Paramount Pictures
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Aos 50 anos, um novo ‘O Poderoso Chefão’ na tela

Longa de Francis Ford Coppola volta aos cinemas na quinta-feira com cópia remasterizada

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Luiz Zanin Oricchio, Especial para o Estado

20 de fevereiro de 2022 | 05h00

O Poderoso Chefão começa no escuro. Ouve-se apenas uma linha melódica, tocada num único instrumento – o tema de Nino Rota escrito para o filme. Em seguida, entra uma voz: “Eu acredito na América”. Um rosto surge na penumbra e começa a contar sua história. A filha sofreu uma tentativa de estupro e foi barbaramente surrada por dois homens. O caso foi ao tribunal, mas os agressores saíram livres. O homem está ali para “pedir justiça”. Durante essa fala, a câmera vai recuando e o interlocutor aparece, de costas.

Ninguém esquece essa abertura de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, que volta aos cinemas na quinta-feira, dia 24, em cópia restaurada, 50 anos após sua estreia. Em 22 de março, estará disponível em plataformas digitais. 

O desenho visual da abertura é magnífico – a fotografia é de um mestre, Gordon Willis. Joga toda a cena na penumbra e revela aos poucos a figura principal do quadro, o capo, Don Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando. É a festa de casamento da filha do “Padrino”. Nesse dia, segundo a tradição siciliana, ele atende a pedidos. 



O sentido do diálogo entre Corleone e o homem é muito claro. “Por que você não me procurou antes, por que buscou a polícia e a justiça? Porque tinha fé na América. Pois é, nada foi feito, sua filha está no hospital, com o rosto deformado e os malfeitores continuam à solta e assim permanecerão a depender das instituições do país”. Já o Padrinho (lembre que o título original é The Godfather) se encarrega de tudo. Sob as asas do Padrinho, ninguém se sente desguarnecido. Desde que lhe beije a mão e seja leal. E que, eventualmente, no futuro, possa retribuir o favor que agora recebe. 

Ao estrear, em 1972, O Poderoso Chefão foi um choque. A própria frase inicial de Bonasera (Salvatore Corsitto) parece uma ironia, uma vez que, na época do lançamento do filme, pouca gente se atreveria a acreditar de fato na América, um país ainda enterrado na Guerra do Vietnã e em meio a uma fabulosa revolução de costumes que assustava as partes mais conservadoras da população. 

Encantada, a exigente crítica da New Yorker, Pauline Kael, escreve na época da estreia: “É um melodrama popular com raízes nos filmes de gângster da década de 30, mas expressa um novo realismo trágico e é totalmente extraordinário”. 

 


O chamado “filme de gângster” floresce nos Estados Unidos durante a década de 1930. Provavelmente, o boom de gênero está associado com a proibição de venda de bebidas alcoólicas, que induziu um espetacular comércio clandestino e fez a criminalidade subir às alturas. Filmes como Inimigo Público (1931), de William Wellman, Alma do Lodo (1931), de Mervyn LeRoy, Scarface, a Vergonha de uma Nação (1932), de Howard Hawks são considerados arquétipos do gênero.

Essas aventuras na época da Proibição repercutem até mais tarde. Foi famosa a série de TV Os Intocáveis (1959-1963), com o justiceiro Elliot Ness interpretado por Robert Stack. Em 1987, Brian De Palma fez o filme de mesmo título, com Kevin Costner no papel de Ness. A obra inclui até mesmo um pastiche da famosa cena da Escadaria de Odessa do clássico soviético O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein.

Mas, nesses casos, o ponto de vista é o da polícia, ou seja, do Estado. Já no típico filme de gângster, o foco é sobre o bandido. Mesmo que ele seja retratado como uma espécie de aberração, um desajustado em contraste com a sociedade sadia, esse protagonismo chegou a incomodar. Era preciso reservar a esses anti-heróis desfechos bem negativos para acomodar a ficção à moral vigente: a morte em combate com os homens da lei, a prisão ou a pena de morte. O crime é um desvio, que altera a órbita normal da sociedade. Uma vez eliminado o criminoso, o mundo volta ao seu eixo. 

