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Ritzau Scanpix/Liselotte Sabroe via REUTERS
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Após 20 anos do sucesso de ‘O Senhor dos Anéis’, astro Viggo Mortensen dirige o filme ‘Falling’

Longa trata da intolerância em família, ainda inédito no Brasil, estreia nos Estados Unidos no dia 5 de fevereiro, de olho em indicações para o Oscar

Rodrigo Fonseca, Especial para O Estado

15 de janeiro de 2021 | 05h00

Coroado como astro há exatamente 20 anos, quando O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (2001) virou um fenômeno pop, Viggo Mortensen hoje busca ocupar um outro trono – o da condição de autor cinematográfico –, conforme seu primeiro trabalho na direção de longas-metragens, o comovente drama Falling, busca espaço em circuito pelo mundo. Exibido pela primeira vez em janeiro de 2020, em Park City, Utah, no Festival de Sundance, esse estudo sobre intolerância em família, ainda inédito no Brasil, estreia nos Estados Unidos no dia 5 de fevereiro, de olho em indicações para o Oscar, especialmente a de melhor coadjuvante para Lance Henriksen



Aos 80 anos, esse queridinho do universo nerd – celebrizado como o paranormal Frank Black na série Millennium – esbanja um talento imensurável contracenando com (e sob a batuta de) Viggo no papel de Willis, um rancheiro homofóbico e machista obrigado a ir morar com seu filho gay, o piloto John, numa região metropolitana, ao dar sinais de senilidade. Repletos de mágoa e recalque, cerzidos por uma reflexão sobre preconceito institucionalizado, os embates entre Willis e John – vivido por Viggo, que também escreveu o roteiro – eletrizaram o Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, onde o ator (e agora cineasta) nova-iorquino (de descendência dinamarquesa) de 62 anos foi laureado, no fim de setembro, com o Prêmio Honorário Donostia, pelo conjunto de uma carreira pontuada por consagradas atuações.

“Pouco antes de iniciar o projeto Falling, encontrei a diretora Agnès Varda num voo e tive a honra de viajar ao lado dela e de sua filha, Rosalie, que é produtora e uma grande figurinista. Sempre admirei muito Agnès, não só por ela ser a mãe da Nouvelle Vague, mas por ela ter um precioso cuidado de tornar cada plano de um filme uma experiência visual única. Do lado daquela mulher tão incrível, acabei pedindo uma dica, de como dirigir, e ela me instruiu a jamais ser explícito ou exibicionista. O conselho dela foi: ‘Deixa a plateia descobrir o que você quer contar’. Ali eu tive a certeza de estar me preparando para criar uma história sobre perdão, com sutileza e afeto”, disse Viggo ao Estadão em San Sebastián, falando em seu inglês de berço e traduzindo sua própria resposta para o espanhol, língua que aprendeu na juventude, quando viveu entre a Venezuela e a Argentina. “Os pampas me deram boas lembranças, mitologia e literatura”, disse ele, que passa boa parte no tempo na Espanha, ao lado da mulher, a atriz Ariadna Gil.

Poliglota, capaz de se expressar em sete línguas, Viggo escolheu o silêncio como o idioma mais profícuo de seu personagem em Falling. A plateia sabe por meio de uma ofensa de seu pai, Willis, que ele foi alcoólatra e percebe por memórias que sua carreira na aviação vai bem após ele ter largado a bebida. No mais, sabe-se que ele é feliz em seu casamento com o enfermeiro Eric (Terry Chen) e em sua rotina como pai de uma menina adotada, Monica (Gabby Velis), mas que guarda dolorosas recordações do passado com a mãe (Hannah Gross) e a irmã, vivida por Laura Linney. 

“Eu tive a honra de trabalhar com grandes cineastas desde que comecei, nos anos 1980, e, na hora de dirigir, tudo o que aprendei estava lá, ao alcance da minha memória e da minha vivência com meus atores”, contou Viggo, que foi dirigido por dois cariocas: Walter Salles, em Na Estrada (2012), e Vicente Amorim, em Um Homem Bom (2008). “Nem foi necessário consultar nada porque os bons exemplos do passado estavam ali, em mim, como Cronenberg, a quem eu convidei para atuar no longa. Vivemos tanta história juntos.”

Ainda no apogeu de seu prestígio popular como o rei Aragorn, de O Senhor dos Anéis, Viggo foi chamado por David Cronenberg para protagonizar Marcas da Violência (2005), adaptação de uma HQ homônima de John Wagner, indicada para a Palma de Ouro. Ali começou uma parceria que deu ainda mais visibilidade ao autoralíssimo cineasta canadense e rendeu ao ator o papel antológico do motorista (e agente infiltrado) da máfia russa Nikolai em Senhores do Crime (2007). O personagem garantiu a Viggo a primeira de suas três indicações para o Oscar. As duas outras vieram por Capitão Fantástico, em 2017, e por Green Book: O Guia, em 2019. 

 


O respeito por Cronenberg fez com que Viggo o convidasse para viver o proctologista de Willis em Falling, que foi saudado pela crítica no Festival de Toronto, antes de San Sebastián. Lá, o resenhista da revista Variety (a Bíblia do entretenimento) Peter Debrudge ressaltou a fúria no desempenho de Henriksen e classificou essa história de reconciliação entre pai e filho “como uma emotiva história de combate ao patriarcado”. “A paciência de Viggo, seu trato com os atores e sua confiança na inteligência da plateia evocam a fase mais madura da obra de Clint Eastwood, o que é uma boa largada”, escreveu Debrudge.

Em seus 36 anos de cinema, iniciados após uma participação em A Testemunha (1985), de Peter Weir, Viggo foi dirigido nos EUA por talentos como Tony Scott (Maré Vermelha), Ed Harris (Appaloosa) e Brian De Palma (O Pagamento Final), mas também brilhou em colaborações com cineastas da Argentina como Ana Piterbarg (Todos Temos Um Plano) e Lisando Alonso (Jauja). Um de seus melhores trabalhos na década passada, Longe dos Homens (2014), do francês David Oelhoffen, inédito nos cinemas do Brasil, acaba de ser lançado aqui via streaming, na Amazon Prime

A plataforma está correndo a todo vapor para finalizar uma série baseada na literatura tolkieniana, também chamada de O Senhor dos Anéis, mas inspirada em histórias distintas das que Peter Jackson filmou, em 1999, tendo Viggo como Aragorn. O ator tem sido consultado sobre sua expectativa e já deixou evidente sua preocupação de que o projeto, pilotado pelo espanhol J.A. Bayona, não queira ser um genérico de Game of Thrones, deslumbrado com a violência. “Jackson fez muito por mim e está entre os diretores que marcaram a minha trajetória”, disse Viggo. “Trago ele como inspiração.”

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