Rafael Arbex / ESTADÃO
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Aos 80, Jean-Claude Bernardet é ator múltiplo e prepara minissérie

No aniversário, o crítico fala da carreira de ator e de sua preocupação com os rumos do País; em ‘Fome’, sua presença forte impõe a reflexão sobre a frieza de uma metrópole como São Paulo 

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2016 | 16h00

Jean-Claude Bernardet faz 80 anos. Em seu apartamento no alto do Edifício Copan, o celular não para de tocar. São amigos, colegas e alunos cumprimentando-o. O toque do aparelho é a canção Non, Je ne Regrette Rien, na voz de Edith Piaf, título que pode soar como declaração de princípios para este belga, educado na França, que veio para cá aos 13 anos e se naturalizou brasileiro, tornando-se um dos mais influentes pensadores de cinema de sua geração. 

Professor emérito da ECA-USP, Jean-Claude é autor de livros fundamentais como Brasil em Tempo de Cinema, Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro e O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira (este em parceria com Maria Rita Galvão). Jean-Claude, ao longo de sua carreira, deu aulas, escreveu para jornais (em especial para o Suplemento Literário do Estado), foi roteirista e líder de grupos de discussão de dramaturgia. Faz alguns anos vem surpreendendo amigos com a nova faceta de sua carreira, a de ator. 

Para quem pensava fosse apenas uma experiência sem maiores consequências, ou mera extravagância de intelectual, Bernardet garante, e prova: “É uma opção radical”. Sem dúvida. Já participou de vários trabalhos como Filme Fobia (pelo qual recebeu o troféu de melhor ator no Festival de Brasília), A Navalha do Avô, Periscópio, Pingo D’água, e entrou em cartaz nesta quinta, 4, como protagonista de Fome, longa-metragem dirigido por Cristiano Burlan. (Leia mais abaixo.) 

Como surgiu essa opção? Bernardet, homem que não tem medo das palavras, é franco: “Apareceu numa época de grande depressão. Eu havia me aposentado da USP, passava por problemas de saúde, quando o Kiko Goifman me convidou para fazer o Filme Fobia; foi um caminho que se abriu”, diz. Jean-Claude conta também que na época conversava muito com seu irmão, Jean-Pierre, sobre a reciclagem necessária na terceira idade. O irmão era alto executivo de uma multinacional e quando foi demitido passou a dedicar-se às artes. 

No entanto, a surpresa com Jean-Claude ator foi grande. Como um superintelectual como ele resolve se dedicar a função tão dependente do corpo? Um dia, o cineasta e produtor Cavi Borges, viu Pingo D’Agua, de Taciano Valerio, filme muito improvisado em que, em uma das cenas, Jean-Claude simplesmente se enfia dentro de uma mala de viagem. “Pensei que o Jean-Claude fosse apenas um cérebro; descobri que ele é um corpo”, disse Cavi. 

“A frase teve grande efeito sobre mim”, diz Jean-Claude, que atualmente estuda e pratica o butô. A consciência do corpo ele sempre teve. “Sempre dancei”, diz. Mas esta veio, em sua plenitude, com o trabalho de ator, com a atenção com as formas não verbais de expressão. Percepções que o levam a questionar o lugar privilegiado que a palavra tem na nossa compreensão do universo – tema bem francês, aliás, basta pensar em Jacques Lacan, o psicanalista que deu seguimento à obra de Freud, centrada na palavra. “Como descrever a pintura ou a música em palavras”, pergunta. 

Jean-Claude não as renega – apenas acha que há mais, muito mais, entre céu e terra, e que o trabalho de ator pode lhe sugerir alguma coisa desse insondável. Assim como não renega sua obra crítica. O que destacaria? “Talvez Cineastas e Imagens do Povo”, diz, referindo-se a esse importante estudo sobre o documentário brasileiro. “E também um livro para o qual os intelectuais não ligaram tanto, Caminhos de Kiarostami.” Este é um pequeno volume sobre a obra de Abbas Kiarostami, o genial diretor iraniano morto este ano. “Fez muito sucesso entre os jovens, pela maneira livre de análise”, afirma. 

