Ryan Pfluger/The New York Times
Ryan Pfluger/The New York Times

Aos 80 anos, Anthony Hopkins revive papel de Rei Lear em filme

O ator prossegue sua carreira iniciada há 60 anos. E num dia gelado em novembro passado, ele gravou sua cena final no papel do Rei Lear, o novo filme produzido para a TV da tragédia de Shakespeare.

Roslyn Sulcas  , The New York Times

01 Outubro 2018 | 06h00

SAMPHIRE HOE, INGLATERRA - Nas colinas brancas de Dover, bem acima do mar, soldados transportam equipamentos e protegem as barracas do que parece um acampamento militar. Um homem aparece na frente de uma tenda, cabelos brancos, curtos, o rosto coberto por uma barba desgrenhada. “Podemos continuar?”, pergunta Anthony Hopkins.

Aos 80 anos, o ator prossegue sua carreira iniciada há 60 anos. E num dia gelado em novembro passado, ele gravou sua cena final no papel do Rei Lear, o novo filme produzido para a TV da tragédia de Shakespeare.

O filme estreou no Amazon Prime Video na sexta-feira, 28. Rei Lear, na versão de Eyre, é ambientado na Grã-Bretanha contemporânea onde o rei é um ditador militar. O espectador de início será contemplado com vistas fantásticas de arranha-céus de aço e vidro e as pontes no horizonte londrino, antes de a câmera se fixar na Torre de Londres, símbolo do poder militar desde que William o Conquistador erigiu fortificações no local em 1066.

E o Rei Lear de Hopkins é um tirano, um homem duro, arisco, arrogante, acostumado à obediência e às reverências, que não desperta empatia. Ou, como o ator explicou resumidamente entre as tomadas, “um velho mordaz”.

É um choque ver Hopkins interpretando Lear; afinal ele renunciou ao palco (e Shakespeare na maior parte) há quase 30 anos. Mas o tempo, junto com lembranças familiares e a propagação de uma TV com melhor reputação e bem financiada, o animaram a assumir esse papel novamente. 

Um Hopkins bem mais jovem desempenhou esse papel desafiador em 1986, numa produção do National Theater, de Londres, dirigida por David Hare. “Foi uma produção genial, mas logo percebi que não seria um sucesso”, disse o ator numa entrevista por telefone de sua casa em Malibu, na Califórnia, no final de agosto. 

Logo depois de Rei Lear, ele interpretou Antonio, ao lado de Judi Dench como Cleópatra. “E nesse ponto pensei: Existem atores apropriados que conseguem declamar os versos e eu não sou um deles. Eu sabia que estava no mundo errado”.

Em um e-mail após a entrevista, Hopkins falou mais sobre a sua decisão de deixar o palco, em 1989. “Acho que havia, e ainda há, dentro de mim, algo que me fazia ir contra a ‘seriedade’ de tudo que se refere a atuar no palco”, escreveu, acrescentando: “Um problema que eu mesmo criei foi a sensação de alienação, não estar à altura, não ser formado para isso – tudo isso refletia insegurança”.

Hopkins é mais conhecido por seus papéis em filmes, especialmente o que lhe proporcionou um Oscar, como o serial killer Hannibal Lecter no longa O Silêncio dos Inocentes, de 1991. Mas ele trabalhou em dezenas de filmes desde então (como Tito na adaptação de Julie Taymor de Tito Andronico) e retornou à televisão nos últimos anos estrelando a série da HBO Westworld.

Hopkins admitiu que algumas vezes pensou em interpretar novamente o Rei Lear. Quando o produtor Colin Callender o contatou há três anos convidando-o para o papel do grande ator britânico (Hopkins faz o papel do velho ator shakespeariano à beira de um colapso nervoso que interpreta o Rei Lear em um pequeno cinema durante a Segunda Guerra Mundial) numa produção de TV de Ronald Harwood, The Dresser, dirigido por Richard Eyre, ele se sentiu atraído pela oportunidade de atuar como Lear numa peça dentro da peça.

“Quando filmamos aquelas cenas, foi a primeira vez depois de quase 30 anos que Tony havia subido num palco”, disse Callender, cuja companhia, a Playground, produziu o Rei Lear com a Sonia Friedman Productions e a Lemaise Pictures Limited. 

Richard Eyre dirigiu a peça em 1997 e hesitava em retomá-la novamente, mas finalmente foi convencido pela chance de dirigir Hopkins. Durante 18 meses antes de começarem os ensaios e as filmagens, ele disse ter recebido e respondido a e-mails diários de Hopkins sobre o papel.

“Richard podia ter se aborrecido com minhas anotações, mas respondia sempre a tudo que eu fazia e também ao que fazia errado”, lembrou Hopkins. “Agora, acho que Lear tem medo do que é feminino – nele e em suas filhas. Acho que tratou Cordelia como uma garota turbulenta, uma filha semelhante ao pai, e quando ela o rejeita penso que isso libera alguma coisa dentro dele. Ele tem uma conduta violenta durante o restante da peça até acabar num bairro miserável, sem-teto, um vagabundo conduzindo um carrinho de mercado (Callender disse que várias pessoas confundiram Hopkins com um sem-teto quando da filmagem dessas cenas). 

Hopkins disse também que foi inspirado pelas lembranças do seu pai e seu avô. “Eles foram fundamentais em minha vida – homens duros, da velha escola. Meu pai era padeiro, nada refinado, mas com grande alegria de viver. Lear se assemelha muito a ele, particularmente na cena da tempestade. E Richard (Eyre) me incentivou a seguir minhas emoções e superá-las.”

Embora seja conhecido pela sua intensa preparação para seus papéis, Hopkins é uma pessoa prática no tocante a seus métodos. “O texto é como uma rua de paralelepípedos. Arranco as pedras, vejo o que está embaixo e como elas se ligam, depois as substituo. Não é complicado. Quando ouço as pessoas falarem na TV sobre ‘processo’, penso que é melhor elas se calarem e seguirem em frente.”

“Duas semanas de ensaios permitiram ao elenco se conectar e examinar os temas que Richard desejava evocar”, lembrou Emma Thompson, que interpreta Goneril. E esses temas se centralizavam na ideia de que “a crueldade dos pais desfaz a família, mas também o Estado e um Estado sem amor e uma liderança sábia é um lugar anárquico, sinistro”.

Emma, que já trabalhou com Anthony Hopkins em Retorno a Howard’s End e Vestígios do Dia, disse que toda a companhia de atores se sentiu “privilegiada em presenciar o ator desempenhando seu papel”.

Anthony é um dos nossos maiores atores e ali estava ele, interpretando um dos maiores papéis até hoje escritos”, afirmou ainda ela.

Hopkins descarta esses elogios. “É preciso ter cuidado com o narcisismo do ator principal. O que gostei no caso do Rei Lear de Richard Eyre foi a falta de cerimônia, de servilismo e de reverências. Gostei da abordagem brutal, direta: chegar, dizer suas frases e ir embora.”

E acrescentou: “Eu fiz um esforço exagerado na primeira vez. Hoje tenho mais experiência e quis provar que tenho vitalidade e audácia. Como disse Goethe, todo velho sabe o que Lear significa”.

(TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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