Arábia Saudita promove 1.º festival de cinema do país

Em meio às notícias sombrias que vêm do Oriente Médio, é encorajador informar sobre um item de progresso cultural: a realização do primeiro festival de cinema da história da Arábia Saudita. Isso ocorre no coração do Islã, onde cinemas não existem oficialmente. Celebrado nas austeras galerias de exposição do Centro de Ciência e Tecnologia de Jeddah, o festival carece de celebridades, tapete vermelho, disparos de flashes e - isso é o mais triste - pipoca. Na noite em que estive lá, numa sexta-feira, metade do saguão estava ocupado pelo projecionista e os docentes do centro, orando. Em respeito a outra sagrada tradição saudita, a sessão começou com 30 minutos de atraso.O festival talvez possa ser descrito como um Sundance nos primórdios: programa de "curtas" de orçamento baixo, corajosos e criativos, com duração entre 5 e 60 minutos. Metade das 16 produções foi filmada por sauditas dentro do reino, enquanto as demais vieram de países árabes do Golfo Pérsico. Várias oferecem uma visão desolada e autocrítica do que as riquezas do petróleo causaram nessas sociedades tradicionais.Em "Mohmalat" (Lixo), vemos uma árabe sedutora, tratada com Botox, e uma servente asiática que cuida de seus pés. O bebê da mulher árabe chora abandonado no berço, enquanto ela troca mensagens eletrônicas com admiradores. Em "Khauf" (Medo), outro drama sombrio, um grupo de rapazes desocupados e entediados acaba envolvido num banho de sangue quando seu veículo utilitário esportivo fica sem gasolina.A mostra tem o aval do Ministério da Cultura e Informação e do príncipe Abdul Majid bin Abdul Aziz, meio-irmão do rei e governador de Meca. É um sinal forte de aprovação oficial, e os organizadores, em respeito às sensibilidades religiosas, tomaram o cuidado de anunciar o evento no país como "exibições visuais", e não como um festival de cinema. Não existem cinemas na Arábia Saudita desde o despertar islâmico dos anos 80 e não está claro se alguma sala poderá ser reaberta.Na verdade, são escassos os sinais de qualquer público cinematográfico. Dividi a sala com apenas cinco espectadores, embora o projecionista tenha falado de um público de 30 pessoas nas sessões anteriores. A controvérsia está na política de entrar nas sessões. Todas são classificadas como ocasiões "familiares", significando que homens sozinhos - ou em grupo - são barrados, mas mulheres podem entrar sem acompanhantes homens. Para entrar, precisei arranjar uma mulher.Não se pode dizer que o evento, embora um marco, tenha incendiado o reino. Quando voltava para casa pela Corniche, estrada costeira de Jeddah, fiquei chocado com o contraste entre a atmosfera rarefeita do evento no Centro de Ciência e as luzes brilhantes dos parques de diversões e cafés de narguilé lotados - a cultura irrefletida e materialista que muitos desses filmes questionam. Tradução de Alexandre MoschellaRobert Lacey, autor de "The Kingdom" (O Reino), está escrevendo a história social da Arábia Saudita nos últimos 30 anos

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