Arte em busca do glamour perdido

De Andy Warhol ao escandaloso da hora, o italiano Francesco Vezzoli, a exposição Hollywood Boulevard é a prova não só da perenidade da arte pop como da consciência que seus seguidores têm de seus antecedentes históricos e do poder do cinema como gerador de imagens marcantes. Vezzoli, por exemplo, alinha-se ao escocês Douglas Gordon em sua fixação por cenas clássicas de Hollywood. À maneira de Andy Warhol, que filmava intermináveis tomadas de um mesmo tema em filmes de longa duração, Vezzoli e Gordon escolhem seqüências que marcaram suas vidas. O italiano, de uma maneira mais cínica, opera num registro ?camp?, como provou na última Bienal de Veneza, ao apresentar um falso trailer do filme Calígula. Nele, Vezzoli convoca o escritor Gore Vidal, roteirista da versão original, para apresentar a obra - uma sucessão de imagens pornográficas que termina com uma chamada cínica: ?Brevemente perto de sua casa?. Já Gordon prefere cenas clássicas. É autor de um filme perturbador chamado 24 Hour Psycho, que se apropria da seqüência mais popular de Psicose, o histórico filme de Alfred Hitchcock. Em outra obra, ele recicla Martin Scorsese. Usa a cena-chave de Taxi Driver, em que o motorista de táxi representado por Robert De Niro, diante do espelho, tem um surto esquizofrênico e provoca a si mesmo: ?Talkin? to me?? (Falando comigo?). Nem Vezzoli nem Douglas estão representados por filmes. O italiano comparece na mostra com fotos da atriz brasileira Sônia Braga e da fadista portuguesa Amália Rodrigues. Douglas Gordon exibe quatro fotos da série Blind Stars (Estrelas Cegas), em que recorta os olhos da atriz Ava Gardner e do ator Anthony Quinn, entre outros. Como se vê, a exposição está longe de ser uma elegia ao mundo do cinema. É, antes, uma homenagem fúnebre ao ?star system?, incluindo aí as fotos do paulista Vik Muniz feitas com diamantes e caviar. Aliás, essa dualidade da arte pop já foi destacada por mais de um ensaísta, incluindo David Bachelor, que denunciou o uso quase descarado dos anúncios na obra do pioneiro pop Richard Hamilton. O inglês foi a um só tempo irônico e sincero. Hamilton, segundo ele, estava consciente da oscilação entre propaganda e arte que caracteriza a criação no pós-guerra. De qualquer forma, o curador Alexandre Melo, ao apresentar a mostra, não discute a contaminação comercial da arte pela submissão dos artistas pop à indigente cultura visual dos meios de comunicação de massa. Diz que, ao eleger Hollywood como tema, fala do modo de produção d e imagens ?que é a base das mutações culturais de fundo designadas por expressões como sociedade do espetáculo?. Numa época de reality shows, em que todos querem ser celebridades instantâneas e o real confunde-se com a ficção, seria, então, oportuno, segundo ele, discutir como essas imagens são produzidas, relacionando-se ?de modo mais ou menos direto com aquilo que Hollywood invoca enquanto mito ou realidade? . Não é demais lembrar que, em sua primeira exposição em Nova York, em 1962, Warhol emergiu como um fã ardoroso de Jack Smith, o escandaloso diretor de Flaming Creatures - lançado, aliás, no mesmo ano da estréia do artista pop. Ou seja: seu fascínio por Hollywood passou sempre pela paródia. Tanto é verdade que os primeiros filmes de Warhol já começavam destruindo os mitos de Tarzan (Tarzan and Jane Regained...Sort of, de 1963), Batman e Drácula (os dois de 1964 e com a participação de Jack Smith). Warhol não faz por menos com o rosto clássico de Ingrid Bergman (1915-1982), a atriz sueca, mulher de Rosselini, reduzida nas três fotos da exposição a pôsteres comerciais sem drama ou alma, fosse ela a fatal Ilsa Lund Laszlo de Casablanca ou uma freira em conflito. Para o curador Alexandre Melo, uma ?nova gramática? de produção de imagens inventada pelo cinema espalhou sua sintaxe por todas as artes e uma ?geografia mítica? fez de Hollywood o paraíso reencontrado. A observação aplica-se a John Waters, o rei do filme ?camp?, diretor de filmes em que impera o mau gosto (como Pink Flamingos), mas não a Eward Ruscha, que, educado numa família católica, nunca negou a influência da religião. A palavra ?sin? (pecado) que aparece na foto acima, nesta página, sobrepondo-se a nuvens negras, pode ser lida como um comentário irônico ou testemunho de uma atitude espiritual diante dessa Hollywood retratada por Ruscha em séries como The Back of Hollywood (1977), que evoca as vistas panorâmicas do cinema com melancolia. Herança da arte conceitual, essa mania de escrever sobre telas e fotografias cansou e os trabalhos de Ruscha das duas últimas décadas caminham em outra direção. Já o patrício de Massachusetts, Jack Pierson, que ganha um bocado de dinheiro com o abecedário, insiste nas letras. Pierson está presente com dois trabalhos recentes: Actress (Atriz, 2000), uma foto em que cada letra usa tipologia diferente, e Stardust número 2 (2001), close-up cinematográfico retrabalhado no limiar da abstração. Menos discreta na arte da autopromoção, a fotógrafa Cindy Sherman percebeu que não tinha jeito para a pintura. Resolveu partir para a paródia logo ao se formar, em 1976. Deixou o subúrbio de Glenn Ridge, foi para Nova York e começou a fotografar uma série de falsos ?stills?de filmes sem título. Percebeu que agradou e colocou-se no lugar de figuras históricas em fotos igualmente forjadas (trabalho dos anos 1980/90). As duas fotos da hoje milionária Cindy em Hollywood Boulevard são igualmente auto-retratos, mas menos charmosos. Nessas duas imagens da série Bus Riders (Passageiros de Ônibus, 1975/2005), ela aparece como gente do povo, destituída de carisma. Gente que busca nas estrelas de cinema justamente o glamour que não temHollywood Boulevard. Galeria Fortes Vilaça. R. Fradique Coutinho, 1500, 3032-7066. 10h/19h (sáb.,até 17h; fecha dom e seg) Grátis. Até 4/3. Abertura na quinta, às 20 horas

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