Artistas registram últimos dias do Carandiru

Todos os dias, desde junho, um grupo de artistas entra na Casa de Detenção de São Paulo às 10 horas e só sai por volta das 17 horas. Raramente almoçam. Nesse período, já entrevistaram cerca de cem presos, colheram 90 horas de depoimentos em vídeo, registraram dezenas de imagens emfotografia, inventariaram centenas de objetos de celas.No dia 21, começa a demolição do complexo do Carandirupelo governo do Estado. Registrar a iconografia do presídiocondenado também é a preocupação da equipe do cineasta HectorBabenco, que filma Carandiru no Pavilhão 6, já esvaziado.A diretora Sofia Bisilliat, a videoartista e fotógrafaMaureen Bisilliat, o escritor e jornalista André Caramante, ofotojornalista João Wainer, a arquiteta Gisela Magalhães estãono centro do projeto de registro da memória do megapresídio quejá teve quase 8 mil detentos. O nome do projeto é Os ÚltimosMeses do Carandiru e sua pretensão é registrar a memória dolugar que alguns chamam de "depósito de seres errantes",outros de "cemitério de todas as poesias".Em outubro, parte desse trabalho estará em exposição noMemorial da América Latina. Além do documentário em vídeo deMaureen, André Caramante e João Wainer lançam livro peloInstituto Takano, com projeto gráfico de Ruth Klotzel.Eles também querem construir um museu com objetosdeixados nas celas pelos presos na "diáspora" que enfrentamrumo aos 11 novos presídios do Estado. Não têm ainda o aval dogoverno, mas acham que há uma história ali nos entulhos erestos: um holofote que foi transformado em panela, uma máquinade tatuar improvisada com caneta Bic, um motor de walkman, umforno, uma churrasqueira, cartas e cartazes.As mulheres da família Bisilliat são decididas e movidaspor intensa curiosidade artística. Sofia Bisilliat, aos 16 anos(e por iniciativa própria), já trabalhava dando aulas de teatrona Penitenciária Feminina de Taubaté. Sua mãe, a britânicaMaureen, que chegou ao Brasil em 1952 e naturalizou-se em 1963,foi fotojornalista na extinta revista "Realidade" e dirigiudois videodocumentários sobre o tema dos presídios.A decisão de fazer um projeto multimída e registrar OsÚltimos Meses do Carandiru, no entanto, fez com que elasmergulhassem com paixão e sem medidas na empreitada. Não têm nemsequer patrocinador ainda. Todos os envolvidos - André, Sofia(hoje com 39 anos), Maureen, João, Gisela - trabalham desdejunho sem remuneração, movidos pela perspectiva de fazerhistória."É um momento delicado para um tema delicado, umdesafio e temos esperança de podermos traçar retratosdiversificados, atenuando a idéia generalizada do marginal comobruto selvagem sem salvação", diz Maureen. "E também decompartilhar compreensões acerca das complexidades do ser humanoque somos e do ser preso na cidadela complexa do Carandiru."O vislumbre de que ali naqueles pavilhões reside umamemória de grande relevância social é seu principal motivo. Umamemória que resiste ao invasor externo. "Eles (os presos)sempre nos diziam: vocês estão aqui, mas o silêncio é nossamaior arma", diz André Caramante. Dobrar essa resistência e adesconfiança é o primeiro e principal desafio. "Só o tempo e asatitudes é que poderiam reverter isso."Lenda - Eles acreditam que agora conseguiram. Coletaramhistórias pequenas e delimitaram a grande lenda do Carandiru,uma espécie de "pós-doutorado" para a criminalidade. "Hápresos de 19, 20 anos no Carandiru, que se gabam de estar ali,dizem que as meninas vão olhar para eles de maneira diferentedepois daquilo", diz André, que chegou a encontrar amigos deinfância nos pavilhões, garotos com quem jogou bola no passado."Você tem a impressão de que é mais ou menos como apertar uminterruptor de luz: um dia você está aqui fora, outro pode estarlá dentro", pondera André.Segundo os pesquisadores, os presos vivem um momento deeuforia com as transferências. A grande perspectiva é que, agora acelerem-se os processos judiciais parados há anos por conta daimensa burocracia da Detenção, onde muito detento está"esquecido". Exemplificam com a história de um retirante, queveio de Garanhuns, é analfabeto e não sabe há quanto tempo estácondenado nem quanto tempo de pena ainda lhe resta.O material está dividido em atividades e momentos darotina da Casa de Detenção, como educação, saúde, religião,esporte, visitas, trabalhos manuais, triagem, transferência etentativas de fuga de presos, estética e o que Sofia Bisilliatchama de uma "arquitetura da sobrevivência", artifícios que ospresos usam para mudar seus catres e corredores das celas,espalhando oratórios, cartazes, objetos."Encontramos um forno feito à mão, de metal, além deobjetos feitos com cabos de vassoura - tudo virava material namão dos presos", conta Sofia Bisiliat. Além dessa iconografia,fizeram entrevistas com internos e familiares, funcionários daCasa de Detenção, autoridades e especialistas na temáticacarcerária. Não satisfeitos, enviam cartas aos presos járemovidos para outros presídios do Estado, "para que saibam quenão foram usados em nenhum momento".De qualquer modo, Maureen Bisilliat faz questão defrisar que a equipe não está em busca de alguma conclusão moralsobre o crime e suas configurações psicológicas. Sua preocupaçãomaior é registrar um momento, como um instantâneo da situação."O ser humano tem de se revelar por meio de sua própria voz,nós somos apenas mensageiros", assegura.Uma coisa que dizem ter aprendido no convívio de quaseum ano no presídio foi que há uma vitalidade própria naquelacidadela, percepções diferentes e vigorosas da realidade.Descobriram também como funciona a hierarquia local e têmconsciência da divisão dos presos em organizações de criminosos,como o Primeiro Comando da Capital (PCC, que manda em 110cadeias do Estado), a Seita Satânica, o Comando Democrático daLiberdade, o Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidadee o Comando Jovem Vermelho da Criminalidade. Nada disso está nocentro de suas preocupações. As histórias pessoais dos detentosé que são o cerne.

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