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'Apenas mais uma noite' é contracorrente ao estilo de Hollywood

Diretora Massy Tadjedin comenta a rececptividade do seu filme em São Paulo

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo,

03 de julho de 2012 | 18h08

SÃO PAULO - Massy Tadjedin não tem, nem remotamente, a pretensão de se comparar a Ingmar Bergman, mas ela revela que se inspirou nas lições de amor do autor sueco ao escrever Apenas Uma Noite. "Ele escreveu coisas complexas, sobre filosofia e religião, mas também simples, sobre homens e mulheres abrindo seus corações." O repórter entende o que ela diz. Comenta que está acabando em São Paulo uma grande retrospectiva que trouxe a íntegra da obra de Bergman. Todo Bergman!

O próprio repórter comenta que teve oportunidade de assistir a um dos raros filmes do cineasta que nunca tinha visto - Mônica e o Desejo, e que pôde comentá-lo com o crítico, professor e historiador francês Alain Bergala, que veio participar de um evento no País (e escreveu um volume inteiro só sobre aquele filme). Massy não identifica a obra direito. O repórter insiste. The Summer of Monica. "Oh, God! É um dos meus favoritos! E com aquela atriz maravilhosa..." Harriet Andersson.

Os europeus - Bergman, o cinema francês - atraem Massy Tadjedin. Roteirista antes de virar diretora, ela diz que Apenas Uma Noite não é autobiográfico, mas admite que colocou muito de si nas personagens de Keira Knightley e Eva Mendes. Entusiasma-se de saber que seu filme - pequeno - adquire reputação de cult em São Paulo. Está em cartaz há semanas e, mesmo não sendo uma unanimidade, atrai bom público, suscita discussões. "O filme foi bem recebido em Toronto", diz a diretora. "Tive boas críticas, salas cheias, mas, nos EUA, um filme sobre relacionamentos, muito falado e sem efeitos, está na contracorrente. É duro conseguir salas, para um lançamento decente."

Ela brinca - diz que vai se mudar para São Paulo. O repórter provoca. É raro um filme norte-americano que não se preocupe em ser politicamente correto. Apenas Uma Noite fala de dois casais. Keira é casada com Sam Wortinghton, que trabalha com Eva Mendes. Participam de um evento social, Keira desconfia da fidelidade do marido (com a outra) e, quando ele parte numa viagem de trabalho, ela encontra um antigo amante, Guillaume Canet. Sente-se tentada a retomar a relação. A noite, para ambas as partes, é feita de desejo e tentação.

A diretora e roteirista centra-se nas ligações heteros, não apresenta o amigo gay (que, em geral, em produções do tipo, fornece o alívio cômico). Ninguém é, moralisticamente, punido. "Não queria abrir o quadro só para ser correta. O que me interessa são essas pessoas. Movimento-me num meio sofisticado e mundano, onde essas coisas ocorrem. Não quero dizer que todo mundo esteja traindo todo mundo, mas seria hipócrita não admitir que a tentação está em toda parte. Vivemos num mundo de imagem, consumista. Queria colocar isso na tela." Apenas Uma Noite é bem escrito e interpretado, lindamente filmado. O loft que Keira e Wortinghton habitam é um primor de elegância cenográfica.

Elenco. "Não queria insistir no aspecto de que essas pessoas são bem-sucedidas profissionalmente, mas queria que seu ambiente refletisse isso", ela admite. Keira era uma atriz com quem sempre quis trabalhar. "Embora tenha feito muitos filmes de época, ela é muito moderna. E Keira consegue ser intensa sem ser histérica. Sei que vou ser criticada, mas ela é ‘normal’, no sentido de ser gente como a gente." O repórter lembra que, de perto, ninguém é normal - "Sei disso, mas a verdade é que, na sociedade da imagem, você não precisa ser uma coisa. Tem de parecer. Não digo que aprovo, sou crítica", Massy destaca.

É o primeiro papel de Wortinghton sem os figurinos e formas exóticas que assumiu em Avatar e Terminator - Ressurreição. "Comecei a montar o elenco a partir dele." O repórter informa que, no Brasil, muita gente o achou inexpressivo. "Sam? Ele é minimalista, isso sim." Guillaume Canet, o sr. Marion Cotillard (na vida), ficou no imaginário de Massy quando ela foi ver um filme dele (como diretor), que o próprio Canet apresentou em Los Angeles. Massy acha graça de que o repórter o tenha achado parecido com Patrick Dempsey. "Jura? Cheguei a pensar em fazer o filme com Patrick, mas depois achei que seria melhor se o personagem fosse estrangeiro." Quanto a Eva, é a própria imagem da sensualidade. "Absolutly", Massy concorda.

Falar de casais sem medo de ser banal nem de retomar velhas conversas. Inovar sutilmente. O desfecho, em aberto, é de mestre. "A derradeira cena continuava, tinha um diálogo, mas na montagem percebi que era supérfluo." A cena da piscina tem um erro de continuidade - "Não, é intencional. Assim como suprimi a fala no fim, quis criar um estranhamento. São, talvez, as cenas mais importantes do filme." Ao contrário de François Truffaut, cujos personagens vivem o amor (e a paixão) entre o gesto impulsivo e a palavra consciente, a fala, em Massy Tadjedin, produz mal-entendidos. Apenas Uma Noite é sobre o que as pessoas secretam. Não dizem. Mas ela sugere.

APENAS UMA NOITE

Gênero: Romance (EUA-França/ 2010, 90 min.). Classificação: 12 anos.

 
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