Após 10 anos, o documentário sobre a Velha Guarda da Portela

'O Mistério do Samba', de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor, traz Marisa Monte entre histórias e samba

Luiz Carlos Merten e Francisco Quinteiro Pires, de O Estado de S. Paulo,

08 Agosto 2025 | 16h54

É uma relação antiga. O diretor Lula Buarque de Hollanda conhece Marisa Monte desde que ela fazia bolsas de couro e cantava em bares. Lula assistiu de camarote à evolução da artista, e até entrou para a família. Afinal, é casado com Letícia Monte, irmã de Marisa. Há tempos que Carolina Jabor e ele vinham trabalhando com a cantora no projeto de O Mistério do Samba. Foram dez anos de pesquisas, entrevistas, filmagens e montagem. No intervalo, Lula dirigiu Casseta e Planeta - A Taça do Mundo É Nossa e um documentário sobre Pierre Verger. Carolina, você pode chamá-la de Carol, tem esse sobrenome ilustre do cinema brasileiro. Filha do diretor Arnaldo Jabor, ela dirige atualmente a minissérie adaptada do ótimo Ó Paí Ó, de Monique Gardenberg com Lázaro Ramos.     Veja também: Ouça trecho de 'O Mundo é Assim'   Ouça trecho de 'Passado de Glória'    Lula Buarque de Hollanda é antropólogo de formação. Tornou-se cineasta. O filme de Marisa - seu documentário (ela também é produtora) sobre a Velha Guarda da Portela - permitiu-lhe voltar um pouco às suas origens. "O que realmente me atraiu foi a possibilidade de acompanhar o cotidiano dessas pessoas simples, mas que criaram música num nível extraordinário." Filha de um grande admirador da azul-e-branco, Marisa Monte aproximou-se da Velha Guarda da Portela ao garimpar o repertório de seu CD Tudo Azul, de 1998. Surgiu ali sua vontade de decifrar o mistério do samba por meio de um documentário que recuperasse portelenses históricos.   No formato do filme, Marisa conduz as entrevistas, entremeadas com rodas de samba na Portela e cenas de estúdio, com a gravação de seu CD. Muitos daqueles portelenses já estavam com idade avançada, e alguns morreram. "É uma coisa que nos preocupava", contou Lula Buarque de Hollanda num encontro com a imprensa brasileira no Hotel Carlton, de Cannes, onde O Mistério do Samba deveria ter encerrado uma das mostras paralelas do maior festival de cinema do mundo, o Cinéma de la Plage. "A história que essas pessoas contam é oral, não está documentada em nenhum lugar. O que estamos fazendo aqui é o sonho de qualquer antropólogo - resgatamos as histórias riquíssimas, que refletem a cultura brasileira, mas que não estavam documentadas em lugar nenhum."   Em Cannes, Marisa Monte diz que quis fazer o documentário como cidadã, porque havia ali na Velha Guarda da Portela uma história muito bonita de como o samba - e a escola - uniram aquelas pessoas, lhes deram uma identidade e todas juntas elas terminaram por influenciar a comunidade. Foram gravadas cerca de 200 horas de entrevistas e apresentações musicais. "Você pode imaginar o que representou reduzir tudo isso para hora e meia de filme", diz Carol Jabor. E ela faz coro com Lula Buarque de Hollanda - "Temos material sobrando para mais de uma minissérie e para encher de extras qualquer DVD." Além de Marisa, estão presentes Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho, além, é claro, dos músicos que compõem a Velha Guarda.   Casemiro da Cuíca, Monarco, as ‘tias’ Doca, Eunice e Surica, além de Jair do Cavaquinho e Seu Argemiro - os dois últimos morreram antes da finalização do documentário que estréia sexta-feira em seis capitais (incluindo São Paulo), mais Santos, mas o resgate está feito e agora existe este belo trabalho que vai perpetuar sua importância para a história do samba. O Mistério ganhou parcerias - com a Natura e a Conspiração Filmes. Já que o filme não pôde estrear em Cannes, como previsto, foi ‘uma bênção dos céus’ - como define o produtor Leonardo Monteiro de Barros - que terminasse estreando no Brasil, no Festival de Paulínia. Depois disso, o filme já esteve em Gramado. Em todos esses lugares, a fala dos sambistas da Velha Guarda - e a sua música - tem deixado muitos espectadores emocionados. Sendo um filme sobre uma escola como a Portela, pode surpreender que não tenha nenhuma imagem do sambódromo, do Rio. "É um filme sobre pessoas, sobre compositores geniais que fazem samba com sentimento. É um filme de coração. Não precisa de avenida", resume Lula Buarque de Hollanda.     Melodias sofisticadas e letras líricas   Certa feita, na zona sul carioca, apontaram uma garrafa de cerveja para Argemiro Patrocínio e pediram-lhe para fazer um samba. "Não posso, eu não sinto nada por ela", respondeu o portelense, morto em 2003.   Paulinho da Viola diz que o samba da Velha Guarda da Portela não tem explicação. Está certo. Mas pode-se dizer que o mistério das canções da Velha Guarda se esconde na simplicidade de uma arte amadora. Aqueles sambistas de Oswaldo Cruz, na zona norte, são amadores no bom sentido da palavra.   As suas mãos - de pintor, pedreiro, feirante, etc. - que tecem o rude trabalho são as mesmas de uma arte pura e límpida. Com seu conjunto de costumes, esses sambistas são um contraste ao mundo atual, ao preservarem valores fundamentais. Respeito ao passado; senso de coletividade; e humildade diante da perda - do amor e da vida. O tempo passa para se transfigurar em ouro.   Esses valores, difundidos por Paulo da Portela, um dos fundadores da escola, em 1923, se traduzem na melodia sofisticada e nas letras líricas. Organizador dos festejos de carnaval, Paulo da Portela, o professor, era educado e polido. Não por acaso, o elegante Paulinho da Viola é considerado o seu sucessor. Não é à toa também que a primeira parte de um samba, feita por um dos integrantes, é completada por outro: eles se identificam com a idéia nascida no sentimento do companheiro.   Como está no livro A Velha Guarda da Portela, de João Baptista M. Vargens e Carlos Monte, há uma unanimidade em torno da rítmica singular da Portela. Nas letras, que preservam lembranças rurais (a escola deve seu nome ao português Miguel Gonçalves Portela), percebe-se a reverência à natureza, vista como exemplo de perfeição. (O arranjo de Nascer e Florescer, de Manacéa, no CD Tudo Azul, traz o canto de passarinhos).   Os ciclos da natureza - o nascer, o morrer, o renascer - ensinam a aceitar o fluxo incessante das coisas. A dor dessa consciência resulta na arte da sabedoria. Meu Mundo É Assim, de Alvaiade, diz: "O dia se renova todo dia/ Eu envelheço cada dia e cada mês/ O mundo passa por mim todos os dias/ Enquanto eu passo pelo mundo uma vez." Insinua resignação e esperança. Pois é mais ou menos esse o mistério da Velha Guarda da Portela, é o lirismo da resignação criadora, ainda que pareça paradoxal.

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