EFE/EPA/Tristan Fewings / POOL
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Jean-Luc Godard diz para o Festival de Cannes que não desistiu da revolução

Aos 87 anos, o cineasta, um dos pais da nouvelle vague francesa, deu entrevista via chamada de vídeo de um telefone celular; ele apresentou o filme 'O Livro de Imagem'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 Maio 2018 | 21h32
Atualizado 14 Maio 2018 | 09h06

Nesses 20 e tantos anos em que faz a cobertura do maior festival do mundo para o Estado, o repórter já teve a oportunidade de testemunhar momentos decisivos, como o grande seminário que, em 2000, abriu a discussão sobre novas tecnologias. O cinema nunca mais foi o mesmo depois daquilo.

Mesmo assim, a coletiva do filme de Jean-Luc Godard, O Livro de Imagem, no sábado, teve algo de surreal. Godard subverte o cerimonial do festival. Não faz a montée des marches, sua poltrona fica vazia. Mas ele não é Terrence Malick, que se automistifica e atribui a atores e demais colaboradores a tarefa de defender seu cinema. Godard esteve presente na coletiva, via o iphone de seu produtor. Todo mundo teve a chance de lhe fazer as perguntas que quis, de vê-lo criticar as estruturas comerciais do cinema e o estado do mundo. Aos 87, Godard não desistiu da revolução.

O próprio formato da coletiva de seu filme foi a prova. Godard, o russo Kirill Serebrennikov (Leto), o egípcio A.B. Shawky, num registro talvez mais modesto (Yomeddine), o polonês Pawel Pawlikowski, um tanto supervalorizado (Cold War, Guerra Fria) já fizeram a história do 71.º festival, mas como ainda temos quase toda a semana – a premiação será no sábado –, há que acreditar nas promessas que virão. O chinês Jia Zhangke segue filmando as transformações da China no século 21 e o casal de criminosos de Ash Is the Purest White é mais interessante que o triângulo de As Montanhas Se Movem, mas o filme, por bom que seja, não é grande.

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Como a de Godard e a de Serebrennikov, preso na Rússia, a poltrona de Jafar Panahi também ficou vazia, mas Three Faces/Três Rostos talvez seja seu melhor filme nessa fase de exílio no seu país. Para Panahi basta um carro, depois do táxi do anterior, para que o autor coloque dentro dele todo o Irã.

Como na coletiva de Godard, um celular tem papel decisivo. Por meio dele, uma estrelas da TV iraniana recebe o vídeo de um suicídio e decide procurar, com Panahi, essa garota que presumivelmente se matou. Por quê? Realidade, artifício, Panahi, nessa nova fase, vive se perguntando o que é, e para que serve, o cinema, afinal? Se o Irã, e o cinema, cabem num carro, o Brasil exige um pouco mais de espaço, mas está todo no Grande Circo Místico de Cacá Diegues, que teve a sua estreia mundial no sábado à noite.

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Esse circo atraversa 100 anos de história e termina roto, com as últimas descendentes de uma grande família prostituindo-se sob aquela lona. Grandeza e decadência do Brasil, mas o número final, um salto no vazio sem trapézio nem rede, metaforiza alguma coisa. Apesar de tudo, a esperança? Cacá dedicou a sessão ao cineasta Nelson Pereira dos Santos, morto há menos de um mês, em 21 de abril. Foi aplaudidíssimo.

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