CLAUDETTE BARIUS/WARNER BROS./AP
CLAUDETTE BARIUS/WARNER BROS./AP

Arlequina e sua nova gangue, tudo pela independência

‘Aves de Rapina’, que estreia nesta quinta, concilia humor, ação e violência e traz a anti-heroína após fim do romance com Coringa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2020 | 19h43

Jared Leto postou no Instagram que o Joker/Coringa faria uma aparição no spinoff da DC Aves de Rapina, dedicado a Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa. O longa de Cathy Yan estreou na quinta, 6, no Brasil. Em dezembro, Margot Robbie e a diretora estiveram em São Paulo, na CCXP, para mostrar cenas do filme e conversar com o público num painel que foi movimentadíssimo. Muita coisa se passou, desde então - incluindo nova indicação de Margot para o Oscar (de melhor atriz coadjuvante) por O Escândalo, em que ela está arrasadora, mas não mais do que como a anti-heroína de Aves de Rapina.

Nos créditos finais, você verá que Margot também produz. Em conversa com o repórter, num hotel do Morumbi, contou: “Gosto demais dessa personagem e, por mim, não pararia nunca de interpretá-la. Acho que Arlequina tem muitas possibilidades de crescer. E já que eu não queria me despedir dela depois de Esquadrão Suicida, o negócio era me jogar no projeto e torná-lo realidade. O encontro com Cathy foi ‘fantabuloso’. Temos ideias muito próximas sobre a personagem, comics, empoderamento. Mulher-Maravilha abriu um debate necessário, mas feminismo não é só uma questão para mulheres. Homens podem ser feministas, é só não se intimidarem de ter mulheres fortes como companheiras”.



De cara, no começo do filme, falando em primeira pessoa, Margot/Harley Quinn conta da sua grande crise. Acabou com o Coringa, ou melhor, foi chutada por ele - literalmente. Não, Jared Leto não aparece - nem faz falta (o ator). Numa cena, Arlequina explica a origem do nome - seria alguém que nasceu para servir, o que não é o caso. Ela adquire independência e forma o próprio grupo - Aves de Rapina - para combater o crime em Gotham City, incluindo Cassandra Cain, Caçadora, Canário Negro e Renee Montoya - interpretadas por Ella Jay Basco, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollet-Bell e a mais veterana Rosie Perez. “Gostaria muito que o cinema se abrisse mais para esses grupos de mulheres, principalmente em filmes de aventuras.” Garotas? Não, na entrevista, Margot reforçou uma frase do trailer: “Chame uma mulher até de vaca, é melhor que chamá-la de menina”. E a diretora Cathy Yan: “É uma história muito inspiradora. Elas aprendem a trabalhar juntas, que é uma atitude necessária. Todas as transformações ocorridas na indústria nos últimos anos nasceram de um sentimento coletivo, veja o #MeToo”.

Com a utilização de grafismos e rompendo a quarta parede para realçar o aspecto farsesco, o filme tem uma pegada mais para Deadpool do que para o trágico Coringa de Todd Phillips. Margot é de uma entrega radical e até poderá estar no prêmio da Academia do ano que vem por algum outro filme, mas não será por esse, brincalhão demais para o padrão da Hollywood que se leva a sério. A atriz só teve elogios para sua diretora. “Cathy não queria que fôssemos só mulheres batendo como homens. O foco dela deu supercerto.” 

Nascida na China e criada em Hong Kong e Washington, Cathy Yan cursou a Princeton University e se iniciou como jornalista no Los Angeles Times e no Wall Street Journal, baseada em Nova York e Pequim. Migrou para o cinema, e inspirada numa história real, fez Dead Pigs, que foi acolhido em Sundance como uma metáfora sobre a vida chinesa (e muito elogiado). Quase de imediato foi escolhida para dirigir Aves de Rapina.

“Não sou especialista em comics, mas me pareceu uma oportunidade única para abordar temas contemporâneos ligados ao papel da mulher na sociedade.” Como mulher do Coringa, Arlequina é intocável. Quando terminam, todo mundo quer acertar contas com ela. E Canário Negro vive cantando a fragilidade das mulheres, o que não deixa de ser um paradoxo, porque ela tem um vozeirão que, quando solta, o agudo, em especial, pode se tornar mortal. 

Dead Pigs era um filme pequeno - Jia Zhangke era o produtor executivo -, como foi a passagem para o blockbuster? “Não creio que aquele filme pequeno seja mais meu que esse grande. Margot e eu criamos uma cumplicidade muito grande e, juntas, fizemos o filme que queríamos. Se não der certo, não teremos nenhum homem para culpar.”

O filme inclui uma homenagem a Marilyn Monroe, uma nova versão de Diamonds Are a Girl’s Best Friend, que ela cantou em Os Homens Preferem as Loiras, baseada no fato de que um diamante é peça valiosa da trama. “Marilyn representa o ápice da mulher sob o olhar de desejo dos homens, e quisemos tirar proveito disso”, explicou Cathy. E Ewan McGregor, como o vilão Máscara Negra? “Já que o Coringa fica fora de cena, foi preciso criar algo novo. Roman (o nome do Máscara) é um psicopata carismático, virou o rival perfeito. E Ewan trouxe muito charme para o papel.”


 

 

Nas HQs, Aves de Rapina eram bem diferentes

Aves de Rapina abre temporada de filmes de super-heroínas: em 2020, Mulher-Maravilha e Viúva Negra também estrelam longas. A diferença é que Arlequina lidera um grupo de vilãs. Mas nem sempre foi assim: nas HQs, sua origem foi mais bem-comportada. 

No início, era uma dupla com a Batgirl (Barbara Gordon, filha do Comissário Gordon que ficou paraplégica após ser atacada pelo Coringa em Batman: A Piada Mortal) e a heroína Canário Negro. As Aves de Rapina surgiram em uma edição única de 1996, criadas por Jordan B. Gorfinkel e Chuck Dixon. A partir de 1999, ganharam série nas HQs incluindo várias personagens - até Mulher-Gato e Hera Venenosa integraram elenco

Apesar do tom feminista adotado pelas HQs, especialmente após Gail Simone se tornar roteirista, o time teve até homens, como Asa Noturna (Dick Grayson, o ex-Robin) e Rapina (herói obscuro de Steve Ditko, criador do Homem-Aranha). / ANDRÉ CÁCERES

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