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Apesar de oscilante, longa ‘A Corte’ conta com roteiro muito bem escrito

Grande astro do filme, Fabrice Luchini mantém a dubiedade do seu personagem; veja trailer

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2016 | 19h43

O grande magistrado pegou uma gripe, mas não pode seguir a receita clássica - vitamina C e cama. O juiz Michel Racine (Fabrice Luchini) não pode se dar a esse luxo. Tem um caso difícil pela frente: um pai, acusado de matar a pontapés a própria filha, um bebê de sete meses. Ele confessou, mas depois se arrependeu e declara-se inocente, embora se recuse a fornecer provas em seu favor. Um caso misterioso. 

Fabrice Luchini, no papel de Presidente do Tribunal de Saint-Omer (Pas de Calais), é conhecido ator de nuances, voz afetada e interpretações sutis. O diretor Christian Vincent coloca seu personagem diante de um duplo desafio. Primeiro, o julgamento em si, um infanticídio capaz de comover a opinião pública. Segundo, porque Racine descobre, em meio ao corpo de jurados, uma certa Ditte Lorensen-Coteret (Sidse Babett Kundsen), médica dinamarquesa por quem esteve apaixonado seis anos antes, quando ela o atendeu em um hospital. Ele a “acusa” de tê-lo tratado carinhosamente, o que na França não é usual. “Pode ser normal na Dinamarca, não aqui”, diz, falsamente indignado.

O desafio de Vincent é equilibrar esse filme sintético sobre duas tramas paralelas, o caso jurídico de repercussão e o affair amoroso do juiz. E fazê-lo sem que uma das linhas narrativas esvazie a outra.

Não se pode dizer que consiga sustentar a ambas o tempo todo. O filme é, de fato, oscilante e o desenvolvimento de um polo se faz às expensas de outro.

Curiosamente, essa falha de estrutura não chega a abalá-lo muito, e o interesse se mantém. Em especial porque se vale de um foco curioso, a fragilidade pessoal de um magistrado tido como durão e teimoso. Os próprios colegas se referem a ele como “juiz de dois dígitos”, porque suas penas são sempre superiores a dez anos de prisão para os réus.

Se esse coração de pedra amolece ao fitar os belos olhos da médica, o filme não para por aí e se mete a discutir questões das mais importantes. A mais espinhosa de todas: como condenar alguém se for impossível chegar à verdade dos fatos? Ninguém testemunhou a morte do bebê. O acusado, que confessara num primeiro momento, agora nega e, contra ele, só existem indícios pouco conclusivos. “Vocês não vão conhecer a verdade”, diz Racine a seus jurados. “A finalidade da justiça não é estabelecer a verdade, mas assegurar o cumprimento da lei.” Adverte ainda que, qualquer que seja a sentença, absolvição ou condenação, a parte contrária irá recorrer e novo julgamento terá lugar em dois ou três anos. Racine é mais que um juiz, é um filósofo do Direito. E um realista, ciente de suas limitações cognitivas. Poderia, como Nietzsche, dizer que a verdade mora no fundo de um poço e não a alcançamos jamais.

Se o diálogo do juiz com seus jurados é brilhante, também o são os encontros dos jurados entre eles. Após a sessão inicial no tribunal, saem para almoçar e se conhecer melhor. Há um sentido meio cômico que perpassa essas sequência. Um deles flerta com uma jurada cinquentona, enquanto duas mulheres e um homem, todos de origem árabe, discutem, em seu idioma, uma questão paralela, para indignação de outros membros do júri. A França multicultural também se faz presente nas questões judiciárias.

Grande astro do filme, Luchini mantém a dubiedade do seu personagem enquanto tenta equilibrar imparcialidade profissional com as exigências do coração. Belo ator, às vezes força a mão com seu virtuosismo interpretativo, mas aqui mantém controle sobre a técnica, temperando-a com a emoção.

Já a escritura cinematográfica de Vincent revela-se clássica. Sólida e sem invenções, porém com movimentos de câmera muito elegantes, ampara-se num roteiro muito bem escrito, premiado no 

 

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