Artista tatua manchas de vaca no corpo

"Para quem comprou a verdade, os louros, o cetro, o tombo." O artista plástico Leonilson bordou esta frase, sobre cetim branco, em uma de suas obras. A paulistana Priscilla Davanzio, 22 anos, estudante de artes plásticas, a tatuou nas costas. "É o lugar do corpo que mais lembra o cetim branco", explica Priscilla, personagem-tema do curta-metragem Geotomia, de Marcelo Garcia, que vai ser exibido no festival Mix Brasil. Uma parte do corpo que pareça cetim é algo cada vez mais raro na pele de Priscilla, cujo projeto artístico é tatuar todo o corpo com manchas pretas imitando o couro de uma vaca holandesa malhada. Filosofia digestiva - Geotomia exibe o processo de tatuagem feito no corpo de Priscilla. Foi no começo do ano que ela teve a idéia de colorir o corpo, e há seis meses vem submetendo-se a sessões de tatuagem. "A condição humana é muito superficial, fútil", reclama. "É muito chato ser humano, entediante." Entre as queixas de Priscilla sobre a humanidade está uma dificuldade digestiva: "Não digerimos bem as idéias que recebemos de filmes, livros, jornais." Por isso, a decisão de homenagear as vacas não foi casual. "Elas digerem o bolo alimentar duas vezes." Ela mesma ganhou dos amigos o apelido, carinhoso, de "vaquinha", pelo fato de preferir o leite ao álcool quando sai à noite. Geotomia vai ser exibido na seção do Mix Brasil dedicada à body art (arte no corpo). A palavra Geotomia é um neologismo a partir da soma das palavras geografia e anatomia. As manchas no corpo de Priscilla lembram mais mapas do que couro. "Ela me procurou querendo documentar a mudança. Daí, resolvi fazer um filme que tivesse idéias por trás", conta o diretor Marcelo Garcia. Foram captadas mais de 12 horas de imagens, sintetizadas em um vídeo com 19 minutos. Seu trabalho é uma mistura de videoclipe, videoarte, documentário e até ficção, uma vez que Priscilla é história e personagem ao mesmo tempo. Garcia utilizou fotografias, raios-X, ilustrações e uma microcâmera acoplada à máquina tatuadora para mostrar detalhadamente o corpo de Priscilla, seus piercings e marcas de queimaduras ( body brandings, como ela prefere) , representando cicatrizes de asas de anjo arrancadas. Priscilla batizou seu projeto, que ela define como "iniciação científica", de As Vacas Comem Duas Vezes a Mesma Comida, frase pinçada de um poema de Arnaldo Antunes. Depois de 35 horas de sessões de tatuagem, ela suspira: "O que me incomoda nem é a dor, mas o fato de que a tatuagem ainda não está pronta." Priscila tem 22 tatuagens. A primeira foi feita aos 18 anos. Escreveu no peito, em sueco, a palavra livmulder (útero). "Eu queria desde os 12 anos fazer algo assim." Para ela, a palavra, associada à criação, à gestação, não precisa ficar limitada à anatomia. Seus trabalhos, afirma, são como filhos. Geotomia. No Mix Brasil - Festival da Diversidade Sexual. Domingo (12 de novembro), às 17 h no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000); sábado (18 de novembro), às 21 h, no Museu da Imagem e do Som (Av. Europa, 158).

Agencia Estado,

09 de novembro de 2000 | 12h57

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