Aos olhos de Cecilia Roth

Cecilia Roth filmava na Guatemala quando recebeu o roteiro de La Hija del Caníbal, o filme que estréia hoje no Brasil com o título de Aos Olhos de Uma Mulher. "Comecei a ler e não parei mais. Passei a noite em claro, rindo", conta a atriz de Pedro Almodóvar e Marcelo Pyñeiro, que esteve em São Paulo no começo da semana para participar do lançamento do filme do mexicano Antonio Serrano, distribuído internacionalmente pela Fox Searchlight, a divisão da Fox para os filmes mais especiais. O que a atraiou especialmente no roteiro? "Bueno - ela usa uma expressão bem castelhana -, a história é muito interessante, trata de descobertas e eu sou uma mulher sempre predisposta às descobertas." Además - usa outro termo castelhano - "o papel me permitia desenvolver a minha veia cômica; fazia tempo que não filmava comédias e achei que seria bom para mim, como atriz, mudar um pouco o registro."Se o entusiasmo dela pelo papel foi imediato, a concretização do projeto foi mais difícil e o diretor Serrano teve de retardar a filmagem por mais de um ano - quase dois -, porque Cecilia já havia assumido outros compromissos. Há quatro que ela filma ininterruptamente. Está sentindo a necessidade de diminuir o ritmo, parar um pouco, "darme un tiempo a mí", revela. Logo no começo de Aos Olhos de Uma Mulher, a protagonista, Lucía, está no aeroporto, pronta para partir, quando o marido desaparece. Lucía diz que estava se preparando para realizar um sonho: viajar para o Brasil, para passar o réveillon no Rio, com um monte de biquínis na bagagem. O Brasil é um sonho para Cecilia? "Se é um sonho, posso dizer que o tenho realizado com freqüência. Venho muito ao Brasil. Ao Rio, à Bahia, a São Paulo." Ama a paisagem, a música.Caetano Veloso. Conheceu o cantor e compositor por meio de Pedro Almodóvar. Não sabia que dança O Calhambeque, na trilha de Kamchatka, o belo filme de Marcelo Pyñeiro, ao som de Caetano. "Havia um problema de direitos e, quando filmamos, foi ao som do próprio Roberto Carlos. Fiquei com a voz dele nos ouvidos." Dançar a MPB é uma experiência muito gostosa, sensual. Ama o filme de Marcelo Pyñeiro. "É o melhor trabalho dele, o mais intimista e intenso." Seu papel é bastante diferente do que cria agora em Aos Olhos de Uma Mulher. Vale comentar o título: no original, é A Filha do Canibal, porque o pai de Lucía, a personagem de Cecilia, vive contando como teve de comer um homem para sobreviver, após um acidente. Não é verdade e, afinal, o que é verdade, o que é mentira?É a pergunta contida em Aos Olhos de Uma Mulher, que vê o mundo pelos olhos de Lucía, fazendo as descobertas desta mulher que pensa que o marido fugiu com outra, mas ele foi seqüestrado e, depois, não é um seqüestro, é só um plano para encobrir uma trama de desvio de verbas do governo. A polícia e os políticos estão envolvidos. Nada é o que parece ser em Aos Olhos de Uma Mulher, mas tudo é, também. É como se o diretor estivesse dizendo que as pessoas são múltiplas, nunca conseguimos conhecer realmente alguém. Lucía muda de identidade a toda hora. Troca de cor cabelo, de roupa e essas mudanças têm a ver com o que ocorre interiormente com sua personagem. "Foi divertido fazer", confessa. Qual é a mulher que não pensa secretamente em mudar de cara, de aparência?Não vê dificuldade em mudar de um papel intimista como o de Kamchatka para outro mais extrovertido, como este. É tudo um trabalho de interação com os diretores. Defende Marcelo Pyñeiro e Pedro Almodóvar com veemência. Diz que não sabe de onde vem a fama de "peleador" de Pedrito, com quem fez especialmente Tudo sobre Minha Mãe. "Todos dizem que ele é brigão e temperamental. É uma pessoa encantadora e um artista exigente. Nada nos filmes dele é produto do acaso. Qualquer objeto em cena, a luz, a maquiagem, as cores. Controla tudo." Também revela que não há improvisação no cinema de Almodóvar. "Podemos fazer algumas mudanças no diálogo escrito, na fase de leitura e preparação, mas uma vez decidido, nada é alterado. Ele é muito rigoroso nisto."A principal descoberta que Lucía faz é a de que não é preciso trocar de cenário para mudar. O que tem de mudar é o olhar sobre as coisas, daí a propriedade do título brasileiro. Nesta de que ninguém conhece, verdadeiramente ninguém, ela se envolve com um vizinho idoso e outro garoto. Descobre coisas sobre o velho, vai para a cama com o garoto. A princípio reluta. Diz que ele tem idade para ser seu filho. Ele grita: "Mas não sou seu filho." O final é um happy end de pessoas sozinhas. "Acho que a minha principal descoberta fazendo Lucía é a de que pode existir liberdade na solidão", avalia.Gostaria de filmar no Brasil. Recebeu um roteiro, que não sabe se vai aceitar. Teria de falar português. É difícil, mas não impossível. É argentina e interpreta uma mexicana em Aos Olhos de Uma Mulher. "Há uma sutil diferença de sotaque que vocês (os brasileiros) talvez não percebam." Lamenta que as cinematografias latino-americanas estejam tão distantes uma das outras, por isto mesmo aplaude com entusiasmo iniciativas como a empresa brasileira Total Entertainment, parceira da mexicana Total, que produziu Aos Olhos de Uma Mulher. A Total quer intermediar o intercâmbio cinematográfico entre os dois países. "Precisamos conhecer-nos mais", diz Cecilia.Fala com entusiasmo no novo cinema argentino, mas na hora de citar nomes fica só em Marcelo Pyñeiro e Lucrécia Martel, diretora do admirável La Ciénaga, premiado em Berlim, há dois anos. Gostaria de filmar com Lucrécia? "Ela me ligou quando estava para fazer La Ciénaga. Disse que tinha um papel para mim e marcou um encontro. Bateu à minha porta e, quando abri, disse apenas: ?Não dá?. Era jovem para o papel." Sorte de Graciela Borges, estrela argentina que ficou com o papel da esposa bêbada e angustiada que poderia ter sido de Cecilia. A simples menção a Graciela evoca o nome mítico de Leopoldo Torre-Nilsson, o diretor que fez a glória do cinema argentino nos anos 1950 e 60, com seus dramas bergmanianos que o aproximavam de um Walter Hugo Khouri no Brasil. Cecilia define Torre-Nilsson: "Estupendo". Mas sobram também elogios para outro nome mítico, Leonardo Favio. "Puseram a nossa cara na tela", diz. Até hoje gosta de ver os filmes dele, em vídeos, cinematecas ou na TV. Poucos espectadores brasileiros podem participar deste entusiasmo, os muito jovens ainda menos. É o que diz Cecilia Roth: a cultura cinematográfica circula pouco entre nossos países. Conhecemos Hollywood e desconhecemos a Argentina, nossa vizinha. Ela gostaria de filmar em Hollywood? "Não, o tipo de cinema que gosto de fazer não tem nada a ver com o que eles fazem", resume.

Agencia Estado,

18 de julho de 2003 | 09h55

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.