Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Ariane Mnouchkine, do Théâtre du Soleil, vem a São Paulo lançar filme

Longa é versão da peça ‘Os Náufragos da Louca Esperança’

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2013 | 18h38

Os Náufragos da Louca Esperança levava o cinema para dentro do teatro. Quem assistiu ao espetáculo da cia. francesa, Théâtre du Soleil, que passou pelo Brasil em 2011, pôde encontrar no palco a história dos primórdios da arte dos irmãos Lumière. Mas a diretora Ariane Mnouchkine decidiu não parar por aí. Usou o argumento para criar o filme homônimo, apresentado na segunda durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que também deve ser lançado em DVD pelo selo Sesc.

"Agora, temos um filme que fala de uma peça que fala de um filme”, comenta Mnouchkine, que esteve em São Paulo para o lançamento do longa. Saudada por sua trajetória como encenadora – conduz uma das companhias teatrais mais importante do mundo – ela é menos conhecida como cineasta. Mas não menos experiente: já foi indicada ao Oscar pelo filme O Homem do Rio (1965) e à Palma de Ouro por Molière (1978). “Mesmo em obras que não tratam diretamente do assunto, por vezes, descubro depois que havia uma certa influência do cinema”, disse em entrevista ao Estado.

É o caso de Os Efêmeros. Na peça, que foi vista no Brasil em 2008, a trama girava em torno de 15 histórias cotidianas: aniversários, festas, mortes. Mas a maneira de levar esses episódios para a cena lembrava a técnica do plano sequência.

Com Os Náufragos da Louca Esperança, a trupe francesa retornava, de certa maneira, ao território no qual sempre caminhou com mais desenvoltura: o do teatro épico. A conotação política da obra é evidente. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, dois cineastas se reúnem no sótão de um cabaré para filmar a saga de um grupo de imigrantes. Eles tomam uma embarcação que sai do País de Gales em direção à Austrália, mas acabam naufragando na Patagônia. A inspiração para a trama veio de um livro póstumo e pouco conhecido de Julio Verne – Os Náufragos de Jonathan – e tratava da possibilidade de criar uma nova sociedade baseada em valores igualitários.

Pode soar anacrônica a proposição utópica do grupo. Mas, para a diretora, falar disso hoje talvez seja ainda mais necessário do que há 30 ou 40 anos. “Utopia não é o impossível ou o não realizável. É aquilo que não realizamos ainda”, pontua.

Para transformar o enredo teatral em argumento cinematográfico, Mnouchkine adicionou mais uma camada à história, aproximando-a dos dias de hoje. No longa, os primeiros personagens a surgir são três crianças tomadas por esse universo – algo encantado – dos antigos cinematógrafos. “Precisava que alguém entrasse dentro desse mundo para ver o que se passa ali”, observa a diretora. “Escolhi crianças justamente porque elas me pareciam capazes de dar esse salto imaginativo.”

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