Woods Producciones
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'Aranha', de Andrés Wood, traz à tona o passado de violento grupo nacionalista chileno

Filme integra o Ciclo Cinema e Política que começa hoje no Petra Belas Artes

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

23 de setembro de 2021 | 05h00

Andrés Wood nasceu em 14 de setembro de 1965, em Santiago. Tinha 8 anos quando houve o golpe militar, em 11 de setembro de 1973. É nove anos mais velho do que Sebastián Lelio, 11 mais do que Pablo Larraín. Em 2013, o site espanhol Cassmerica listou Machuca, de 2004, como um dos 20 maiores filmes latino-americanos. Dois garotos, um da periferia, outro pertencente à elite, compartilham a mesma escola, num experimento social, às vésperas do golpe militar no Chile. O pinochetaço é o fantasma que assombra Andrés. O choque de classes e a quebra institucional estão de volta em Aranha. O filme integra o Ciclo Cinema e Política que começa nesta quinta, 23, no Petra Belas Artes. 

A par das estreias de Aranha e do documentário Nem Tudo se Desfaz, de Josias Teófilo, o ciclo resgata obras como Outubro, A Batalha de Argel, Z, Sacco e Vanzetti, O Desaparecido – Um Grande Mistério e Arquitetura da Destruição. O Brasil integra-se a essa seleção com dois títulos sobre o lulopetismo, Entreatos, de João Moreira Salles, e Peões, de Eduardo Coutinho. 

Andrés Wood conversa com a reportagem do Estadão por Zoom. Segue isolado no Chile, na praia. Acompanha com alguma apreensão o retorno à chamada normalidade. “Esse vírus não vai desaparecer tão rapidamente como surgiu.” 

Aranha é sobre uma organização de extrema-direita, ultranacionalista – Pátria y Libertad –, financiada pela elite econômica do Chile para desestabilizar o processo democrático no país. Dias após o golpe, um letreiro informa que foi extinta. Na trama ficcional de Aranha, um homem reage violentamente a uma tentativa de assalto a uma mulher. A mídia explora o caso – o povo, cansado, faz justiça com as próprias mãos. Surge a verdadeira história – no passado, Justo, um ex-militar, integrou a organização clandestina, formando um triângulo amoroso com a ricaça Inés e seu amante, também rico, Gerardo. E agora ele ressurge para embaraçar a antiga militante, transformada numa empresária de sucesso. 

Em 2019, quando Aranha estreou na Europa e no Chile, o país andino era palco de intensas manifestações populares. Estudantes, trabalhadores, cada categoria com sua pauta. O Chile, que foi laboratório das experiências econômicas neoliberais, apresentava o que não se via antes – desemprego, grupos de sem-teto, gente brigando por comida nas ruas. “Tudo isso é consequência do golpe militar e do modelo implantado no Chile. Hoje em dia, a direita tenta calar o debate sobre classes, como se não existissem divisões, mas a desigualdade não pode ser escondida – no Brasil, no Chile”, diz Wood. 

Os cineastas mais jovens fazem filmes internacionais. Lelio ganhou o Oscar por Uma Mulher Fantástica e refez Glória nos EUA, com Julianne Moore. Larraín segue com seus perfis de mulheres. Depois de Jackie, a princesa Diana, revelada através de sua decisão de se separar do príncipe Charles e abandonar a família real britânica, voltando ao nome de solteira, Spencer, que dá título ao filme. Andrés Wood persiste no Chile e na abordagem do golpe. “Deve ser porque sou mais pessimista”, brinca. O repórter arrisca uma interpretação – em Violeta Foi para o Céu, sua cinebiografia de Violeta Parra, ele tentou construir uma espécie de utopia, em choque com a realidade. A mulher que acredita no amor, no socialismo, tinha um projeto de construção da própria nação. 

Inés vai no sentido contrário. É uma militante do ódio – você já ouviu esse discurso. Milita contra a utopia. Andrés concorda? “Não, mas estou achando interessante. Continue.” O repórter insiste – Inés é a verdadeira aranha dessa história, tecendo a teia que envolve seus homens, o fraco Gerardo e o impetuoso Justo. Esse trilhará um caminho sem volta. “Nisso estamos de acordo”, diz o diretor. “Se fosse um filme noir, ela seria a femme fatale.” 

Como o filme se desenvolve em dois tempos – na atualidade e no começo dos anos 1970 –, Inés é interpretada por duas atrizes, a argentina Mercedes Morán e a espanhola Maria Valverde. 

“Queria muito que Mercedes fizesse o papel, e a verdade é que tivemos uma sorte incrível. Maria parece uma Mercedes mais jovem, com o mesmo nariz inconfundível. As duas superaram minha expectativa.” Para o bem e para o mal, a obra de Andrés nutre-se de presenças femininas fortes. De onde vêm essas mulheres? “Fui muito marcado pelas mulheres fortes de minha família – avó, mãe, irmã, filhas, amigas também. As mulheres nunca pararam de me surpreender. O filtro delas me parece mais atraente do que o masculino para refletir sobre o Chile.” 

O filme foi coescrito por Guillermo Calderón, que colaborou com Andrés em Violeta Foi para o Céu e também escreveu os roteiros de O Clube e Ema, de Larraín. Só para constar, Violeta também era interpretada por outra atriz excepcional, Francisca Gavilán. 

