'Aquele Querido Mês de Agosto' é Nashville 'portuga'

Diretor lusitano Miguel Gomes mistura documentário e ficção para registrar festas no interior de Portugal

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

14 de agosto de 2009 | 11h20

Foi "uma chatice muito grande", informa o diretor Miguel Gomes, de "Aquele Querido Mês de Agosto", numa entrevista por telefone com o repórter do Estado. Está em Argamil, na região central de Portugal, distante 50 km de Coimbra. Foi lá que realizou o filme que estreia nesta sexta-feira, 14 - e que recebeu o prêmio da crítica na Mostra do ano passado. "Aquele Querido Mês de Agosto" não se assemelha a nada que o espectador tenha visto antes. O próprio Gomes admite que a "chatice" se revelou um prêmio e lhe permitiu fazer um filme raro.

 

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Trailer de 'Aquele Querido mês de Agosto'

 

O filme deveria ser uma ficção, não propriamente tradicional, mas centrada num triângulo amoroso, formado por pai, filha e primo dela, contra o fundo das festividades de verão dessa região portuguesa. Ocorre em Argamil um famoso festival de música, que Miguel Gomes queria usar como contraponto à sua história. O filme seria, quem sabe, um Nashville português. A poucos dias do início das filmagens, o produtor informou ao diretor que não conseguira o financiamento. A produção estava cancelada, temporariamente, pelo menos. Gomes pediu-lhe pelo menos uma câmera (e uma pequena equipe) para documentar as festas de Argamil.

 

"Não sabia exatamente o que estava querendo, mas achei interessante possuir material documental, mesmo que fosse só como pesquisa, para quando reiniciasse a produção." Gomes montou essas cenas filmadas e reelaborou o roteiro - o "guião", como se diz em Portugal. A história de amor foi jogada para as segunda metade de Mês de Agosto. Por mais importante que tenha sido essa mudança, houve outra e, talvez, se possa colocar, outras. "Como havia filmado o pessoal da região, percebi que o protagonismo teria de ser um deles." O filme foi tomando outra forma. As "pessoas" viraram atores e não apenas elas. O diretor de produção de Mês de Agosto foi escalado para o papel do pai (e virou o tecladista da banda dentro do filme). O assistente do realizador foi escalado para o papel do baixista. "Essa mescla de real e imaginário (NR: Gomes prefere usar essa definição à de contrapor documentário e ficção) não é coisa nova no cinema. Foi praticada por Jean Renoir nos anos 30 e por Pier Pasolini nos 60."

 

O filme ganhou, assim, sua complexidade. Gomes abre uma janela para discutir relações, mas Mês de Agosto também fala de cinema, de imagem e, mais importante, da captação de som. "De todos os meus filmes, este é aquele em que a banda sonora é fundamental, e não apenas por causa das canções." O som não fica a reboque da imagem. Em determinado momento, a discussão sobre ele, entre técnicos e o diretor, define o conceito de Mês de Agosto. É um filme experimental? Gomes prefere dizer que é "pessoal, autoral". E explica que, em Portugal, a pressão comercial não é muito forte e, até por isso, seria absurdo não usar o cinema como instrumento de expressão própria. Como foi mostrar o filme para os não profissionais que o fizeram? "Foi curioso. Eles de lembravam de incidentes da filmagem e me cobravam pelo que não viam na tela. 'Por que não filmou meu pai? Por que não mostra minha casa?' Foi experiência única, que não pode ser transposta para outro filme. O próximo será diferente, prometo."

 

Aquele Querido Mês de Agosto (Portugal/2008, 147 min.) - Romance. Dir. Miguel Gomes. Livre. Cotação: Ótimo

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