Daniel Jack Lyons/The New York Times
Daniel Jack Lyons/The New York Times

Aos 42 anos, Christina Ricci esperou ficar mais velha para ganhar bons papéis

Atriz fez sucesso como Wandinha Addams ainda criança e estará na nova série de Tim Burton sobre a menina; Ricci também está em 'Yellowjackets', série de sucesso da Showtime

Thessaly La Force, The New York Times

29 de junho de 2022 | 10h00

LOS ANGELES - Christina Ricci sabia que havia ótimos papéis para ela. Ela só tinha que esperar ficar mais velha. Não velha - apenas mais velha. Idade suficiente para não ser mais julgada por quão sexy ela era (ou não era). Com idade suficiente para que os homens na sala não pensassem nela dessa maneira.

Isso foi no começo dos anos 2000. Ricci estava na casa dos 20 anos e já era uma estrela de cinema completa. Apenas alguns anos antes, ela havia interpretado Katrina Van Tassel, loirinha e de bochechas rosadas ao lado de Johnny Depp na adaptação de Tim Burton de Sleepy Hollow (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça). Ela apresentou o Saturday Night Live e apareceu em talk shows de televisão e nas capas das principais revistas. Ela era ambiciosa. Ela queria construir uma carreira duradoura.

Mas essa também foi a era das comédias românticas, quando atrizes como Kate Hudson, Rachel McAdams, Jennifer Aniston e Jennifer Love Hewitt dominavam a tela. Ricci poderia tentar ser um pouco mais desse jeito? Você sabe, feminina. Compreensível. Com o riso fácil. Amigável. A garota do lado. Ainda sexy, é claro, apenas um pouco menos ousada. Nada daquelas obscuras coisas góticas. Isso era fofo quando ela era mais jovem, mas vamos lá, é hora de crescer.

Alguns de seus filmes nessa mesma época - O Preço do Sucesso e O Encontro, especificamente - fracassaram. Não havia problema em ter um ou dois fracassos, mas nesse ramo ela precisava ter cuidado. A irrelevância espreitava da esquina.

Isso gerou insegurança e a deixou impressionável. As opiniões de outras pessoas sobre quais roteiros deveria gostar e quem ela deveria ser importavam mais do que deveriam.

Então ela testou esta nova versão de si mesma. Ela era simpática, divertida, normal. Mas ela foi informada de que seu visual era muito específico. Ela era realmente uma protagonista, ela se perguntou? Sempre que ela dizia “eu te amo” para a câmera, nunca parecia muito convincente.

“Quando me observo e estou tentando ter medo”, ela disse, “sempre acho que sou um pouco blasé demais com a coisa toda”.

Agora, aos 42 anos, Ricci interpreta Misty Quigley, uma enfermeira aterrorizante que possui um papagaio de estimação chamado Calígula e sabe como dar sumiço em um corpo. Ela faz parte de um elenco de destaque em Jaqueta Amarela (Yellowjackets), da Showtime, disponível na Paramount+, que estreou no outono (do hemisfério norte) passado e rapidamente se tornou uma das séries de maior sucesso da rede. O programa alterna entre 1996 e o presente, contando a história de um time de futebol feminino do ensino médio cujo avião, a caminho de um torneio nacional, cai no deserto canadense. A equipe sobrevive por 19 meses antes de ser resgatada e, nesse período, possivelmente pratica canibalismo.

Uma razão pela qual amou esse papel é porque ela não precisa fingir.

“Com Misty,” ela disse com um sorriso, “eu nunca tive que lidar com nenhuma dessas emoções irritantes.”

Sua personagem cuida dos equipamentos do time, usa óculos e cabelos cacheados, e não tem o carisma das atletas mais populares ao seu redor. Ricci a retrata como uma esquisita passivo-agressiva cuja voz doce e melosa é misturada com uma quantidade enervante de hostilidade. Ela não é a queridinha da América.

Pode ser difícil acompanhar o trabalho de Ricci. Ela nunca parou de atuar, aparecendo em um filme ou série de televisão (ou duas ou três) quase todos os anos desde que começou quando criança. Ela interpretou uma herdeira amaldiçoada com focinho de porco no lugar do nariz (Penelope), uma garota privilegiada de uma república que se apaixona por uma pessoa com deficiência (Meu Namorado Pumpkin), Zelda Fitzgerald (Z: O Começo de Tudo), a escritora Elizabeth Wurtzel (Geração Prozac), uma vigarista (Miranda), um assassina que usa um machado (The Lizzie Borden Chronicles), um giz de cera amarelo (The Hero of Color City) e uma advogada em Ally McBeal, entre outros.

