é pouco paraas qualidades da obra que o diretor de Trem-Fantasma, Lua Cheiae Ed Mort adaptou do romance de Ana Maria Miranda. Desmundo somaaos valores de produção, sempre sólidos em Fresnot, um rigorestético de que ele não havia dado notícia antes. E não se podeesquecer, no mesmo mês, de O Homem Que Copiava, que o própriodiretor Jorge Furtado considera um filme mais ambicioso do quesua comédia teen - bastante apreciada pelos críticos -, HouveUma Vez Dois Verões.Todos esses filmes, na sua diversidade detemas e estilos, vão dar conta da riqueza e complexidade docinema brasileiro nesta fase pós-consolidação da retomada. Elafica ainda mais flagrante com uma vista d´olhos sobre os outros18 filmes já prontos e que ainda negociam datas, completando 30títulos já finalizados e disputando um mercado ainda formatado -apesar do avanço dos filmes brasileiros - para a produçãoestrangeira, leia-se Hollywood. A lista completa dessas quaseduas dezenas de títulos está na tabela publicada nesta página. Quase prontos - Em finalização, há mais 50 filmes quelogo também começarão a brigar por salas e datas. Apenas alguns:Os Piadistas, de Sérgio Rezende, 1972, de José Emílio Rondeau,Filme de Amor, de Júlio Bressane, Benjamin, de MoniqueGardenberg, Gaijin 2, de Tizuka Yamasaki, Lost Zweig, de SylvioBack, Viva Zapato!, de Luiz Carlos Lacerda, O Vestido, de PauloThiago, Noite de São João, de Sérgio Silva, Prisioneiro da Gradede Ferro, de Paulo Sacramento, 500 Almas, de Joel Pizzini, e umasérie de documentários de cunho biográfico: Anselmo Duarte, deAnselmo Duarte Jr., Paulinho da Viola, de Izabel Jaguaribe, Pelé- O Atleta do Século, de Anibal Massaini, e Person, de MarinaPerson, sobre seu pai, o cineasta Luiz Sérgio Person. Embora todos esses filmes tenham sido produzidos na eraFernando Henrique Cardoso, chegam ao mercado no Brasil dopresidente Luiz Inácio Lula da Silva e há muita curiosidade emrelação às diretrizes do ministro Gilberto Gil, da Cultura, parao setor. Em suas primeiras entrevistas, ele tem declarado que oobjetivo da pasta não é produzir bens culturais, mas incentivarpara que sejam criados. De que maneira isso vai ocorrer e nocinema, em particular, ainda é um mistério. A produtora AssunçãoHernandez, que preside o Congresso do Cinema Brasileiro, está,de qualquer maneira, otimista: "Vamos lutar com afinco pelocrescimento do público nas salas convencionais", ela promete. Eacrescenta: "Vamos apostar, também, na criação de um circuitoalternativo."

Agencia Estado,

01 de janeiro de 2003 | 16h38

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.