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Ao criar 'A Fera do Mar', os animadores se preocupam com os mínimos detalhes

Animação de Chris Williams pode ser o projeto de animação digital mais ambicioso que a Netflix já realizou até hoje

Gabe Cohn, The New York Times

18 de julho de 2022 | 10h00

Graças aos testes de covid-19, é normal que alguém tenha se familiarizado intimamente com o interior do nariz humano nos últimos dois anos. Mas ao fazer pesquisas para seu novo filme de animação, o diretor Chris Williams mergulhou mais fundo nas narinas do que a maioria de nós.

Vi vídeos de câmeras minúsculas navegando nas passagens nasais”, ele disse. Ele também pesquisou imagens do Google, vasculhando as cavidades nasais de diferentes animais.

O ímpeto de Williams para adquirir conhecimentos nasais foi uma cena em A Fera do Mar, da Netflix, que pode ser o projeto de animação digital mais ambicioso que a empresa de streaming realizou até hoje. Dirigido por Williams e escrito por Williams e Nell Benjamin, A Fera do Mar se passa em um mundo de fantasia onde equipes de caçadores lutam com monstros colossais usando grandes navios de madeira. (As influências incluíram Mestre dos Mares: O Lado mais Distante do Mundo, King Kong e mapas da era renascentista em que monstros ilustrados assombram o alto mar.)

A história segue Maisie (dublada por Zaris-Angel Hator), filha de dois caçadores de monstros mortos, que escapa de um grupo opressivo para se juntar à tripulação de um navio lendário conhecido como O Inevitável. Lá, ela conhece Jacob (Karl Urban), com seus cabelos loiros movimentados pelo vento e prestes a se tornar o próximo capitão do Inevitável.

Sua co-protagonista não fala: é um monstro majestoso conhecido como Red Bluster, ou simplesmente Red, que começa como alvo de uma missão de caça, mas acaba formando um vínculo com Maisie e Jacob. Em um ponto, Maisie e Jacob se encontram dentro de uma das narinas de Red.

Veja como os cineastas criaram a fera e pensaram em alguns dos outros destaques visuais do filme.

A Pele

Uma prioridade para Williams e sua equipe era criar um mundo convincente e vívido – “nos mínimos detalhes”, nas palavras de Williams. “Esperamos lançar um feitiço no qual o público perceba uma história profunda”, ele disse. Essa filosofia transparece no desenho do rosto de Red, do qual se projeta um chifre arranhado e com cicatrizes.

“Queríamos que sua pele estivesse machucada porque ela passou por muitas batalhas com os caçadores”, disse Woonyoung Jung, diretor de arte do filme.

E, no entanto, eles também queriam que as texturas da pele de Red fossem mais simples e mais próximas aos mamíferos do que as de algumas das outras feras vistas no filme, para que o público pudesse formar uma conexão mais profunda com Red. “Nos relacionamos mais facilmente com mamíferos do que com insetos ou peixes”, disse Matthias Lechner, designer de produção. “Então os monstros que eram adversários eram mais duros.” Um exemplo disso é uma criatura parecida com um caranguejo, na qual você pode ver pelos e saliências fotorrealistas que criam um efeito de vale misterioso.

 

Os Olhos

Os olhos de Red, que parecem os de um lagarto acima dos sulcos nas laterais de sua cabeça, foi em parte ditada por uma cena em que Maisie e Jacob se empoleiram na frente de um dos olhos de Red e a orientam para onde nadar. “Tinha que haver um lugar para eles ficarem”, disse Lechner, “e o olho tinha que ter um certo tamanho”. Para ajudar a vender o arco da personagem Red de inimiga para amiga, a equipe evitou fazer as íris humanas e imediatamente empáticas – elas estão mais próximas dos olhos de um gato. “Isso coloca uma barreira emocional entre o público e a criatura”, disse Williams, “algo que eles precisam superar”.

O Tamanho

Desde o início, o conceito era que Red e os outros monstros marinhos fossem surpreendentemente grandes. Mas o tamanho apresenta desafios para os animadores. “Você poderia fazer um gigante como o Godzilla, mas em algum momento não é mais possível relacionar aos humanos”, disse Lechner. “Então, muito deste filme foi descobrir escalas que são impressionantes o máximo possível, mas que ainda se associam aos humanos.” O tamanho também precisava ser gerenciável o suficiente para que os personagens humanos se encaixassem no quadro ao interagir com as feras, seja lutando contra elas ou fazendo amizade com elas.

Para expressar o grande tamanho e peso dos animais, a equipe confiou em parte na água do mar animada, que é simulada de forma realista. “Conhecemos a água”, explicou Lechner, “então podemos julgar distâncias e escalas de acordo com a água com bastante facilidade. É como uma régua.”

​A Cor

Lechner citou Porco Rosso: O Último Herói Romântico, um filme de animação de 1992 do Studio Ghibli que mostra um avião vermelho contra um oceano azul, como inspiração para a paleta de cores de A Fera do Mar. Mas houve considerações práticas na escolha do tom específico de vermelho que a personagem Red teria. “Quando aumentei demais a saturação, ela parecia pequena – ela se tornou uma criatura de brinquedo”, disse Jung, o diretor de arte. “Quando reduzi a saturação, ela se tornou muito realista, como uma criatura de ação ao vivo.” A equipe queria algo que parecesse natural e orgânico, mas ainda animado na tela – algo que “abraçaria dois mundos diferentes”, disse Jung. Eles decidiram por um vermelho levemente dessaturado que se inclina para o magenta. Quando a personagem está longe, esse tom é amenizado para dar a impressão de atmosfera entre a câmera e o personagem – da mesma forma que, na vida real, as montanhas ao longe costumam se inclinar para o azul ou roxo.

Como regra geral, as criaturas e os ambientes naturais do filme são coloridos, enquanto os elementos humanos – particularmente o reino estéril e barroco do qual O Inevitável zarpa – são comparativamente embotados. “Jardins barrocos têm tudo a ver com o controle da natureza”, disse Lechner. “É muito contido, enquanto o toque de cores na natureza está fora de controle e é divertido.”

Dessa forma, acrescentou, “estamos do lado da natureza”. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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