Antônio Fagundes lota sala ao receber troféu em Gramado

Contratados para dar respeitabilidade ao Festival de Gramado (e prepará-lo para o futuro), José Carlos Avellar e Sérgio Sanz vão suar muito para mudar o conceito do evento. Para isso terão de convencer não apenas os organizadores, mas a própria comunidade gramadense de que a discussão sobre o cinema deve predominar sobre o glamour do tapete vermelho. Para os gramadenses, é só o que importa. Havia meia sala na terça à noite para assistir, no Palácio dos Festivais, à primeira sessão da mostra competitiva de curtas em 35 mm. Quando passou o último dos três curtas - "Vermelho Rubro no Céu da Boca", "O Sr. e a Senhora Martins" e "No Princípio era o Verbo", todos assinados por mulheres, Sofia Federico, Laine Milan e Virginia Jorge -, a sala lotou como por encanto para a homenagem a Antônio Fagundes, que recebeu o troféu Oscarito.Fagundes é tão homem de teatro, cinema e TV que seria injusto dizer que o público que o aplaudiu na entrada da sala não o identifica pelos trabalhos na tela grande. Mas a popularidade, é óbvio, vem da televisão, que alavanca as demais atividades. Saudado como ´grande Fafá´ pelo mestre-de-cerimônias José de Abreu - cujas gracinhas já cansaram no segundo dia -, Fagundes agradeceu pela homenagem e declarou-se lisonjeado por ganhar um troféu que leva o nome do genial Oscarito. É o nosso Oscar, já virou lugar-comum os apresentadores dizerem isso no palco. Vladimir Carvalho e Nelson Pereira dos Santos também serão homenageados, mas dificilmente provocarão o mesmo frenesi. É a diferença que existe entre uma cultura cinematográfica e outra audiovisual, com base no modelo televisivo.A competição prosseguiu com o longa boliviano "Dí Buen Dia a Papá", de Fernando Vargas, que chegou precedido da reputação de ser vergonhoso e revelou-se muito digno, e com o nacional "Sonhos e Desejos", de Marcelo Santiago, cujo mérito resume-se quase todo na participação de Mel Lisboa. Em alguns momentos, ela revela uma sensibilidade dramática superior ao filme e ao próprio papel. Estreando na direção, o mineiro Santiago reabre a vertente da guerrilha no cinema brasileiro, contando uma história de relações num aparelho que inclui um professor de literatura, sua mulher e um companheiro ferido em ação. Mais do que a discussão política, interessa ao diretor criar um thriller erótico a partir da perturbação que o estranho mascarado causa na mulher. O que é isso, companheiro? O personagem é, supostamente, um bailarino. Seu codinome é Nijinski e o tempo todo se fala em Pássaro de Fogo, sem que Santiago ofereça a contrapartida de Stravinski na trilha. Falta finesse ao estreante.O filme boliviano conta a história de três mulheres pertencentes a gerações diferentes e ligadas primeiro pela morte e, depois, pelo resgate dos ossos de Ernesto Che Guevara. A revolução política vira existencial, com libertações individuais. É o tema, também, de "Sonhos e Desejos", mas que Vargas desenvolve melhor, amparado num roteiro (dele) que evoca, pela estrutura temporal, o de "As Horas". A atriz, a cubana Isabel Santos, é maravilhosa. "É um papel muito intenso", ela confessou, no café da manhã, ao enviado do Estado.

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