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"Apocalypse Now Redux"

Houve grandes filmes de guerra: Sem Novidade no Front, de Lewis Milestone, Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick, e King and Country, que passou na TV como Pelo Rei e pela Pátria, de Joseph Losey. Nunca houve um filme de guerra tão grandioso quanto Apocalypse Now. Desde que o filme dividiu a Palma de Ouro de 1979 com O Tambor, de Volker Schlondorff, há um culto à transposição que o diretor Francis Ford Coppola fez de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, para a Guerra do Vietnã. Depois de Coppola, ninguém mais ouve Wagner sem associar A Cavalgada das Walquírias à destruição da aldeia vietnamita com napalm, uma das cenas mais impressionantes do épico de Coppola. Apocalypse Now está de volta na versão do diretor, que incorpora mais 53 minutos à versão que circulou nos cinemas, há mais de 20 anos. Chama-se agora Apocalypse Now Redux.Está mais impressionante ainda, mas nunca será uma unanimidade. A ópera antimilitarista de Coppola termina estetizando o horror que denuncia. Aquelas imagens de incêndio na selva, o surfe nas águas revoltas do mar revelam uma ambivalência que impõe reservas sem desmerecer o valor do filme. Apocalypse Now, agora Redux, é grande - na duração, no excesso, na audácia cênica e temática. Coppola conseguiu colocar na tela o clima de derrocada moral de uma sociedade em crise. Foi o que levou à derrota dos EUA naquela guerra. O próprio Coppola viveu seu apocalipse durante as filmagens nas Filipinas.A propósito, existem produtos associados ao filme que você pode encontrar nas livrarias e nas locadoras. Elaine Showalter revela detalhes chocantes dos bastidores da produção em seu livro Anarquia Sexual, Sexo e Cultura no Fin-de-Siècle, da Editora Rocco. E há, imprescindível, o vídeo de O Apocalipse de um Cineasta, o documentário que Fax Bahr e George Hickenlooper realizaram a partir do material colhido pela própria mulher de Coppola, Eleanor, durante aquele período particularmente tumultuado que o marido e ela viveram na selva filipina.Pouca gente se lembra disso, mas O Coração das Trevas era o filme que Orson Welles pretendia realizar, ao ser contratado - com carta branca - para estrear em Hollywood. Houve um desvio de rota e ele fez Cidadão Kane, mas o projeto de adaptação chegou a ser desenvolvido. Sabe-se, por exemplo, que Welles, como muitos críticos, considerava Marlow um duplo de Kurtz e pretendia representar os dois papéis. Marlow, que no filme virou Willard, é o personagem interpretado por Martin Sheen. Marlon Brando faz Kurtz, cuja história está no centro da narrativa. No filme como no livro, o espectador só vai conhecendo essa história por fragmentos. Marlow/Willard sobe o rio à procura de Kurtz e, com isso, revela a própria natureza de cumplicidade com a mentira, a selvageria e a ganância, como diz Elaine Showalter.Kurtz é um caso exemplar. No filme, ele é um oficial brilhante que enlouqueceu e criou um exército particular no Camboja. Kurtz precisa ser destruído - é a missão de Willard - porque suas atrocidades maculam a honra dos EUA. Mas Kurtz, em sua loucura, representa a lucidez para Coppola. Nos 53 minutos integrados à narrativa, há uma cena longa numa fazenda pertencente a antigos colonizadores franceses da Indochina. Ela estabelece um modelo de discussão política e ideológica que dá mais consistência a Apocalypse Now Redux. Mas o momento mais poderoso do filme já existia na versão antiga. Ficou mais contundente depois do ataque terrorista do dia 11 de setembro. É a cena em que Brando, como Kurtz, conta a história de como os vietcongues cortaram o braço de todas as criancinhas que as forças especiais norte-americanas haviam inoculado contra a paralisia infantil. Kurtz afirma então que entendeu a deliberação e a tenacidade dos vietnamitas. Diz que a única maneira de resistir ao horror moral é entregar-se a ele, convertendo-o numa espécie de ´aliado´. Essa lógica louca e intolerável para os senhores da guerra é que leva o Pentágono a designar Willard para matar Kurtz. Ele precisa morrer para que a guerra retome seu curso, sua ´normalidade´. É uma lucidez de estarrecer - Paulo Francis dizia que Coppola foi mais radical do que Conrad - e que leva à célebre frase pronunciada por Brando/Kurtz: O horror, o horror.O livro de Conrad é tanto uma denúncia do imperialismo quanto uma alegoria sobre os vínculos entre os homens e sua fuga das mulheres. Não por acaso, O Coração das Trevas é considerado o grande romance masculino do século 19. A narrativa de Marlow no livro exclui as mulheres do conhecimento da verdade. É um dos pontos em que Coppola se distancia do livro. Isso não aparecia tanto na versão antiga, com o episódio das playmates - aqui ampliado. Aparece mais com a personagem da francesa interpretada por Aurore Clément e que quebra a identificação de Marlow com Kurtz no livro, quando o primeiro vê o desenho do segundo, representando a mulher de olhos vendados que conduz a tocha acesa (uma luz da qual ela não consegue se beneficiar).Ao documentar o apocalipse que Coppola viveu durante a filmagem, Eleanor sugeriu que, de alguma forma, ele viveu uma odisséia psíquica pessoal por identificar-se com a megalomania de Kurtz. O relato mais impressionante é o de Elaine Showalter. Em troca de facilidades de produção, Coppola injetou dinheiro na ditadura de Ferdinand Marcus e, dessa maneira, reproduziu na vida algumas das questões imperialistas colocadas pelo texto original. O mais cruel é o relato que ela faz do desenvolvimento de um próspero tráfico de meninos e meninas para prostituição, para atender às necessidades dos homo e dos heterossexuais da equipe. Isso, sim, é o horror, o horror.Serviço - Apocalypse Now Redux. Ação. Direção de Francis Ford Coppola. Duração: 203 minutos. EUA/2001.16 anos

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