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Charles Sykes/AP
Charles Sykes/AP

Aos 88 anos, Ellen Burstyn segue longe da aposentadoria e estrela 'Queen Bees'

Atriz que figurou em clássicos como 'O Exorcista' e em filmes mais recentes como 'Pieces of a Woman' se mantém em boa forma

Jake Coyle, AP

09 de junho de 2021 | 20h00

NOVA YORK - O fato de Ellen Burstyn interpretar uma mulher que se ofende à simples menção de uma comunidade de aposentados no filme Queen Bees é extremamente apropriado.

Raramente um ator é tão bom por tão longo tempo como é o caso de Ellen. Aos 88 anos de idade, é incansável, sua vitalidade praticamente não diminuiu. Tão intensa foi sua carreira desde o início - no Actor’s Studio de Lee Strasberg no final dos anos 1960, depois atuando em clássicos dos anos 1970 como A Última Sessão de Cinema, O Exorcista, Alice não Mora mais Aqui - mas seus anos mais recentes não são menos exploratórios ou desafiadores - atuando em filmes como Réquiem para um Sonho, Interestelar, e Pieces of a Woman, lançado no ano passado.

Ela tem prêmios para mostrar. Indicada seis vezes ao Oscar e vencedora de um (por Alice, filme que pretendia até escolher um jovem cineasta, Martin Scorsese, para diretor), ela também conquistou um Tony e dois prêmios Emmy. Queen Bees, que estreia na sexta-feira, é mais uma diversão, mas Ellen continua uma presença magnífica e intensa na tela. Ela interpreta uma senhora orgulhosamente independente que passa um tempo numa comunidade de aposentados que no final está repleta de pessoas cômicas e possibilidades românticas como Meninas Malvadas. O elenco inclui James Caan, Ann-Margret, Jane Curtin, Loretta Devine e Christopher Lloyd.

Os planos pessoais de aposentadoria de Ellen ainda não foram feitos. São indecifráveis. Quando completou 80 anos, ela decidiu se mudar de Rockland County para a cidade. “Um tempo para um pouco de ação”, explicou numa entrevista recente.

Desde então ela vive num apartamento com vista para o Central Park, por onde caminha diariamente. “É o meu jardim”, diz ela. Durante a pandemia ela se recolheu, passando um tempo com amigos em Catskills e num condomínio à beira-mar de Connecticut.

“Do contrário estaria na cidade. Em meu apartamento”, disse ela. “Sou uma pessoa totalmente confinada pronta para pegar a estrada de novo”. Abaixo trechos da entrevista.

A que você atribui a sua longevidade?

Devo ter bons genes. Era uma pessoa meio selvagem nos meus 20, 30 anos. Quando cheguei aos 40 comecei a abandonar os maus hábitos lentamente. Primeiro, deixei as bebidas muito alcoólicas, depois o vinho, comecei a me exercitar, mudei minha dieta e deixei de comer carne. Maconha também fazia parte. Abandonei tudo isso. Acho que compensou.

Sua atuação no cinema ou no palco evoluiu com o tempo?

Não sei bem como responder. Sabe, sou muito bem treinada. Tive a enorme sorte de estudar com um dos mestres de todos os tempos - estou falando de Lee Strasberg - e ele me influenciou muito. Descobri, à medida que avancei na minha carreira, que coisas que tive de trabalhar duro no início ficaram cada vez mais fáceis. Eu fiquei mais descontraída. Mas nunca perdi o interesse nisso.

A senhora teve uma vida de certo modo tumultuada ainda cedo. O caminho da representação foi um escape?

Não, acho que descobri ainda muito jovem que conseguiria seguir esse caminho. Desde a primeira vez que subi num palco eu me senti em casa. Não que não fosse assustador - era. Mas senti que era o certo para mim. Uma dádiva que recebi.

A senhora se encontra com muitos jovens atores através do Actor’s Studio, que preside junto com Al Pacino e Alec Baldwin. O que diz a eles?

É um processo. É uma dessas coisas que quanto mais você faz, mais se aproxima da perspectiva de querer melhorar e melhorar e estar sempre aprendendo. Digo aos atores que onde você começa é apenas o início.

Algum conselho que recebeu teve uma forte influência sobre a senhora?

O mais importante foi que eu tinha de conectar a personagem e eu mesma emocionalmente para conseguir entender o que estava ocorrendo com ela - e não apenas emitir palavras.

A senhora ainda mergulha muito no personagem?

