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Ari Folman denuncia ditadura virtual

Robin Wright une-se ao autor de 'Valsa para Bashir' em 'Congresso Futurista'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2014 | 02h10

Ari Folman tinha 16 anos quando leu o livro de Stanislav Lem, O Congresso Futurológico. Ficou fascinado com a fantasia científica do autor polonês que já era cult. A fama de Lem aumentou ainda mais depois que Andrei Tarkovski fez Solaris. Em Israel, o jovem Folman orientou-se para a animação, virou diretor e fez um filme que também se tornou cultuado - Valsa para Bashir. E voltou ao seu antigo amor, o livro de Lem.

Folman contou tudo isso em Cannes, no ano passado. O Congresso virou O Congresso Futurista e estreia hoje nos cinemas brasileiros. É outra animação para adultos, a exemplo do deslumbrante Vidas ao Vento, de Hayao Miyzazaki, o melhor filme do ano até agora. Robin Wright (ex-Penn) faz uma atriz que vive um momento difícil de sua vida e carreira. O filho deficiente exige um tratamento caro e ela não está conseguindo trabalho. Nessa hora de dificuldade, recebe uma oferta irrecusável. Uma empresa lhe oferece uma fortuna para escanear sua imagem e transformá-la em atriz virtual. Ela nunca mais poderá representar e sua imagem pertencerá à empresa. Robin aceita e depois percebe as implicações desastrosas do contrato que aceitou.

Em Cannes, num encontro com jornalistas, Folman contou como teve de quebrar a cabeça para encontrar sua forma de adaptar o livro. Isso ocorreu durante a realização de Valsa para Bashir, que já se situava, esteticamente, nas bordas da animação e da live action. Ele demorou mais de ano para escrever o roteiro. Sentia que, cada vez mais se afastava do livro, mas agora identifica o texto de Lem em seu filme, especialmente na parte animada.

Para o espectador que conhece o texto de Lem, a grande mudança está na transformação do herói - um explorador e cientista - numa mulher, e atriz, ainda por cima. Folman explica - "Lem criou uma alegoria para falar sobre o comunismo, que era o que lhe interessava e, nesse sentido, fazia todo sentido criar aquele personagem para contestar a ditadura, mesmo que fosse do proletariado. Mas o Muro de Berlim caiu, o império soviético desmoronou e eu estaria fazendo um filme datado, se ficasse simplesmente repetindo aquela história. Minha dificuldade, ou meu desafio, foi buscar o equivalente contemporâneo. A indústria do show biz controla corações e mentes. Fazendo do ditador o controlador desse universo, fazia todo sentido que meu protagonista fosse um ator. Radicalizei e a transformei numa atriz."

A forma como Robin Wright entrou no projeto fica muito curiosa, contada pelo próprio diretor. "Sempre vi o filme como se abrindo na cena com a crucificação do que seria o ator por seu agente de longa data. Em 2009, estava em Los Angeles e participei de um evento da indústria. Fui apresentado a Robin, achei-a muito interessante. Sentamo-nos relativamente próximos e eu me surpreendia olhando para ela. Percebia alguma coisa que não conseguia identificar. No dia seguinte, pedi a meu ilustrador, David Polonsky, que colocasse a imagem dela nos desenhos que já havia feito. Batia perfeitamente. Enviei o roteiro para Robin, expliquei o que queria fazer e ela topou imediatamente. Foi assim que iniciamos uma jornada que nos uniu por quatro anos."

Em Valsa para Bashir, Folman já misturara técnicas e estilos, criando uma ficção - um falso documentário - que terminava com a denúncia do massacre perpetrado pelos israelenses nos campos de Sabra e Chatyla. Todo totalitarismo horroriza o cineasta, e agora ele investe contra a chamada indústria do entretenimento, que chama de 'máquina de alienação'. Na ficção de O Congresso Futurista, 20 anos se passaram desde que a atriz assinou o contrato com a Maramount-Nagasaki. Sua imagem foi difundida em inúmeros filmes de ação e ela é convidada a participar do congresso da empresa. Convidada, não - intimada. Lá, todo mundo é forçado a ingerir um soro que transporta os convidados para um mundo virtual animado.

Só para sua informação, Folman imagina um Tom Cruise de traços orientais e até um Michael Jackson com a roupa de garçom, servindo drinks. O mundo utópico é, na verdade, uma distopia, e das mais sombrias. Não existe nenhuma possibilidade de ser feliz, exceto por essa dependência química que a droga proporciona. Por que fazer um filme desses? "Porque é o limiar de uma escolha que estamos fazendo. Nossos líderes estão nos vendendo uma ideia fantasiosa de democracia que encobre um desejo totalitário. Nunca vi o mundo tão em perigo. (Stanislav) Lem concordaria comigo. O comunismo pode ter sido derrotado, mas a ameaça a nossos direitos de indivíduos e ao sistema democrático nunca foi tão forte." Para uma história tão complexa, Folman criou um visual que só comporta uma definição - ousado. E Robin Wright se integrou tanto ao projeto que virou coprodutora.

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