Adam Berry/EFE
Adam Berry/EFE

Aos 90 anos, Agnès Varda mostra em Berlim seu testamento poético

Diretora revisita sua carreira em novo filme, 'Varda par Agnès', exibido no festival, e é homenageada com o prêmio Caméra d'Or

Luiz Carlos Merten / Enviado especial, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2019 | 19h18

BERLIM - Seis da tarde desta sexta, horário da Alemanha. Três da tarde, 15h, no Brasil. Há um embargo de crítica até esta hora, mas vamos dar uma palhinha aos leitores do Estado. Wagner Moura conseguiu. Marighella vai dar o que falar. É um filme contra a corrente – no Brasil, no mundo. E o mais curioso será ver, na tela gigantesca do Palast, os logos da Paris Filmes, da Downtown e da Globo Filmes, que fazem os blockbusters, as comédias – consideradas alienantes pela crítica – que arrebentam na bilheteria e propõem agora esse filme incisivo, forte, crítico.

A Berlinale de 2019 vai chegando ao seu final. No sábado à noite, 16, ocorrerá a cerimônia de premiação. Para a sua última seleção, o (ainda) diretor do evento, Dieter Kosslick, selecionou filmes que compuseram uma mostra competitiva irregular. Alguns bons – uns poucos muito bons – e a maioria mediana, quando não muito ruim. Ondog, do chinês Wang Quanan; God Exists, Her Name Is Petrunya, da cineasta da Macedônia Teona Strugar Mitevska; e L’Adieu à la Nuit, do francês André Techiné, foram as pérolas dessa seleção.

Ontem passou o último filme da competição – So Long, My Son, do chinês Wang Xiaoshuai. Uma viagem de três horas acompanhando uma família que implode, vendo as transformações ocorridas no país. Um filho morre afogado, o outro, revoltado, some no mundo. Aos pais, só resta envelhecer, mas você pode esperar que a vida vem, cobrando atitudes, comprometimentos.

O Brasil fez boa figura na Berlinale. Além de Marighella, na competição, mas fora de concurso, o cinema brasileiro exibiu filmes belíssimos, que poderiam estar na competição. São obras importantes, ousadas como A Rosa Azul de Novalis, de Rodrigo Vinagre e Rodrigo Carneiro, e Divino Amor, de Gabriel Mascaro.

Existem flores azuis no filme de Mascaro, mas talvez sejam coincidência. O importante é que Divino Amor traz uma contribuição necessária ao debate sobre como as religiões – as igrejas evangélicas cristãs – estão se apropriando do Estado laico brasileiro.

Dira Paes faz a notária que professa na igreja Divino Amor. Sua missão, ela considera, é reconciliar casais em crise. Seu desejo, ter um filho. O casal – Júlio Machado é o marido – faz de tudo para engravidar. Mascaro, com forte assinatura visual, cria o que não deixa de ser uma alegoria sobre a Virgem Maria situada no Brasil distópico de 2027. Embora oito anos à frente, tem tudo a ver com o País de 2019.

Duas mulheres admiráveis, uma atriz, outra diretora, foram homenageadas este ano. Agnès Varda veio receber seu prêmio e apresentar o novo filme, Varda par Agnès. Cansada de ministrar master classes, ela fez um filme que não deixa de seguir o formato. Revela a mulher, e a autora. A outra é Charlotte Rampling, que recebeu na noite de quinta, 14, um Urso especial de carreira.

Para acompanhar a premiação, a Berlinale organizou uma retrospectiva com os melhores filmes da inglesa que surgiu na Swinging London e virou mito na Itália, com dois filmes emblemáticos de grandes diretores. La Caduta degli Dei/Os Deuses Malditos, e Porteiro das Noite/Il Portiere di Notter, de Liliana Cavani, ambos em versões restauradas. A ópera antinazista de Visconti ficou ainda mais deslumbrante – com a Petrobrás ameaçando cortar patrocínios, reze ao Deus dos cinéfilos para que o evento aconteça e Renata de Almeida consiga levar Os Deuses Malditos ao Brasil.

O Porteiro da Noite foi o filme que a própria Charlotte escolheu para passar no Berlinale Palast, na hora da homenagem. De novo o nazismo. Uma mulher burguesa reconhece no porteiro do hotel em que está hospedada seu carcereiro, que a submeteu às maiores degradações, no campo de concentração.

Como A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, o filme da italiana Cavani teve problemas com a censura do regime militar, no começo dos anos 1970. Num encontro com o público, Charlotte disse que Cavani, Dirk Bogarde e ela sabiam que o filme provocaria polêmica. O que a surpreendeu foram as reações raivosas como a da crítica norte-americana Pauline Kael, que não se dignou a analisar seu trabalho como atriz, mas condenou a mulher abjeta que concordara em representar aquele papel.

O Porteiro da Noite, que usa as ferramentas do sexo e da psicanálise para desmontar o poder, permanece como uma das mais impressionantes representações do fascismo no cinema.

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