Araguaya traz à tona episódio da luta armada no Brasil

"Não podemos fazer nada. Esta coisa é tão recente que nem é História." Esta foi a resposta que o diretor Ronaldo Duque contou ter recebido do Ministério da Defesa quando pediu apoio para pesquisas que realizava para, então, escrever a história de Araguaya - Conspiração do Silêncio, seu primeiro filme rodado em 2002 e que agora chega aos cinemas. "Já tinha ouvido os guerrilheiros, a Igreja, os camponeses. Pedi que os arquivos oficiais fossem abertos para ter a versão do Exército sobre o ocorrido." O episódio ilustra perfeitamente o mistério que paira sobre o tal ?ocorrido?, ou seja, a Guerrilha do Araguaia, embate entre o Exército brasileiro e militantes contrários ao regime militar, na década de 70, às margens do Rio Araguaia, no norte do País, então divisa dos Estados de Goiás, Pará e Maranhão e hoje território de Tocantins. O embate, que envolveu padres e camponeses, foi organizado pelo PC do B, tornou-se um dos episódios sangrentos e mais mal explicados da história do País. "Fala-se em cerca de 90 guerrilheiros, mas não se sabe ao certo quantos participaram porque não há informação exata sobre os camponeses", conta Duque. "Sem falar nos mortos. Há 59 desaparecidos. Eu participei da Expedição Antígona, em 2001, e encontramos cinco ossadas. Uma delas, teve as mãos decepadas. Essas ossadas foram parar em um armário em Brasília. Nada foi feito. Sequer um teste de DNA", revolta-se o diretor, que, assim como milhões de brasileiros, nunca ouvira falar na tal guerrilha até aportar, em 1977, em Marabá, no Pará. "Tinha só 24 anos e ido a trabalho, para implantar uma estação de TV. Mas uma grande enchente desabrigou a mim e minha mulher. Fomos parar, com os moradores da região, em um abrigo, um estádio. Foi lá que, à boca pequena, ouvi falar pela primeira vez do Tempo da Guerra, Tempo dos Paulistas. Decidi que contaria essa história. Mas, na época, não se podia jamais falar sobre o assunto", relembra. Duque, que é jornalista, só foi voltar ao assunto em 1982, já em Brasília. "Começaram a surgir notícias e decidi ir para o local da guerrilha. Passei 19 dias colhendo material para um documentário. Mas ninguém tinha coragem de falar diante da câmera." O diretor voltou e concluiu que não tinha em mãos material suficiente para um documentário e resolveu escrever um roteiro de ficção. Mesmo assim, seu filme não perde o tom documental. Por isso, há inserções de depoimentos de quem viveu a guerrilha, como o ex-presidente do PT, José Genoino. "Seria impossível, pois tudo que acontece no filme, os diálogos, é baseado em depoimentos reais. Fiz esta opção porque muitos saíam se perguntando se aquilo havia mesmo acontecido", explica ele, que inseriu um letreiro explicativo sobre o momento histórico. "Mesmo os mais velhos desconhecem o episódio." Nessa sua longa jornada, Duque acumulou mais de cem horas de material. "A Paula Simas, parceira no projeto, vai transformar em documentário. Não vou participar. Para mim, essa história é página virada. Trabalho em outro projeto." Duque virou a página sobre o Araguaia. Já o Brasil, ainda tem de abrir muitas.

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