Esse gênero preparou a entrada em cena do “film noir”, com a tradução para a tela dos romances de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O protagonista agora é o detetive particular, cujo tipo ideal foi encarnado por Humphrey Bogart. Alguns se tornaram clássicos, como Relíquia Macabra (1941), de John Huston, Até a Vista, Querida (1944), de Edward Dmytryk, À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks. O noir é um gênero ambíguo. O detetive flutua no limite entre a legalidade e a ilegalidade, o certo e o errado. É cético. Pode ter um fundo moral, mas não acredita nas pessoas, e menos ainda nas instituições. 

Num filme de passagem, O Segredo das Joias (1950), de John Huston, a atenção principal se detém sobre o grupo que vai assaltar uma joalheria. Trata-se de uma história de assalto fracassado, que humaniza os criminosos. Suas vidas particulares são retratadas e o desfecho trágico de um deles (Sterling Hayden) desperta a simpatia do público. Sentindo-se perdido, um advogado corrupto, Alonzo Emmerich (Louis Calhern), murmura a frase significativa: “Ora, o crime é apenas uma forma marginal do esforço humano”. 

De modo que, em parte, o caminho para O Poderoso Chefão já fora aberto por seus antecessores. Coppola dá um passo a mais. Partindo do best-seller de Mario Puzo, mescla o realismo a certo tom operístico e melodramático ao retratar o mundo da máfia. Finca seu ponto de observação no interior de uma família. Não de uma “famiglia” mafiosa caricata, mas de uma família qualquer, com seus problemas, grandezas e a soma de alegrias e desgraças que vão compondo uma dinastia, geração após geração. 

Certamente Don Vito é um homem de poder. A relação com os filhos, Michael (Al Pacino), Sonny (James Caan), Fredo (John Cazale) e Connie (Talia Shire), é a de um patriarca à moda siciliana, devotado aos seus, exigente e terno. Como construiu um império, mesmo que do crime, também tem responsabilidades com a sua comunidade. Dá proteção e apoio, exige lealdade total – como se viu naquela primeira cena, com o dono da funerária, Bonasera, que vai pedir vingança pela agressão à filha. 



Depois da cena inicial, segue-se a festa de casamento de Connie e Carlo (Gianni Russo), sequência que dura bom tempo, com cantos, danças, brindes, comes e bebes. Estamos num ambiente ítalo-americano. Não poderiam faltar a polícia e os paparazzi à porta da mansão. Nem o ator e cantor das multidões Johnny Fontane (Al Martino), figura decalcada em Frank Sinatra, que, em baixa na carreira, também tem um pedido a fazer ao pai da noiva. 

Na parte que segue à festa, veremos uma amostra do lado violento do Don, que, por intermédio do seu consigliere, Tom Hagen (Robert Duvall), precisa convencer um produtor recalcitrante a dar a Fontane o papel num filme que poderá trazê-lo à tona de novo. A frase ficou famosa, “Don Corleone faz uma oferta que o senhor não pode recusar”. Não pode mesmo. O desfecho da “oferta” é brutal.

Isso para dizer que Coppola não pode ser acusado de romantizar o ambiente e os malfeitos da máfia. Algumas cenas de violência, como o assassinato de um dos filhos, são levadas a níveis operísticos. Bem como o primeiro crime de sangue em que Michael se envolve, liquidando a sangue frio, numa cantina, dois inimigos do pai, um gângster rival e um tira corrupto. 

O balanço entre violência e ternura familiar parece tão perfeito que nos deixamos levar por esta obra nada maniqueísta. Se o lado humano figura em primeiro plano, seu caráter criminal não fica para trás. O estilo da filmagem, a mise-en-scène perfeita trabalhando no quadro do cinema narrativo, a música, a intensidade do conjunto, a força operística dos momentos mais agudos, a densidade dos personagens – tudo isso nos conquista.

Nos seduz, mas também deixa espaço para reflexão sobre o que está sendo exposto na tela. Aquele limite tão estreito entre o legal e o ilegal, já presente em filmes de gângsteres mais antigos, e em todo o cinema noir, aqui parece abolido. Por outros meios, Don Corleone conduz os negócios da família como um empresário realista ou um político pragmático. 

É metódico, planejador, arrojado, sabe negociar e conhece seus objetivos. Pode ser cruel ou conciliador. Implacável, porém generoso. É um grande dirigente, o que faz de O Poderoso Chefão uma parábola pouco disfarçada sobre o funcionamento mais geral da sociedade e, em particular, do mundo dos grandes negócios. 

Esse desmascaramento de um mecanismo torna essa obra-prima um filme político como poucos. Esse aspecto, diga-se, irá se acentuar nos Chefões 2 e 3.  

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