Cristina Terceiro/ EFE
Cristina Terceiro/ EFE

Argentina descobre sua bisavó graças a novo filme de Isabel Coixet, 'Elisa & Marcela'

Disponível na Netflix, longa-metragem narra o primeiro casamento homossexual realizado pela Igreja; veja o trailer

Cristina Tercero, EFE

07 de junho de 2019 | 12h32

Norma Graciela Moure nunca imaginou que pôr o nome de um familiar em um site de busca na internet poderia levá-la a descobrir que sua bisavó é a protagonista do último filme de Isabel Coixet, Elisa & Marcela, que narra a história do primeiro casamento homossexual realizado pela Igreja.

"Isto é algo novo para mim", afirmou Norma, de 61 anos, ainda tímida diante da câmera, porque há pouco mais de um ano sabe que sua bisavó, Marcela Carmen Gracia, é na realidade Marcela Gracia Ibeas, que em 1901 quebrou paradigmas na sociedade espanhola ao conseguir se casar com Elisa Sánchez Loriga.

Para burlar a lei em uma época na qual o casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda era proibido no mundo todo, Elisa adotou uma identidade masculina, mas a manobra acabou sendo descoberta.

Ambas foram perseguidas e tiveram que fugir, primeiro para Portugal e posteriormente para a Argentina, onde não foram descobertas, apesar dos esforços da imprensa da época. Pelo menos até agora.

"Por acaso, em 3 de junho do ano passado digitei em um site de busca na internet o nome da minha avó como eu a conhecia, porque queria fazer a árvore genealógica da família e precisava de mais dados", explicou Norma em uma conversa com a Agência Efe.

Ao pressionar "Enter", chegou a surpresa. Esse nome aparecia em mais de cinco milhões de resultados, a maioria sobre o filme e entre os quais chamou a atenção o livro do historiador Narciso de Gabriel, Elisa e Marcela. Amigas e amantes", e uma fotografia da sua bisavó; para ela, Marcela Carmen Gracia.

Após revisar bem com suas filhas, todas observaram a semelhança entre esta pioneira e a imagem amarelada que guardam da sua bisavó, embora para elas a história de Elisa e Marcela fosse totalmente desconhecida: "Ninguém sabia de nada", destacou.

"Minha mãe foi quem me passou o pouco que sei sobre Marcela e minha avó, mas todos os dados que existiam, papeis, etc., foram perdidos em um incêndio", relatou.

Norma também lembra que a história de como sua avó nasceu na Espanha e chegou à Argentina com apenas um ano "fugindo" e "perseguida" parecia "muito fantástica, muito louca".

Ela decidiu então escrever ao autor do livro, que confirmou que os relatos de sua mãe não estavam tão distantes da realidade.

"Eu mandei a certidão de nascimento da minha mãe, onde aparecia o nome da minha avó e da minha bisavó, a minha certidão de nascimento, para que pudesse ver que havia um vínculo e que não era uma oportunista nem alguém que queria tirar proveito, e mandei a foto que eu tinha da minha bisavó", contou Norma.

O contato já estava estabelecido. Depois uma troca de e-mails lhes permitiu se aprofundar um pouco mais na odisseia argentina deste casal e, sobretudo, da filha de Marcela (avó de Norma), possível estopim de toda esta história.

São várias as versões que existem sobre o ocorrido. Uns afirmam que se tratou de uma verdadeira história de amor entre duas mulheres, outros que foi uma relação de Marcela com um homem casado e sua posterior gravidez o que motivou esta peculiar união, para tentar salvar "a honra" da sua amiga.

Esta última é a postura de Norma e da família distante que Elisa tem na província de Buenos Aires, com quem mantém contato e inclusive ajudou a descobrir a história.

"Elisa disse à família que tinham feito isso porque deram a aprovação à minha bisavó para ser a namorada desse homem, e ao ficar grávida e ele não assumir, se sentiu responsável e lidou com tudo isto", declarou.

"Seja assim, ou que tenha sido lésbica ou bissexual, porque teve relações com homens e mulheres, quem pode julgar?", comentou sua bisneta.

O amor de Elisa e Marcela já deu nome a uma rua em La Coruña (Espanha), a uma peça de teatro, exposições, livros e, agora, também a um filme dirigido pela catalã Isabel Coixet, o que permitiu a internacionalização desta história que o Netflix distribuirá em 190 países a partir desta sexta-feira.

Sobre o filme, esta descendente tem suas reservas, especialmente pelos comentários que circulam nas redes sobre uma pessoa tão próxima dela como Marcela.

Mesmo assim, afirma que conhecer sua verdadeiro origem só lhe deu mais forças para continuar procurando e ver até onde Elisa e Marcela lhe deixam saber. 

 

Tudo o que sabemos sobre:
Isabel Coixetcasamento gay

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.