Apesar de posar de moderninho, 'Os Homens São de Marte...' é ultraconservador

Mônica Martelli é boa atriz cômica, mas o texto não a ajuda na maior parte do tempo

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2014 | 03h00

Depois de quase dez anos de sucesso no teatro, a peça de Mônica Martelli Os Homens São de Marte... E É para Lá que Eu Vou chega às telas, sob a direção de Marcus Baldini, mesmo diretor de Bruna Surfistinha.

A própria Mônica faz Fernanda, uma mulher bem-sucedida nos negócios, mas infeliz no amor. Bem, esse é apenas um dos clichês de um filme repleto deles. Fernanda buscará seu parceiro entre homens de diferentes personalidades, idades e tipos físicos. Percorrendo o caminho traçado entre o ricaço cafajeste e o alemão natureba, incluindo o arquiteto de mentalidade aberta, a infeliz Fernanda prosseguirá em sua odisseia amorosa rumo ao idealizado par perfeito.

 

 

O filme tem lá seus bons momentos – quer dizer, momentos que, devidamente suspenso o senso crítico, poderão provocar risos. Em especial porque Mônica é mesmo boa atriz (cômica), tem o timing da coisa e, às vezes, apesar dos limites da proposta, é mesmo engraçada. É realmente pena que o texto não a ajude na maior parte do tempo.

Mas, vendo mais de perto, Os Homens São de Marte... revela de fato a que veio. E, mostrando, notamos que não poderia apresentar muito mais do que já o faz. É um tipo de comédia moderninha, que ostenta certas ousadias, mas que evita chocar quem quer que seja. Trabalha nos estritos limites na moral média e não destoa. Não força fronteiras – e aqui não se está referindo a delimitações estéticas, mas simplesmente temáticas, e morais.

Hoje, qualquer dona de casa de classe média aceita que uma mulher desimpedida possa (e deva) mesmo ter relacionamentos múltiplos e até encarar algumas aventuras sexuais um tanto fora das convenções. Desde que caia fora no momento oportuno, como faz a esperta Fernanda quando se envolve com um fetichista ou quando tem de encarar a opção de continuar no mercado de trabalho ou jogar tudo para cima e passar a viver na praia.

Nesse ponto, aliás, ela se revela bastante convencional em seu papel de mulher "moderna". Não pensa em abrir mão do corre-corre na cidade, da situação de online permanente, do doce estresse, etc. É a mulher contemporânea, combatendo na selva do mercado de igual para igual, e às vezes superando seu antigo rival ao imitar-lhe as piores características. Já tivemos isso nas telas em De Pernas Pro Ar 1 e 2. Por que não continuar na mesma batida, já que vem dando certo na bilheteria e ganha até o aplauso de críticos complacentes?

Há outros pontos dignos de nota. Numa época em que a afirmação da diversidade sexual bate nas telas com força (vide Azul É a Cor mais Quente ou O Estranho do Lago), Os Homens São de Marte... retrocede às comédias dos anos 1950, ou aos programas de TV, e põe em cena um gay caricato, vivido por Paulo Gustavo (de Minha Mãe É uma Peça). Cheio de trejeitos, ele é parceiro profissional e confidente de Fernanda. Não poderia haver personagem mais estereotipado e previsível, mas parece que faz parte do receituário obrigatório da comédia brasileira contemporânea.

Do ponto de vista cinematográfico, não se poderia exigir grandes novidades num produto destinado ao grande público. Num trabalho sem rupturas temáticas, e sem qualquer ousadia maior nos diálogos e nas situações retratadas, a narrativa vai no mesmo ritmo e se conduz sem grandes trancos. Flui, sem brilho, mas também sem amadorismos que se encontram em produtos similares.

Por fim, cabe reconhecer que sob a capa moderninha, o filme é ultraconservador, com sua idealização do casamento como meta de toda mulher.

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