Chantal Anderson/The New York Times
Chantal Anderson/The New York Times

Ari Wegner: uma diretora de fotografia que conhece até os cílios dos atores

Favorita ao Oscar por 'Ataque dos Cães', ela se especializou em vegetação e geografia para o trabalho

Nicole Sperling, The New York Times

16 de março de 2022 | 20h00

LOS ANGELES - Ari Wegner descobriu o cinema como uma forma de arte - e uma possível carreira - no final do ensino médio. A diretora de fotografia de Ataque dos cães, que pode se tornar a primeira mulher a ganhar um Oscar na categoria, cresceu em um mundo cheio de arte em Melbourne, na Austrália, com um pai que era pintor e artista visual e uma mãe que era “super criativa”. Arte e arquitetura enchiam sua casa. Filmes, nem tanto. Isso mudou quando o professor de mídia de Wegner mostrou a ela alguns curtas de cineastas renomados.

De repente, um novo mundo se abriu para ela.

Qual curta ressoou mais? Foi Momentos sem Paixão, de Jane Campion, de 1983, um compêndio de momentos constrangedores e embaraçosos do cotidiano que rendeu à cineasta uma indicação do American Film Institute antes dela fazer seu primeiro longa-metragem.

“Foi realmente impactante para mim. Parecia possível”, disse Wegner em uma entrevista no mês passado. A cineasta de 37 anos estava na cidade para uma estadia prolongada, planejando ir e voltar entre Los Angeles e Londres no último mês de sua turnê para o Oscar. “Talvez fosse algo sobre o sotaque australiano ou por ter sido feito por uma mulher. Eu podia ver os elementos que estavam ali, e parecia uma coisa emocionante para tentar versus um 'Como você consegue fazer isso?'”

Então Wegner, já uma fotógrafa iniciante obcecada por contar histórias, voltou sua atenção para outro tipo de câmera. A escola de cinema foi seguida por anos na cena independente. O filme Lady Macbeth de 2016, estrelado por Florence Pugh, a trouxe para Sundance pela primeira vez. Então ela filmou “Zola” para Janicza Bravo.

Mas parecia coisa do destino quando seu telefone tocou em 2018: era Campion perguntando o que ela faria nos próximos dois anos. As duas se conheceram anos antes em um trabalho comercial para um banco australiano. Foram apenas dois dias, mas Wegner disse que elas sintonizaram, compartilhando uma estética semelhante e uma obsessão pela preparação.

Campion chama as duas de “swots”, o termo britânico para “sabichão”, e apropriado para a dupla que passou um ano inteiro se preparando para Ataque dos cães. (Em média, uma produção passará de quatro a oito semanas em pré-produção oficial, com o diretor de fotografia frequentemente chegando depois que os sets são feitos e os locais escolhidos.) Com a Ilha Sul da Nova Zelândia representando Montana na década de 1920, Wegner passou meses pesquisando a paisagem acidentada do estado onde a história do proprietário de fazenda valentão Phil Burbank, sua cunhada intimidada, Rose, e seu filho azarão, Peter, acontece.

A diretora de fotografia aprendeu sobre tudo, desde vegetação e tipos de rochas até o ciclo anual da criação de gado e tecnologia de arame farpado. Ela e Campion também passaram meses procurando locações e então, assim que a pré-produção estava oficialmente em andamento, Campion alugou para as duas uma casa perto do rancho onde estavam filmando. Elas passavam todas as manhãs “conversando e desenhando” com “muitas xícaras de chá e torradas” no que Wegner chama de “ambiente de baixa pressão”.

Todas as tardes elas iam para os sets enquanto estavam sendo construídos para ver se suas ideias poderiam ser traduzidas para o mundo físico.

“Há algo realmente especial que desbloqueia quando você tem um ano, porque você realmente passa por rascunhos de ideias”, disse Wegner. “A ideia é estar super preparado para que no dia você realmente tenha total liberdade. Toda a ansiedade de como vamos fazer se vai. Você pode realmente brincar e fazer o que quiser quando há um plano de backup.”

Wegner ficou ao mesmo tempo revigorada e apavorada com o processo.

“Você não quer ser o DF” – diretor de fotografia – “do único filme de Jane Campion que não parecia nada bom”, ela disse rindo.

Foi essa atenção aos detalhes que Campion apreciou.

“Se temos um problema para resolver, seguimos até descobrir o que fazer”, a diretora disse em um e-mail. “Saber que seu diretor de fotografia tem esse tipo de compromisso com o projeto é incrivelmente reconfortante.”

O trabalho de Wegner sobre o western subversivo já gerou amplo reconhecimento. A British Society of Cinematographers fez dela a primeira mulher nos 73 anos de história da organização a ganhar o prêmio de longa-metragem. Ela também foi indicada ao BAFTA e ganhou um prêmio de melhor fotografia no Critics Choice Awards na noite de domingo. Caso ganhe o Oscar, ela se tornará a primeira mulher nos 95 anos de história da academia a receber o prêmio. (A diretora de fotografia de Lágrimas sobre o Mississipi, Rachel Morrison, foi a primeira mulher a ser indicada na categoria, em 2018.)

A crítica do Mashable Kristy Puchko, que confundiu Wegner com um homem, chama seu trabalho de “à procura”, acrescentando: “Seus closes estreitíssimos se agarram a seus objetos, recusando-se a ser excluídos das emoções mais secretas. Suas tomadas longas perduram, nos convidando a observar os ambientes maravilhosos, mas hostis, que cercam essa família problemática, e ilustram como eles são frágeis por contraste.”

Para Wegner, que costuma receber e-mails encaminhados por seu agente perguntando sobre a disponibilidade “dele”, é tudo muito pessoal. Ela disse que chorou na ocular da câmera muitas vezes durante as filmagens. Em Ataque dos cães foi a performance de Kirsten Dunst que a emocionou, especificamente quando ela persegue Phil (Benedict Cumberbatch) e Peter (Kodi Smit-McPhee) enquanto eles cavalgam juntos.

“Ela está em tal estado de desespero”, disse Wegner.

Wegner falou sobre a estranha intimidade de mão única que ocorre entre os diretores de fotografia e os atores que estão filmando.

“Você está conhecendo seu rosto e corpo de uma maneira tão privada e íntima”, disse Wegner, comparando com a forma com a qual um pai conhece um filho ou um amante conhece um parceiro.

“Quando eles virarem a cabeça para esse lado, sei como o cílio parecerá”, ela acrescentou. “Eu sei que quando inclino a câmera para baixo, vou ver aquela cicatriz ou aquela verruga ou aquele pedacinho de sua orelha que faz isso. Você se sente muito conectado, protetor, talvez até maternal às vezes.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES.

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