Aos 10 anos, Ricci era uma celebridade. Ela estreou no cinema ao lado de Cher e Winona Ryder em Minha Mãe é uma Sereia (1990). Um ano depois, ela interpretou Wandinha Addams em A Família Addams (a personagem será reprisada em uma próxima série da Netflix; Ricci faz parte do elenco), no qual ela deixou uma impressão indelével como uma garotinha precoce e de aparência angelical que tinha um talento para o sadismo e falava com um tom mortal e impassível. Apesar de suas tendências sociopatas, havia uma inocência na personagem de Ricci que ainda a tornava queridinha.

Na vida real, ela também era muito inteligente e charmosa. A mídia adorou sua confiança e sua falta de interesse em atuar para adultos. Aos 15 anos, ela já havia feito oito filmes, incluindo os sucessos Gasparzinho: O Fantasminha Camarada e Agora e Sempre.

Alguns anos depois, ela começou a aparecer em filmes indie e dramáticos: Tempestade de Gelo, Buffalo 66 e O Oposto do Sexo. Em todos esses filmes, ela interpretou personagens menos inocentes, adolescentes que testavam os limites dos adultos ao redor e cresceram um pouco soltos e rápido demais.

Seu corpo - visível para o mundo julgar - também havia mudado. Ela agora tinha quadris e seios. Aos 19 anos, ela fez uma cirurgia de redução de mama porque não suportava a forma como as pessoas falavam sobre seu corpo. Alguns anos antes disso, ela havia desenvolvido um distúrbio alimentar. A ansiedade se tornou uma companheira constante. Desconfortável com a atenção, ela começou a reagir através da mídia, com declarações hiperbólicas e provocativas em entrevistas, incluindo uma piada sobre incesto para um repórter que queria discutir o caso de amor entre irmãos em Les Enfants Terribles, de Jean Cocteau, depois que Ricci expressou seu apreço pelo romance francês. Essa atitude de confronto, ela acredita, provavelmente lhe custou alguns papéis.

Navegar em sua carreira pelas próximas duas décadas foi um desafio. Não que ela tivesse azar. Oportunidades incríveis se apresentaram. Ela trabalhou com diretores como Wes Craven, John Waters, Lana Wachowski e Woody Allen.

Mas a pressão ficou muito intensa. Então ela parou de se importar com os papéis que conseguia ou não conseguia, ela disse. Ela começou a se desligar emocionalmente de seu trabalho. Era difícil sentir qualquer tipo de paixão. Ela não está reclamando; afinal, é da vida de um ator ouvir “não”. Ainda assim, a rejeição sempre doeu. Para lidar com isso, Ricci costumava dizer a si mesma que nada disso - este mundo, este cenário, esse papel - era real.

"Eu costumava repetir para mim mesma várias vezes: 'Você não existe'", ela disse.

Um ponto de virada

Se há uma linha de passagem, uma maneira de entender como Ricci atravessou uma indústria dominada por homens ocasionalmente sem imaginação, de menina a adulta, Ricci apontou sua decisão de fazer Monster - Desejo Assassino em 2003. No ano anterior, ela havia lido o roteiro de Patty Jenkins e adorado. Ela teve uma reunião com Jenkins e Charlize Theron, que havia assinado contrato para interpretar a protagonista, Aileen Wuornos.

O filme conta a história real de Wuornos, uma profissional do sexo e serial killer na Flórida que assassinou e roubou vários de seus clientes. Jenkins e Theron queriam que Ricci interpretasse Selby Wall, a namorada de Wuornos. Elas explicaram que não estavam tentando fazer um filme lascivo. Seria algo grotesco e inflexível. Ricci queria dizer sim. Mas algumas pessoas temiam que isso fosse um erro. Ela ficaria muito feia. E seria muito desagradável. Não haveria volta.

Ela fez mesmo assim. Ela se preocupou, é claro. Na época, havia um caminho definido para ser uma estrela de cinema, e ela queria a orientação de quem sabia como chegar lá. Monster se desviou disso.

No entanto, o filme foi um sucesso comercial e de crítica. A relação entre Wall e Wuornos é tão complicada, e o que acontece é tão terrível, que é impossível desviar o olhar. Quando Theron ganhou o Oscar de melhor atriz em 2004, ela agradeceu sua co-estrela chamando-a de “protagonista”, dizendo: “Você é realmente a heroína desconhecida deste filme”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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