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Aos 91 anos, Alain Resnais leva tragicomédia a Berlim

Cineasta trata da morte com leveza no filme 'Amar, Beber e Cantar'

Luiz Carlos Merten, Enviado Especial / Berlim

10 de fevereiro de 2014 | 20h29

Depois de Smoking/Not Smoking e Coeurs, de 1993 e 2006, Alain Resnais recorre pela terceira vez ao dramaturgo inglês Alan Ayckbourn, e o faz com graça renovada, mas Amar, Beber e Cantar, exibido domingo à noite para a imprensa e ontem em sessão oficial, não acrescenta nada particularmente brilhante à trajetória do decano dos grandes diretores franceses. Aos 91 anos, e com a saúde fragilizada, Resnais está virando o Manoel de Oliveira francês. Filmar é a sua droga, e o mantém vivo. Ele não veio a Berlim para poupar energia, mas também porque graças a seu incansável produtor, Jean-Louis Livi, começa a trabalhar no planejamento do próximo filme.

É curioso como, numa época em que a crítica gasta tempo e verbo para teorizar o cinema de autor, Resnais insiste em se definir como ‘realizador’. Ele não se dá nem mesmo o crédito ‘um filme de...’. Seu nome vem depois de ‘réalisation de...’.

Pela idade, a saúde delicada, é fácil entender por que Resnais, em seus filmes recentes, anda tão preocupado com a morte. A surpresa é a leveza com que ele aborda o tema, por meio de uma peça dentro do filme que também é uma comédia de boas maneiras, ou uma tragicomédia da vaidade humana, como informa o catálogo da Berlinale. Dividido em quatro capítulos, o filme, em três deles, mostra o processo de ensaio da peça e os quiproquós da vida dos atores, que se entrelaçam com a ficção. E tudo é intencionalmente teatralizado e artificial, no tom e até em recursos gráficos e cênicos. Desenhos introduzem os ambientes em que se desenrola a ação, e são cenários de teatro. Tudo muito inteligente e divertido, atores ótimos (Sabine Azéma, Michel Dussolier, Sandrine Kiberlain), mas nada que entrará para a história.

Na manhã de ontem, chegou o primeiro chinês da competição – serão três – e foi um choque. Que raio de filme é esse, perguntavam-se, atônitos, muitos críticos, não entendendo nem mesmo o por quê da seleção de Blind Massage, de Lou Ye. Como um documentário, o filme começa mostrando garoto que perde a visão num acidente e, após o desespero inicial, aprende uma profissão. Vira massagista e, como tal, vai trabalhar num centro de massagem em que todo mundo é cego – perdão, deficiente visual. Embora o narrador, em vários momentos, se refira às diferenças entre os que veem e os que não – os segundos são um pouco cidadãos de segunda classe –, Lou Ye não quer bancar o correto e usa os novos personagens para prosseguir com suas críticas à sociedade chinesa pós-comunista (Palácio de Verão, Febre de Primavera, etc.).

Os cegos amam e desejam com intensidade e, lá pelas tantas, descobre-se que, numa firma tão pequena, e de pessoas especiais, existe a mesma corrupção de que é acusado o governo da China neocapitalista, uma potência mundial. Existem momentos em que o tom parece de farsa, quando não melodramático. Blind Massage não é para todos os gostos, e talvez não seja para gosto nenhum. O fim da sessão foi silencioso, sem aplausos, mas também sem vaias. Já o concorrente seguinte, o nórdico In Order of Disappearence, de Hans Petter Moland, foi muito aplaudido, mas também havia críticos se perguntando o que mais esse filme fazia na seleção.

Moland fez um policial tarantinesco, melhor até que muitos filmes do próprio Quentin Tarantino. Conta a história de um pai (Stellan Skarsgaard) para vingar a morte do filho, no quadro de uma guerra de gangues (noruegueses versus sérvios) que se passa ora na cidade grande ora na desolação de uma paisagem nevada. O chefão norueguês é um monstro que deixa atrás de si um rastro sangrento, mas o herói não se intimida – nem o diretor. É o quarto filme que Moland e Skarsgaard fazem juntos desde Zero Kelvin, em 1995. Como diretor, ele quer testar os limites do cinema de gêneros – policial, gângsteres. O filme é uma comédia violenta que até certo ponto lembra a série Premonição. Lá, o desafio é inventar novas formas de morrer. Aqui, de matar. E tudo é muito engraçado. Moland chegou a dizer que queria fazer uma comédia de ação, mas não sabia se iria funcionar. Pelos risos e aplausos, funcionou – e bem –, mas o júri terá de ser muito aberto para apreciar as qualidades narrativas de Por Ordem de Desaparecimento. É a maior piada – os personagens vão sendo apresentados em capítulos, segundo a ordem com que são mortos.

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