Scott Applewhite/AP
Scott Applewhite/AP

Após ser presa quatro vezes, Jane Fonda se torna símbolo da causa ambiental

Atriz de 81 anos prometeu aos fãs protestar por todas as sextas até meados de janeiro; inspiração veio da jovem ativista Greta Thunberg

Cara Buckley/ The New York Times, Agências

05 de novembro de 2019 | 09h00

Na noite anterior à prisão de Jane Fonda, na semana passada, um membro de sua equipe de mídia social perguntou se ela pensava em escrever uma carta da cadeia. “Com o quê?”, disse Fonda. “Vou ficar sem celular.” Ela fez uma pausa e completou: “E sem fraldas geriátricas”. Além disso, continuou Fonda, pensando em voz alta, escrever carta da prisão era coisa para o Martin Luther King. Não era para ela. E, assim, o plano foi descartado.

Fonda, que tem 81 anos, mudou-se para Washington em setembro, para chamar atenção para a urgência da crise climática com protestos no Capitólio, onde, envolta em um casaco vermelho cintilante, ela foi presa todas as sextas-feiras nas últimas quatro semanas, muitas vezes com um ou dois amigos famosos a reboque: Sam Waterston, Ted Danson e, na última sexta, Catherine Keener e Rosanna Arquette. Fonda planeja continuar protestando até meados de janeiro, quando recomeça a produção de sua série da Netflix, Grace e Frankie, e espera completar 82 anos atrás das grades, em 21 de dezembro.

“Na noite da quinta-feira, falei para ela: ‘Você realmente vai me fazer passar por isso’?”, lembrou Keener. “E ela falou: ‘Só se você quiser’”. No dia seguinte, Keener, Arquette e Fonda estavam entre as 46 pessoas que a polícia prendeu, com algemas de plástico, por ocuparem as escadarias do Capitólio.

Keener e Arquette foram multadas e liberadas algumas horas depois, mas Fonda, que tinha uma audiência no tribunal por causa das detenções anteriores, passou a noite na prisão, como esperado. “Uma noite, grande coisa!”, disse Fonda a repórteres minutos antes do início do ato.

Fonda tem muito vigor, mas ser presa nessa idade traz desafios, como manter o equilíbrio com as mãos amarradas na hora de subir na viatura. Na semana passada, houve uma espécie de alívio quando a polícia conduziu os presos – cujos números triplicaram desde que ela começou a protestar – para um ônibus com degraus baixos e mais fácil de embarcar, enquanto os espectadores gritavam: “É isso aí, Jane!”. Fonda disse ao The Washington Post que usara o casaco como colchão e que seus ossos doíam.

Celebridades são alvos fáceis em protestos, e Fonda disse que não havia dúvida de que ela se beneficiava de sua fama e privilégios de pessoa branca, mas que estava lutando com as armas que tinha. Ela tem um carro elétrico, evita plásticos, come menos carne vermelha e reduziu as viagens aéreas – as celebridades geralmente optam por jatos particulares, Fonda prefere os voos comerciais – mas disse que estava protestando pela necessidade de fazer mais. “Para que ser uma celebridade se você não usa essa influência para algo que é tão importante?”, disse ela.

Ela quer inspirar outras pessoas para que elas inundem as ruas e obriguem os parlamentares a forçar as empresas de combustíveis fósseis a deixar debaixo da terra trilhões de dólares em reservas de petróleo. Enquanto esse nobre objetivo não é alcançado, ela pelo menos faz incursões pela cultura pop. Seu recente discurso de agradecimento ao Prêmio Bafta, direto da cadeia, viralizou. E entre as fantasias de Halloween sugeridas pelo Buzzfeed estavam a de se vestir como Fonda e o policial que a prende.

O plano dos protestos e prisões começou a tomar forma durante o Dia do Trabalho, quando ela estava de folga em Big Sur com Keener e Arquette. Fonda vinha lutando contra o que descreveu como um mal-estar físico e depressão profundamente arraigados, os quais atribuiu às notícias climáticas cada vez piores. O plano cresceu durante uma chamada em conferência com Naomi Klein, Annie Leonard, diretora executiva do Greenpeace dos Estados Unidos, e o ativista ambiental Bill McKibben. Eles batizaram os eventos de Fire Drill Fridays (algo como Sextas de Brigada de Incêndio), inspirados pelo brado da ativista climática Greta Thunberg: “Nossa casa está pegando fogo”. O plano pedia que os manifestantes usassem vermelho, e Fonda disse que seu casaco novo, comprado na Neiman Marcus, seria o último item de roupa que compraria na vida, porque não precisa de mais nada. “Acho que ela entendeu bem a mensagem dos jovens ativistas”, escreveu McKibben, por e-mail. 

A manhã de sexta-feira nasceu clara e fria em Washington, e dezenas de manifestantes já se reuniam no porão de uma igreja perto da Suprema Corte, para comer bolo, tomar café e traçar estratégias. Depois de terminar uma entrevista para a NPR, Fonda marchou à frente em direção ao Capitólio, com equipes de filmagem se acotovelando para acompanhar a manifestação. “Vocês estão todos aqui”, disse ela, indicando o enxame de jornalistas e equipes de filmagem. “Então acho que está funcionando”.

Tradução de Renato Prelorentzou

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