O fato é que alguns personagens são mais acessíveis do que outros. Não preciso ir muito a fundo para compreendê-los. E alguns são estranhos para mim e preciso ir mais longe para encontrar um espaço onde me sintonizo com eles.

Sua personagem em Alice Não Vive mais Aqui era muito próxima da senhora. Fale sobre uma que era uma estranha.

Bem, fiz um filme na Grécia com Melina Mercouri (A Dream of Passion) em que interpretei uma mulher presa pela morte dos filhos. O filme era sobre Medéia. Tive muito trabalho para esse papel. Não queria dar a ideia que desejava eu mesma matar meus filhos. Mas tive de encontrar algo dentro dela que permitiu isso. Cheguei àquele ponto em que havia uma fúria maníaca. Entendi que o que ela fez foi com o fim de ferir seu marido da melhor maneira que possivelmente conseguiria. Não tinha a ver com os filhos. Mas com sua fúria contra ele.

No caso de alguns dos seus personagens - em 'O Exorcista', 'Réquiem para um Sonho' - isso significou ir a lugares sombrios. Foi algo que a exasperou?

O ato de fazer um bom trabalho é emocionante e prazeroso. Se você interpreta uma pessoa horrível, o resultado é que vai sentir depois que fez um bom trabalho. Isso é gratificante de um modo estranho.

Imagino que sua personagem em Queen Bees não foi tão difícil de interpretar uma vez que a atitude dela com relação à aposentadoria é similar à sua.

Não consigo imaginar minha aposentadoria. Nem pensar em me aposentar. A única coisa que consigo pensar é que, se algum dia estiver aposentada é porque não consigo trabalho. Mas voluntariamente? Não.

O que a atraiu no filme?

Adoro quando o cinema mostra mulheres com mais de 60 anos ainda interessadas na vida e que não pensam em se aposentar. Li tantos roteiros quando estava com 50 aos que questionavam se a vovó devia ser colocada num asilo. Como dizer isso a ela? Como se ela fosse colocada no pasto. Este filme é bem diferente. A história gira em torno de uma comunidade de aposentados, mas ali existe muita vida e muita amizade. Gostei do roteiro. É uma história, vamos dizer, sobre pessoas idosas sadias.

A senhora viveu uma era patriarcal em Hollywood. Algum dia se perguntou como sua carreira e sua vida poderiam ter sido diferentes sem aqueles obstáculos?

Fiz muitos estudos sobre o patriarcado, em vigor há milhares de anos. Somente agora vem sendo realmente contestado. Acho que é isso que é assustador para muitas pessoas, que não vão saber como agir se estão numa posição de vantagem com uma mulher. Acho que isso afeta nossa política. Penso que o que o país vem atravessando neste momento é o medo, no caso de algumas o medo de que se o homem branco não está no poder isso é mau. Não compartilho dessa ideia. Acho que lentamente vimos dando espaço para o outro sexo, a outra cor e a outra religião - o outro. Não penso como minha vida teria sido diferente. Apenas fico feliz de ter conseguido fazer filmes como Alice Não Vive Mais Aqui, que tratou exatamente disso e que teve de algum modo uma influência.

Em sua biografia, Lessons in Becoming, a senhora escreve sobre como seu terceiro marido, depois da separação, invadiu sua casa e a estuprou. A senhora tem o sobrenome dele. Gostaria de não ter?

(Risos). Bem, procuro não perder tempo desejando alguma coisa que não posso mudar. É meu sobrenome. Isso me surpreendeu, mas é o que tive. Mas sei que fui muito honesta quando escrevi o livro. Cada vez que escrevia sobre um capítulo da minha vida eu pensava, “bem, não posso escrever sobre isto”. Finalmente eu me disse: “se vai contar a história, então conte”.

A senhora poderia falar nesse livro que viu sua vida como uma jornada espiritual sempre em evolução. Onde se colocaria nessa jornada hoje?

Compreendo a vida como você vir à Terra para aprender alguma coisa espiritualmente e tudo o que acontece é uma lição espiritual, se você entender as coisas desta maneira. Ainda estou no caminho de tentar ser honesta e sensível e aberta o mais possível. Portanto, espero estar evoluindo.

A senhora também disse que sua memória é o reservatório de todas as suas atuações. Para uma pessoa que se inspira tanto no passado, a senhora parece muito vanguardista.

Uso minha memória o tempo todo no meu trabalho. A memória nos forma. Nossas histórias nos formam. Estar totalmente presente é essencial. Estou no passado, estou no futuro e estou no momento presente, tudo ao mesmo tempo. /Tradução de Terezinha Martino

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