Essa busca pelo novo, pela reinvenção, torna Jean-Claude um tanto refratário a generalidades ou perguntas batidas. “Sempre vem alguém me perguntar o que acho do atual cinema brasileiro, ou pedem para eu recordar como cheguei ao Brasil”, diz, já desarmando futuras perguntas clichês. 

Mas, como o dever do jornalista é evitar tanto quanto possível o lugar-comum, mas não temê-lo quando se faz indispensável, uma pergunta faz-se inevitável: “E os 80 anos, significam alguma coisa para você?”.

Jean-Claude garante que não significa nada. Apesar de tanta gente cumprimentando pelo telefone, não prepara qualquer comemoração especial. No entanto, elas chegam assim mesmo. O MIS promove a exposição Bernardet em Cartaz, com pôsteres de filmes dos quais ele participa como roteirista, diretor ou ator. A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) tem no prelo um volume em homenagem a Bernardet, que é membro da entidade. 

Com tudo isso, Jean-Claude até hesita: “Sabe que me surpreendo em chegar aos 80 anos com tanta coisa acontecendo?”. Além do filme recém-lançado, Fome, já tem outro rodado, com o mesmo autor, Cristiano Burlan. Vai agora a Locarno, pois há um documentário sobre ele inscrito no festival suíço, dirigido por Claudia Priscila e Pedro Marques. O título: A Destruição de Bernardet. Ele elogia: “Não tem nada do documentário convencional sobre uma personalidade conhecida”. O longa será acompanhado de um curta também sobre ele, dirigido por Eugênio Puppo e Ricardo Carioba, e intitulado Compêndio da Vida de Um Homem Gasto e Seu Último Desejo Perante Ela. 

Enquanto isso, Jean-Claude mantém a inquietação juvenil que o caracteriza. Ao voltar de Locarno, mergulha fundo em seu novo projeto, este como diretor. “Estamos formatando uma minissérie em quatro capítulos sobre a judicialização da política brasileira”, diz. Na pauta, o poder inusitado adquirido por alguns juízes e as relações complicadas entre o Poder Judiciário e a mídia. Vai ferver. 

Um sem-teto que não pode ser ignorado

Em ‘Fome’, a presença forte de Jean-Claude impõe a reflexão sobre a frieza de uma metrópole como São Paulo 

É perturbador assistir a Fome, de Cristiano Burlan. Não apenas porque nos joga na cara a impessoalidade e a crueldade da metrópole, mas porque nos apresenta um sem-teto pouco usual. Ninguém menos que o grande intelectual belga radicado no Brasil, Jean-Claude Bernardet. Figura conhecida nos meios intelectuais brasileiros desde quando nele começou a atuar, nos anos 1960, Bernardet provoca um deslocamento problemático de nossa percepção habitual dos moradores de rua. 

Esse é um mérito inicial do filme. Ele nos descentra e tira o foco do lugar-comum, pois há o sem-teto clichê com o qual já nos habituamos. Este, pelo processo de acomodação dos sentimentos e da percepção, já se tornou invisível. 

Já o morador de rua vivido por Jean-Claude é impossível de ser ignorado, pois estabelece um processo identitário com o espectador de classe média. Por isso, sua presença “grita” na tela em passagens como a do casal que o acorda para lhe dar um resto de comida; ou no semáforo, quando os motoristas fecham as janelas do carro para não serem perturbados. Cenas banais da metrópole, mas que aqui ganham relevo e provocam o mal-estar crítico desejado. Há uma radicalidade no projeto e esta se deve tanto à estrutura da sua composição (como o preto e branco da fotografia) quanto à presença excêntrica do professor. 

Sequências não funcionam tão bem, como a do acerto de contas entre o morador de rua e um ex-aluno (vivido pelo crítico Francis Vogner). Mas são compensadas por cenas fortes, a principal delas quando o sem-teto se vê na saída de um viaduto em meio a uma profusão opressiva de automóveis, enquanto tenta manobrar seu carrinho de mão. Na cena, a impiedade da metrópole, como poucas vezes vista.

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