'Apenas Uma Vez' ganhou o Oscar de melhor canção

São dez canções e uma história tênue o que não impede que Apenas Uma Vez possua uma narrativa em três atos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2018 | 14h59

John Carney é um diretor irlandês talentoso, cujos filmes ganham elogios dos críticos, mas ainda não estabeleceram sua reputação, talvez porque ele goste de mudar (de gêneros) e ainda não tenha definido um estilo. À Beira da Loucura (On the Edge) foi elogiado pelo elenco - Cillian Murphy e Stephen Rea - e também por sua pesquisa sonora, considerada refinada pelos críticos. Apenas Uma Vez, que estreou nesta sexta-feira, 18, reinventa agora o musical - e o som, logicamente, continua fazendo partes das pesquisas do diretor, apesar da modéstia de recursos da produção.  Trailer de Apenas Uma Vez   Apenas Uma Vez ganhou o Oscar de canção, em fevereiro, concorrendo com pesos mais pesados, mas a academia de Hollywood deixou-se seduzir por Fallin’ Slowly. A própria dupla de protagonistas, Glen Hansard - vocalista da banda Frames - e Marketa Irglova, subiu ao palco do Kodak Theatre para apresentar a canção. No filme, ele é um cantor de rua, inseguro quanto ao valor do próprio trabalho, que se envolve com esta jovem mãe que também não tem muita certeza de conseguir sobreviver na cidade grande (Dublin). São almas gêmeas, que, naturalmente, se fortalecem um ao outro. Saíram, metaforicamente, das ruas para a consagração do Oscar - cantando para uma platéia presumível de 1 bilhão de telespectadores em todo o mundo. Carney já contou que seu filme começou a nascer em 2005, quando ele assistia a um concerto do Frames em Dublin. Cineasta com formação de música, ele sempre quis realizar um musical, mas não no sentido tradicional, hollywoodiano. Queria uma coisa muito mais simples - um filme que usasse uma série de canções para contar uma história de amor e, mais do que isso, no qual as canções fossem a história. Em parceria com Glen Hansard, que já havia sido ator de Alan Parker em The Commitments - Loucos pela Fama, ele desenvolveu a história desse artista de rua de Dublin, alguém que, por não ter o que arriscar, também não tem o que perder. São dez canções e uma história tênue, ou simples, o que não impede que Apenas Uma Vez possua uma narrativa em três atos, com direito a exposição dos personagens e da trama, desenvolvimento dos conflitos e desfecho, ou conclusão. Apenas, e nisso vai a riqueza, se não exatamente a originalidade do filme, a chave do entendimento, da própria estrutura, é fornecida pelas próprias canções. Preste atenção, por exemplo, na letra de Caindo Lentamente (Fallin’ Slowly). "Eu não a conheço/ mas quero você/ainda mais por isso/ O significado das palavras me escapa/ e elas sempre me enganam/ Não consigo reagir/ e os jogos que nunca são/ mais do que jogos/ vão chegar ao fim." Pode-se comparar um musical como o de John Carney com Falsa Loura, de Carlos Reichenbach, que também estreou ontem. É o melhor filme do diretor em anos, e Reichenbach usa a história de uma operária que vive perigosamente conflitos de amor (e trabalho) para refletir sobre o feminino, além de incorporar o brega na sua busca por um cinema autenticamente popular. O filme de Reichenbach é complexo. Apenas Uma Vez é singelo, ou parece singelo. Na verdade, é mais rico do que parece. Você vai gostar ainda mais dele por isso. Apenas Uma Vez (Once, Irlanda/2006, 85 min.) - Drama. Direção de John Carney. 12 anos. Cotação: Bom.

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