O novo filme incorpora jornais, noticiário de TV, imagens de época. Até que ponto a história é real? “O contexto é real, os personagens são fictícios”, esclarece o diretor. Para ele, o filme é sobre negacionismo – pessoas que querem negar o passado, porque lhes convém. “Há toda uma classe dominante que se beneficiou do golpe de Pinochet no Chile. Não é bom para essas pessoas que o passado seja escavado.” É justamente o que Andrés gosta de fazer. 

Ele conta: “As mudanças operadas na Constituição visam impedir que isso ocorra de novo e a história se repita, mas eu tenho a impressão de que ainda há muita coisa a ser explorada sobre os anos Pinochet. As coisas continuam reverberando. Hoje temos clareza ao constatar que a esquerda subestimou Pinochet, que era considerado um general medíocre”. Conta a lenda que Salvador Allende, acuado no Palácio de La Moneda, chamou seu ministro do Exército, crente de que ele era legalista – Pinochet tramara o golpe e assumiria o poder após ordenar o bombardeio do palácio. “Esse fantasma da traição confere à nossa tragédia nacional uma dimensão shakespeariana”, reflete o diretor. 

O repórter muda um pouco o rumo. Quer saber como Andrés viveu o isolamento da pandemia. “Trabalhando – fiz uma minissérie de dez capítulos baseada em Gabriel García Márquez, Notícia de Um Sequestro. Essa, sim, é uma história real, sobre o sequestro de dez jornalistas conhecidos na Colômbia, nos anos 1990. Trabalhei com uma equipe colombiana muito empenhada, foi uma de minhas experiências mais intensas.” 

Notícia deve estrear no começo de 2022. “Foi um desafio muito grande para mim, não apenas por ter sido feito em outro país, mas também porque o livro é uma lição de jornalismo e literatura. Buscar o equivalente no audiovisual me impôs um padrão elevado, que espero ter correspondido.” 

Sua trajetória é das mais bem-sucedidas do cinema latino-americano, não apenas chileno. La Fiebre del Loco integrou as seleções de Veneza e Toronto, Machuca estreou na Quinzena dos Realizadores, em Cannes, La Buena Vida venceu o Goya, o Oscar espanhol, e Violeta Foi para o Céu ganhou o prestigiado World Cinema Award, em Sundance. 

Andrés também dirigiu séries – além de Notícia, Ramona e Ecos del Desierto. “Tenho a maior dificuldade para avaliar meus filmes objetivamente, discutir a qualidade, por exemplo. Deixo isso para vocês (jornalistas e críticos), e o público. Mas confesso que tenho um carinho especial por Ecos del Desierto, sobre a advogada de direitos humanos Carmen Hertz, uma mulher, sempre elas, extraordinária.” Quando o repórter diz que não viu, ele promete enviar o link. “Se você gosta do meu cinema, esse é um filme indispensável.” 

 

Ciclo Cinema e Política conta com três filmes brasileiros

Dos anos 1960, costuma-se dizer que foram transformadores, revolucionários. Nos 70, veio a ressaca, a reação. O ciclo Cinema e Política, que começa nesta quinta, 23, no Petra Belas Artes, resgata filmes considerados clássicos, e não apenas dessas duas décadas. O mais antigo é Outubro, de Sergei M. Eisenstein, de 1927. 

Quem quiser saber o que é a montagem de atração eisensteiniana não dispõe de melhor oportunidade para conferir do que a reconstituição dos dez dias que abalaram o mundo, com a tomada do Palácio de Inverno, na Rússia dos czares, em 1917. 

Outubro foi censurado pelo regime comunista, para eliminar a participação de Trotski nos eventos. A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, venceu o Leão de Ouro de 1966. A guerra anticolonial é reconstituída de forma quase documentária – o bizarro é que, 35 anos depois, e após os ataques do 11 de Setembro, nos EUA, foi esse o filme analisado pelos profissionais do Pentágono para tentar entender a mente dos terroristas. 

Z, de Costa-Gavras, sobre um assassinato político, venceu o Oscar de filme estrangeiro de 1969. Com O Desaparecido, Costa venceu a Palma de Ouro em 1982 – dividida com Yol, de Yilmaz Güney. O golpe militar no Chile pelos olhos de um norte-americano (Jack Lemmon) que procura o filho em Santiago. Sacco e Vanzetti, de Giuliano Montaldo, é sobre a xenofobia na ‘América’. Riccardo Cucciolla foi melhor ator em Cannes, em 1971, e Joan Baez canta o tema. A História Oficial, de Luis Puenzo, primeiro filme argentino a vencer o Oscar, em 1986, é sobre a adoção ilegal de filhos de desaparecidos durante a ditadura militar. Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen, é sobre a importância da arte como instrumento de propaganda do nazismo. 

Entreatos, Peões e Alvorada são contribuições brasileiras ao ciclo. João Moreira Salles filma a campanha de Lula à Presidência em 2002, Eduardo Coutinho revela os companheiros de luta, os peões. Alvorada, de Anna Muylaert e Lô Politi, é sobre a solidão de Dilma Rousseff, durante o impeachment.

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