Arthur Penn recebe Urso de Ouro pela carreira

Todos os filmes da retrospectiva de Arthur Penn têm estado lotados aqui na Berlinale. O diretor americano Arthur Penn recebeu seu Urso de Ouro especial de carreira. Ele deu uma coletiva - à qual poucos compareceram - e confirmou aquilo que sabem os admiradores de filmes como Um de Nos Morrerá, O Milagre de Anne Sullivan, Caçada Humana, Uma Rajada de Balas (Bonnie & Clyde), Deixem-nos Viver (Alices Restaurant), O Pequeno Grande Homem, Night Moves e Quatro Amigos. Seu cinema discute a violência porque esse é o grande problema da sociedade dos EUA, que não consegue resolver seus conflitos, internos ou externos, senão por meio dela. Seria bom ficar aqui em Berlim assistindo só aos filmes de Penn e depois escrever algum livro sobre eles. Até o mais discutido de seus filmes, Mickey One, que ele fez nos anos 60 com Warren Beatty (e que na época foi considerado muito nouvelle vague), agora ganha outra dimensão. Na quarta à noite ocorreu a exibição oficial de A Casa de Alice, na seção Panorama. A sala estava cheia e um bom público ficou para o Q&A (Question and Answer, pergunta e resposta) no final. A Casa de Alice é bom, claro, mas a uma primeira visão não produz empolgação. O diretor Chico Teixeira veio do documentário. Alice é sua primeira ficção. Inicialmente, era para ser mais um documentário, sobre a cegueira, que o diretor queria tratar do ponto de vista emocional, não científico nem filosófico. Suas pesquisas o orientaram para a ficção. A Casa de Alice não deixa de ser um filme sobre a cegueira - social. É um filme sobre aquilo que não queremos ver. Tem tudo a ver com o Brasil de hoje. Classe média A família de Alice é disfuncional. Mãe doente (mas mesmo assim é ela quem cuida da casa), marido canalha, três filhos, todos homens, e (cada um à sua maneira) canalhinhas como o pai. Toda essa gente, além de se roubar, trair e agredir, física e verbalmente, não faz outra coisa senão ouvir rádio e assistir à televisão. O rádio preenche o vazio da vida da avó, que não perde o programa desse apresentador que tem um especial dom para falar com suas ouvintes carentes. A avó é uma espécie de consciência silenciosa do grupo. No desfecho do roteiro original ela tinha uma ação que era uma violência. Chico Teixeira mudou sua conclusão, que, aliás, não é conclusiva. Nenhuma de suas mulheres tem perspectiva na vida. A sociedade é machista, nenhum homem presta. A Casa de Alice trata a classe média do ponto de vista social, ou socioeconômico. Fala-se mais em dinheiro do que em sentimentos. Não há uma preocupação maior com a psicologia, que o diretor prefere transformar em ação. Chico Teixeira filma suas mulheres (na cozinha, no instituto de beleza) como se pertencessem ao universo de Pedro Almodóvar. Seria um Almodóvar filtrado pela violência do Julio Bressane de Matou a Família e Foi ao Cinema. Seria - e, se fosse, ganharia em força dramática Mas as qualidades são evidentes, e a maior delas é o trabalho com os atores. Existem momentos em que você jura que realmente está invadindo a privacidade de uma família real. Imagine agora a situação - um jornalista maduro, enfadado da vida e da profissão, recebe como tarefa menor a que lhe confere seu editor. Ele terá de entrevistar uma jovem estrela. O velho jornalista acha que sabe tudo. Tenta se desvencilhar da função o mais rapidamente possível, mas a garota presumivelmente fútil e tola, é muito mais interessante (e inteligente) do que ele pensava. Eis aí Interview. O longa de Steve Buscemi talvez seja o melhor filme deste festival - um dos melhores, em todo caso. Passa na seção Panorama. É um remake do filme de Theo Van Gogh, de 2003. No ano seguinte, o diretor holandês, amigo da Mostra de São Paulo, foi brutalmente assassinado. O próprio Theo Van Gogh teria aprovado as mudanças que Steve Buscemi fez em Interview.

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