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Após 'Parasita', 'Tempo de Caça' é nova crítica à desigualdade na Coreia do Sul

'A Coreia está se tornando uma sociedade onde o dinheiro é a única coisa que conta', afirma o diretor Yoon Sung-hyun ao 'Estado'

Mariane Morisawa, Especial para o Estado

28 de abril de 2020 | 10h00

BERLIM - As sessões do longa sul-coreano Tempo de Caça no último Festival de Berlim foram concorridíssimas. Afinal, Parasita, de Bong Joon Ho, tinha vencido surpreendentemente o Oscar de melhor produção do ano poucas semanas antes. Todo o mundo estava de olho no que vinha da Coreia do Sul. Mas o jovem diretor Yoon Sung-hyun, de 37 anos, não queria saber de comparações. “Nunca liguei meu filme a Parasita”, disse ele, em entrevista ao Estado. “Não sinto nenhuma pressão, porque não estou em posição de me sentir pressionado. Estou começando agora, Boon Jong Ho é uma lenda. Só espero ser bem-recebido”, completou.

O cineasta não pode reclamar: Tempo de Caça foi negociado em vários países, mas, devido à pandemia de covid-19, os produtores acabaram aceitando uma proposta da Netflix, que entrou no ar dia 10 de abril. 

É fato que Tempo de Caça não é o trabalho refinado de um cineasta maduro, mas, na verdade, tem algumas semelhanças, sim, com a obra de Bong Joon Ho, vencedora de quatro Oscar, a começar pela presença do ator Woo-sik Choi, que faz Ki Woo (o filho) em Parasita e Ki-hoon aqui. 

Como em Parasita, o longa também mostra um país com uma enorme desigualdade social, deixando os jovens sem perspectiva. No caso, Ki Woo e seus amigos Jang-ho (Ahn Jae-hong), Sang-soo (Park Jeong-min) e Jun-seok (Lee Je-hoon), que acabou de sair da prisão. A diferença principal é que Parasita se passa aqui e agora, enquanto Tempo de Caça acontece num futuro distópico pós-crise econômica. 

O diretor Yoon Sung-hyun tem uma explicação para a coincidência de temas. “A geração mais jovem usa correntemente uma expressão: ‘Hell Joseon’ (significando uma sociedade infernal e sem esperança para o futuro, com desigualdade, desemprego entre jovens, horas excessivas de trabalho, impossibilidade de ascender socialmente e economicamente)”, disse o cineasta. “E ela mostra como a sociedade coreana está desesperada e com clima pesado, mesmo que na superfície não pareça – tudo está limpo, as pessoas são legais, as ruas estão em boas condições.” Para ele, esse desespero tem uma razão. “É só uma opinião pessoal, mas eu acho que a Coreia está se tornando uma sociedade onde o dinheiro é a única coisa que conta.”

Por isso, ele achou que uma distopia cheia de ação e visual elaborado era a melhor forma de falar sobre o assunto. “Era a maneira de expressar o desespero e a violência que estão na sociedade, mas que, por enquanto, não vieram à tona”, afirmou. “Não sei se o futuro vai ser assim, mas achei que era uma forma de capturar e visualizar as emoções da geração mais jovem. Claro que é exagerado, uma visão metafórica da sociedade de hoje.” O diretor se inspirou em alguns clássicos como Mad Max, Blade Runner – O Caçador de Androides e O Exterminador do Futuro

Tempo de Caça é uma mistura de distopia com filme de golpe, thriller de perseguição à la Encurralado e bromance entre os quatro amigos, que, no começo do filme, se juntam para fazer um roubo e fugir para uma ilha paradisíaca. Só que eles acabam perseguidos por Han (Park Hae-soo), um caçador implacável. As duas partes do filme estão refletidas em seu visual. 

“O começo é mais estiloso, embalado pelo hip hop, porque eles estão sonhando com uma utopia ao planejar o roubo”, disse Yoon Sung-hyun. “Quando começa a perseguição, fica mais sombrio, as emoções afloram. O tiroteio não é filmado como uma cena de ação clássica. Quis mostrar o desespero.” Nesse ponto, o longa praticamente vira um western. 

Para o diretor, Tempo de Caça é um filme de gênero só até a página 2. “Se formos um pouco mais fundo, é uma expressão metafórica do ambiente em que esses quatro garotos estão vivendo e que acaba virando uma perseguição”, disse ele. 

“Quis equilibrar isso com elementos importantes da sociedade coreana, como família e amizade. Mas a sobrevivência também é uma palavra-chave, porque os jovens estão realmente com dificuldades de sobreviver hoje”, completou o jovem diretor sul-coreano. 

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